Por Machado de Assis (1876)
De coração.
Pois bem, seja completo, tornou o padre. Sou ministro de uma religião que condena o orgulho. Não há de ser em curar as feridas de um amigo; vá ter com o seu amigo; traga-o a esta casa, como irmão.
Irei amanhã.
Não; vá hoje mesmo.
A noite caiu logo; Estácio foi dali vestir-se. Não tendo enviado o bilhete de Helena, meteu-o na algibeira para entregá-lo ele próprio; depois tirou-o e releu-o; tendo-o relido, fez um gesto para rasgá-lo, conteve-se e perpassou-o ainda uma vez pelos olhos. A mão, à semelhança de mariposa indiscreta, parecia atraída pela luz; resistiu, resistiu algum tempo; enfim chegou o bilhete à vela e queimou-o.
CAPÍTULO XX
A visita de Estácio não causou nenhum espanto a Mendonça; ele a esperava com a confiança das índoles ingênuas e avessas ao ódio. Não era crível que um amigo de longos anos dormisse sobre a injustiça de um minuto; contudo dormiu. Foi na seguinte manhã que Estácio procurou o pretendente de Helena.
Entrou naturalmente em casa de Mendonça, sem expansão nem secura. A entrevista foi breve e cordial; houveram-se os dois com afetuosa dignidade. Estácio explicou os escrúpulos, declarou-se contente com a aliança. O contentamento podia existir; todavia, a manifestação foi parca e seca. Houve mais calor e expansão quando ele lhe pediu que desse vida feliz à irmã.
Será para mim um eterno remorso, se Helena vier a ser desgraçada, disse ele. Não tivemos o mesmo berço, vivemos nossa infância debaixo de teto diferente, não aprendemos a falar pelos lábios da mesma mãe. Importa pouco; nem por isso lhe quero menos. Meu pai recomendou-a à nossa família, e ela correspondeu ao sentimento que ditou essa última vontade.
Mendonça não respondeu nada; refletira, durante a noite, nas palavras que ouvira a Estácio no dia anterior; — palavras que bem podiam ser ditas ou pensadas por outros, talvez por todos, logo que soubessem do casamento. Helena viria a amá-lo, talvez; mas, desde logo lhe levava para casa a chave da independência. Mendonça recuou. Quando o Padre Melchior o soube, não pôde conter um gesto de admiração; mas, se louvou o escrúpulo, não aprovou a resolução, que vinha derrubar tudo.
Não tapará nunca a boca aos maus, disse o padre; eles acharão meio de envenenar- lhe a generosidade.
Paciência! tornou o moço, é menor esse perigo. Se casar, dirão que faço uma operação vantajosa; talvez a família o suponha; talvez ela própria o pense.
Helena teve notícia dos receios do pretendente, e da resolução a que parecia inclinar o coração. Perguntou-lhe se era verdade. Mendonça afirmou que sim. Ela contemplou-o longa- mente, sem dizer palavra; travou-lhe das mãos, apertou-as com efusão; ele persistiu.
No desinteresse de Mendonça havia porventura um pouco de faceirice. A moça o percebeu, nem por isso deixou de crer na sinceridade do rapaz. Tentou dissuadi-lo; e, posto nada alcançasse nos primeiros minutos, estava certa de que venceria o derradeiro obstáculo. Teria os olhos mais hábeis e felizes que os lábios do padre. Foi o que ela disse ao capelão.
Tomo à minha conta efetuar este casamento, continuou Helena.
Resolvida a tudo?
A tudo.
Mas, se ele insistir.
Se ele insistir, vencê-lo-ei, ou por um modo ou por outro. Uma moça que quer ser noiva, vale por um exército; eu sou um exército.
Muito bem! Contudo, sua dignidade...
Oh! em último caso abro mão da herança.
Era capaz disso? perguntou Melchior.
Se era capaz? Desejo-o até, disse a moça com veemência. E acrescentou em tom mais brando:
Sobre o homem de minha escolha desejo que não paire a mínima desconfiança.
Tal era a situação, dois dias depois da volta de Estácio. O casamento podia contar-se feito. Mendonça não resistiu ao desinteresse de Helena. D. Úrsula aprovou tudo com efusão e amor, nada sabendo das incertezas e contradições dos últimos dias.
Na noite desse dia, Estácio escreveu para Cantagalo dando notícias suas. Do casamento de Helena falou pouco, quase nada. Tudo o descontentava; tanto o que ele fizera e dissera, sem proveito, como o desenlace da situação. Não soubera opor-se com eficácia, nem aplaudir oportunamente.
Posto fosse tarde, o sono teimava em fugir-lhe, e ele velou até muito além da meia- noite. Ocupado, sem dúvida, em adormecer organizações menos sensíveis e existências menos complicadas, o sono fez-lhe apenas uma curta visita. Pelas cinco horas da manhã, Estácio acordou e ergueu-se. A manhã estava fresca; quase toda a família dormia. Estácio desceu; o único escravo que achou levantado preparou-lhe uma xícara de café. Não tendo ainda chegado os jornais, bebeu-a sem a leitura do costume.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.