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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Por estar na vossa graça
mando os versos, que quereis:
mas vós que me pedireis,
Úrsula, que vos não faça?
Veio aqui a Mangalaça
uma com outra mixela
fazer uma refestela,
e entre tanta pecadora
nunca Mangalaça fora,
se não viésseis vós nela.
Estava eu vendo passar
as Pardas tão mal fardadas,
que cri, que vinham roubadas,
e elas vinham nos roubar:
não tive então, que Ihes dar,
que em mim o dar se acabou;
mas como sempre ficou
a vanglória de agradar-lhes
se até agora dei em dar-lhes
já agora em não dar-lhos dou.
Enquanto ao sorvo, e ao trago
não houve falta, antes sobre,
que ainda que a Juíza é pobre,
ganha às vezes, que é um lago:
houve mais vinho que bago,
e mais caldo que pimentas,
e estando todas sedentas
bebendo uma e outra vez
o relógio dava as três,
e o frasco dava as trezentas.
Só vós, Úrsula bizarra,
entre uma e outra borracha
cantáveis como gavacha
sustenidos de guitarra:
deu-vos o sumo da parra
numa fábrica estrangeira,
pois num palafrém lazeira
formastes, com dar um zurro,
para vosso amigo um burro,
para vós uma liteira.
Fostes nas ancas chantada,
e haveis de vos agastar,
se Sodoma vos chamar,
indo de ancas cavalgada:
eu já vos não digo nada,
porque hei medo a vossos dentes:
só digo, que andam as gentes
dizendo, que o vosso amigo
se expôs a tanto perigo,
porque ia co'as costas quentes.
As mais sobre o seu palmilho
como iam com tanto ardil,
cuidei, que eram de Madril,
onde há festa do trapilho:
eu nunca me maravilho
de ver, que Moças honradas
vão a pé grandes jornadas:
porém, maravilha encerra,
que as Mulatas desta terra
andam sempre cavalgadas.
Bem fez o vosso Mandu
dar-vos lugar consoante,
pois levando as mais diante,
vos pôs atrás do seu cu:
da Bahia até o Cairu
não vi justiça fazer
tão razoada a meu ver,
e portanto creio eu,
que quem hoje o cu vos
deu, vos mande amanhã beber.
Vós me destes grande abalo,
quando nas ancas vos vi,
porque cegamente cri,
que éreis rabo do cavalo:
olhei com mais intervalo,
e com vista menos presta:
então pus a mão na testa,
vendo, que se pelo cabo
não éreis da besta o rabo,
íeis por rabo da besta.
Deixai esse amigo imundos
porque vi grandes apostas,
que quem assim vos deu costas,
tem dado as costas ao mundo:
tomai um rapaz jucundo,
mundano, e não abestruz,
que receio, que os Mundus,
que são, os com quem falais,
hão de dizer, que Ihe andais
atrás sempre dos seus cus.
Deixai essas galhofinhas,
e retirai-vos de ambófias,
que isto de andar em bazófias
é mui próprio de putinhas:
cosei em casa as bainhas,
fazei costuras, e rendas,
que mulheres de altas prendas
tratam só do seu remendo:
isto só vos encomendo,
senão: minhas encomendas.

A SAGACIDADE CAVILLOSA COM QUE O RELlGIOSO FR. PASCOAL FEZ

PRENDER A THOMAZ PINTO BRANDÃO: DÀ O POETA CONTA A HUM AMIGO DA
CIDADE DESDE A VILLA DE S. FRANCISCO.

Já que entre as calamidades,
em que a fortuna me encerra,
não colho os fruitos da terra,
vos mando outras novidades:
e como nesta as verdades
têm mais que noutra amargor,
será ardil de mercador
embarcá-las além-mar,
porque a risco vão ganhar
dez por cento em seu valor.

Sucedem nesta conquista
cada dia sobre os vasos
casos, que por serem casos,
se propõem a um Moralista:
cursava um Frei Algebrista
de certa ordem sagrada
na escola de uma casada,
que lia em falsa cadeira
putaria verdadeira
por postila adulterada.
la tomar-lhe a postila
um curioso estudante
secular como um diamante
Moço honrado desta vila:
e como tinha quizila
o Frade no companheiro,
Ihe grunhia o dia inteiro
ao pobre do secular,
porque Ihe havia encaixar
a pena no seu tinteiro.

Não cuide, que temo agouros,
nem creia de mim, que sinta,
que me ande gastando a tinta,
mas não destripe os poedouros:
queria dar-lhe uns estouros
ao pobre do secular,
que como vinha a furtar,
e Ihe convinha o sofrer,
calava só por comer,
comia só por calar.

Mas o Frade impaciente
com tão leiga sociedade
se vestiu de caridade,
e foi queixar-se ao Regente:
disse, que o Moço insolente
difamava uma casada,
e tinha a vida arriscada,
porque em certa ocasião
o Frade Ihe dera ao cão,
e o cão não Ihe dera nada.

O Regente, que encaminha
tudo à boa providência,
suposto que tem prudência,
contudo não adivinha,
entendeu, que a casadinha
era parenta do Frade,
não se enganou em verdade,
porque estando ela co mês,
é parenta, em que Ihe pes,
do Frade em sanguinidade.

Preso enfim o secular,
porque a todos nos espante,
foi o primeiro estudante,
que prendem por estudar:
o que venho a perguntar,
é, quem foi o alcoviteiro,
deste Fradinho embusteiro,
se a prisão, se o Regedor,
ou se acaso o prendedor,
que se diz Manuel Monteiro?

O preso tudo é gritar,
que se ouve por toda a vila,
que dele tomar postila
têm todos, que argumentar:
o Frade tudo é instar,
que a culpa é muito maligna,
que à popa, ou pela bolina
deve ir numa paviola
o secular para Angola,
porque ele fique na mina.

Afirma o Preso em verdade,
que àquela escola ruim
ia aprender mau Latim,
por se querer meter frade:
e sua Paternidade
usava de ingratidão,
pois sem causa, nem razão,
a quem Ihe fez o favor
de o ir desprender de amor,
o tinha posto em prisão.

Item, que sempre fugia
do Fradinho as encontradas,
pois ia em horas minguadas,
quando o Frade às cheias ia:
que sempre se Ihe escondia,
por Ihe ouvir, que é sua Prima
e porque ele o não oprima,
tomava em horas traidoras
as lições das outras horas,
e Ihe deixava as da Prima.

Eu vos proponho os motivos
do sucesso, e seus fracassos,
porque quem ignora os casos,
não sabe os nominativos:
eu perco logo os estrivos
com estas filatarias,
pois vejo todos os dias,
que um Frade (seja quem quer)
pelo meio de as perder
assegura as putarias.

O pobre do secular,
porque o caso vá distinto,
se chama Fulano Pinto,
mas já Pinto de galar:
porém o Frade alveitar,
que eu tenho por macacão,
não entra em publicação,
por que eu perca esse regalo,
pois morro por batizá-lo,
para que morra cristão.

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