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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

Enfim a última condição é que não haja oposição ou veto. É neste ponto que Portugal tem hoje, em Roma e no Vaticano, mais importância que as grandes potências unidas. O conclave sabe e todos são acordes que a França, a Espanha, a Áustria, todas com razões diversas, não exercerão o seu direito. Mas Portugal pretende exercê-lo ou, pelo menos, assim o crêem os cardeais. Daqui uma comoção muito nervosa, em suas eminências. Nos princípios deste mês o senhor conde de Tomar, nosso embaixador em Roma, foi recebido pelo papa, e este simples facto causou, posso afirmá-lo, no mundo eclesiástico de Roma, tanta sensação como a morte de Vítor Manuel.

Porque o que se receia entre os cardeais não é que Portugal interfira por interesses propriamente seus, mas que se encarregue de representar os interesses das potências que não têm direito de veto. Estas duas potências são a Alemanha e a Itália: os seus interesses seriam um papa liberal; Portugal é essencialmente liberal e, além disso, unido às duas cortes pela Casa de Sabóia e pela Casa de Coburgo; portanto, concluem os cardeais, é bem possível que Portugal vá, pela sua oposição, fazer valer no conclave os interesses das duas nações inimigas do Vaticano.

O direito de veto não é exercido pelo embaixador, mas por um cardeal, que se encarrega de apresentar no conclave o protesto, em nome da nação que o lança: diz-se em Roma que há já um cardeal que tem na algibeira da sua batina o veto de Portugal – na ausência do único cardeal português, que é o patriarca de Lisboa. Daqui uma intriga desesperada, ávida de saber quem o cardeal portador.

Os dois cardeais que têm mais probabilidades de se sentar no trono de 5. Pedro são o cardeal Billio e o cardeal Monaco de la Valleta. Têm ambos cinquenta anos, a mais alta jerarquia eclesiástica, uma ambição extrema, uma astúcia penetrante. Monaco de la Valleta ajudou à composição do Syllabus, mas exprime opiniões liberais quando vê que, numa circunstância dada, isso pode trazer-lhe um apoio forte na realização da sua esperança. Isto pinta o fino prelado. Billio tem seguido sempre a mesma táctica: e ambos eles procuram ansiosamente averiguar qual é o cardeal portador do veto de

Portugal, que pode no momento último separá-los da desejada tiara. Portugal tem pois, neste momento, uma voz, numa grave questão europeia, em que poucos a têm. E os que não podem falar têm os mais altos interesses na solução desta questão.

Portugal pode entrar e falar no conclave. A Alemanha, a Itália, a Inglaterra, não podem. É fácil de ver a nossa importância neste momento, em que temos o privilégio de entrar quando as grandes potências têm de ficar à porta.

De todos os fenómenos naturais, o som era decerto aquele que, até aqui, a ciência e os inventores tinham perturbado menos. Pelo menos, em comparação da electricidade e da luz – obrigadas a fazer o mais reles do serviço –, o som gozava uma tranquilidade relativa. Neste século uma tal paz não podia durar. O Dr. Bell foi o primeiro a inquietá-lo, com a invenção do telefone. E agora temos um outro fantasista, que apenas pretende isso – guardar o som de conserva. O aparelho (há necessariamente um aparelho) recebe, por exemplo, o discurso do orador, guarda-o e daí a meses, ou anos, pode reproduzi-lo com a voz do orador e as suas menores inflexões, desde os ímpetos da retórica até à tosse ou espirros casuais. Deve-se fazer proximamente em Londres uma grande experiência. A primeira aplicação em que se vai empregar, ao que parece, é nas disposições da última vontade. Em lugar de fazer o testamento por escrito, o moribundo fala o seu testamento, o aparelho recolhe as palavras e, dado o caso de uma contestação judiciária, o aparelho vem ao tribunal e reproduz a mesma voz do moribundo cortada dos mesmos gemidos. A descrição do aparelho é complicada, mas, tanto quanto pude perceber, consiste nisto, por alto: um tímpano, de uma sensibilidade quase sobrenatural, à medida que vibra com os sons recebidos vai imprimindo numa tira de massa um certo número de sinais côncavos; essa tira, voltada do avesso e solidificada, apresenta as saliências correspondentes às pressões que recebeu do outro lado; essas saliências, operando sobre um complicadíssimo aparelho pelo sistema dos cilindros de realejo, reproduzem com uma excitação milagrosa os sons recebidos pelo tímpano.

Nada mais simples...

As criadas inglesas, julgando sem dúvida que as soldadas actuais eram perfeitamente indignas de seres inteligentes, formaram uma espécie de associação para se criarem benefícios suplementares; e estes consistem em apanhar cartas comprome-tedoras às amas e venderem-lhas por preços respeitáveis. O caso infeliz de uma senhora muito sensível que se viu obrigada a pagar por um bilhete de três linhas vinte e cinco contos de réis revelou a existência desta quadrilha amável.

(continua...)

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