Por Machado de Assis (1878)
No dia seguinte a impressão deste era um tanto complexa e perplexa. Aquela mistura de franqueza e reticência, de agressão e meiguice, dava à filha de Luís Garcia uma fisionomia própria, fazia dela uma personalidade; mas a fisionomia era ainda confusa e a personalidade vaga. Jorge sentia-se empuxado e retido, ao mesmo tempo, por dous sentimentos contrários; tinha curiosidade e repugnância de penetrar o caráter da moça, e conhecer e distinguir os elementos que o compunham. O que lhe parecia claro e definitivo era que as primeiras palavras de Iaiá, tão duras e tão secas, não passavam de uma expressão de despeito, por supor da parte dele a aversão que não existia; e se as palavras em si o magoavam, a explicação lisonjeava-lhe o amor-próprio. O resto era inexplicável. Jorge resolveu, entretanto, não lhe falar mais de Procópio Dias, apesar da confissão que ela lhe fizera naquela tarde, confissão aliás contrastada ou diminuída pelo gesto que se lhe seguiu.
Iaiá pareceu perder a disposição agressiva; e à força de afabilidade apagou inteiramente os vestígios da antiga rispidez. A alma não se lhe tornou mais transparente, nem o caráter menos complexo; mas a esquisita urbanidade dos modos fazia suportáveis os saltos mortais do espírito, e aumentava o interesse do que havia nela obscuro ou irregular; finalmente, era um corretivo à tenacidade com que a moça confiscava literalmente o filho de Valéria. Jorge estimou, sobre todas, esta circunstância, porque lhe tornou mais fácil a freqüência da casa. Ele pertencia ao pai ou à filha, — muitas vezes aos dous. Iaiá atirou-se ao xadrez com um ardor incompreensível, e dizendo-lhe Jorge que era preciso ler alguns tratados, ela pediu-lhe um, e porque ele só os tivesse em inglês, Iaiá pediu que lhe ensinasse inglês.
— Mas eu sou um mestre muito ríspido, observou ele.
— A discípula é muito pior.
Estela assistia algumas vezes às lições do idioma e do jogo; — duas cousas que lhe pareciam incompatíveis com o espírito da enteada. Verdade é que Iaiá mudara tanto naquelas últimas semanas! Não lhe supusera nunca tão longa paciência, nem tão repousada atenção. Iaiá gastava uma a duas horas por dia a decorar os verbos e os substantivos da nova língua, como um colegial em véspera de exame; e essa paixão recente tinha o condão singular de irritar a madrasta. Jorge, pelo contrário, sentia em si os júbilos do pedagogo. O professor é o pai intelectual do discípulo; Jorge contemplava paternalmente aquela inteligência fina, paciente, e tenaz, servida por dous olhos de pomba e duas mãos de arcanjo.
No meado de fevereiro tornaram a falar de Procópio Dias, a propósito de uma carta que Luís Garcia recebera. Veja lá, disse a moça; ele escreveu a papai e nem uma palavra especial para mim. “Lembranças a D. Estela e a Iaiá.” Nada mais. Ele escreveu-lhe?
— Até agora não.
— Não há nada como a ausência para fazer esquecer tudo, — isto é, esquecer os que ficam. Talvez já não pense em casar comigo. Foi um capricho que passou, como todos os caprichos; foi como a chuva de ontem, que deu apenas alguns salpicos de nada. E contudo parecia que vinha abaixo o céu. Não é? a paixão dele não é como a trovoada? ameaçou no Rio de Janeiro e foi cair em Buenos Aires. Aposto que vem de lá casado. Verá que não é outra cousa. Que me diz a isso? Vamos; diga alguma cousa.
— Não posso, redargüiu Jorge. A senhora deu-me o cargo de confidente e não de conselheiro; limito-me a ouvi la. Verdade é que o tal cargo até agora parece simples sinecura.
— Que é sinecura?
Jorge sorriu e definiu-lhe a palavra.
— Não é sinecura, acudiu Iaiá; pelo contrário, é um cargo muito espinhoso.
— Não creio. A confidência única até hoje não me pareceu sincera. A senhora não ama o Procópio Dias. Iaiá franziu a testa.
— Por que me diz isso?
— Porque, se o amasse, falaria de outro modo, e sobretudo não falaria tanto. O amor, nessa idade, vive de reticências, não de frases e menos ainda de frases tão compostas.
— Cale-se! interrompeu ela batendo-lhe com a gramática na ponta dos dedos. E depois de uma pausa.
— Se ele lhe escrever, mostra-me a carta?
Como Jorge lhe dissesse que sim, Iaiá fez um movimento para rasgar o volume em dous pedaços. Jorge perguntou-lhe o que tinha.
— Nervoso! respondeu a moça sacudindo os ombros com um calefrio. Depois, como a amparar-se, lançou-lhe a mão a um dos pulsos. Jorge sentiu a pressão de uns dedos de ferro; e parece que outros dedos invisíveis também comprimiam as faces da moça, vermelhas como se vertessem sangue.
Capítulo 13
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.