Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Como em continuação da viagem pela Rua do Ouvidor, mostra-se a casa que foi - loja de perfumarias de Mr. Desmarais, lembram-se muitas das suas maravilhas e modas de penteados - trepa-moleque, a romântica estrada da liberdade, etc., e diz-se como o sobrevivente dos dois velhos Desmarias, retirado dos negócios, se conserva ainda robusto e sempre simpático e alegre, e é hoje o mais hábil dos amadores de pescaria de caniços nos mares de Niterói, o que faz suspeitar benigno influxo dos espíritos das belas pescarias da Rua de Aleixo Manoel. Cumprimenta-se de passagem ao Sr. Bernardo Ribeiro da Cunha. Como a propósito das perfumarias da Rua do Ouvidor incorre-se no despropósito de falar dos antigos tigres que a freqüentavam de noite; referem-se aos infortúnios ridículos de um inglês e de um estudante de Medicina; mencionam-se algumas reformas que houve em matéria de despejo até a inexcedível perfeição da City Improvements. O autor arrepende-se do assunto de que por último tratou, e, desapontado, fica no canto.
Um caminhante, homem de experiência, dizia aos companheiros de jornada: "devagar; que eu tenho pressa". Eu não digo o mesmo aos meus leitores, porque em viagem pela Rua do Ouvidor não há meio de andar depressa.
Uma dúzia de passos além da casa do Grão-Turco já é força parar em frente da de n.º 84, onde ainda no ano passado (1877) se achou instalado nada menos que o Globo, e agora se acha o Economista.
Aí outrora, isto é, há mais de meio século, floresceu, ou rescendeu, a primeira loja de perfumarias de que tenho notícia na Rua do Ouvidor.
Contemporânea da casa de modas do Saisset, ainda hoje é lembrada por celebridade cheirosa e simpática a de perfumarias do Desmarais.
Eram dois irmãos os Desmarais, um, o mais velho, e primeiro chefe da casa, deixou no Rio de Janeiro prole de esmerada educação, mas pouco afortunada; o outro, sucessor do primeiro, vive ainda sem prole e sem fortuna, e Deus lhe prolongue a vida, porque mesmo sem ter loja de perfumarias, como dantes, conserva tanto cheiro de bondade que é realmente um velho atrativo.
A loja de perfumarias Desmarais teve no seu gênero a glória e a primazia de que gozou a do
Wallerstein; exerceu o governo e fez o encanto do nariz, dos cabelos, e das barbas da cidade do Rio de Janeiro; introduziu os preciosos segredos que carbonizam a neve que a idade derrama sem piedade sobre as mais graciosas cabeças; acabou com as últimas e mais pertinazes cabeleiras apolvilhadas e de rabicho, substituindo-as por melhores e dissimuladas cabeleiras em favor dos calvos, e em socorro de belezas descabeladas; por força de lógica reformadora, abolindo o polvilho, não ousou ou não soube então explorar o pó-de-arroz simples ou composto, mas em compensação brilhou em apuros do nacar; e até ganhou não pouco dinheiro em moscas.
Loja prodígio!... tornou como redivivos em moças vivas cabelos de moças defuntas, e deu às moças já velhas o condão de deixar em sua passagem e em seus vestígios suaves odores de juventude.
Essências, sabonetes, escovas, suavíssimas esponjas, adornos de toucador, vidrinhos de cheiro, espelhos, bonecas, cabelos anelados, etc., só as do Desmarais, a que, eu o creio, chegavam encomendas até de Goiás e de Mato Grosso.
O que a loja Desmarais ganhou em pentes durante algum tempo depois de 1830 só o podem calcular aqueles que se lembram das cabeças, não me atreverei a chamar monstruosas, mas chamarei monumentais das senhoras do melhor tom.
Eram penteados enormes em torno de pentes que os excediam, e tanto, e tanto que o povo eloqüente nas denominações que inventa e impõe, fê-lo chamar pentes e penteados de - trepamoleque - para indicar a sua altura.
A loja Desmarais fartou-se de vender os seus - trepa-moleques! - de palmo e meio de altos.
A moda dos trepa-moleques coincidiu com a dos vestidos chamados de mangas de presunto pela semelhança da forma, aliás exagerada, com a dos presuntos de Lamego, de modo que as senhoras ostentavam então pequenos e irregulares balões aerostáticos por mangas de vestido, e o mundo da lua por toucado.
Sou de opinião que as mimosas jovens elegantes da atualidade não seriam dos trepa-moleques e das mangas de presunto daquele tempo, para não dar direito às suas herdeiras de elegância a rirem-se dos vestidos ultranesgados e dos puffs ocidentais das penúltimas e últimas modas.
Dos irmãos Desmarais o mais velho retirou-se do comércio, preferindo ocupar-se da educação dos filhos a continuar na exploração das perfumarias.
O Desmarais, irmão mais moço, ficou dirigindo a casa com inteligência e natural amabilidade.
No tempo do seu florescimento houve revolução nos bigodes e nos cabelos dos homens; porque logo depois de 7 de abril de 1831 foram banidos os bigodes dos militares, o que deu por certo mais trabalho aos barbeiros, não porém aos cabeleireiros do Desmarais.
Cerca de quatro anos depois introduziu-se vinda de França a moda dos cabelos longos e penteados em torno da cabeça; não à Voltaire, como alguns chamavam, mas precisamente à romântica.
Em França tinha essa moda certo interesse, pois que era usada pelos cultivadores e apaixonados da escola romântica no teatro e no romance. No Rio de Janeiro não se observou semelhante significação literária; mas os cabeleireiros do Desmarais tiveram de pentear diariamente cabelos à romântica em dezenas de cabeças, porque a moda fez furor entre os estudantes, os moços, e até entre alguns velhos, muitos dos quais se entregavam pacientes à longa aplicação do ferro quente para se encresparem os cabelos.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.