Por Eça de Queirós (1912)
E sempre adiante, Cristóvão ia como uma torre que marchava. Uma adoração subia para ele. “Santo é o nosso gigante” – diziam. E, na sua confiança, julgavam que a vida seria assim, eternamente, uma marcha pelos caminhos, recolhendo os bens que os nobres repartiam com os pobres. Decerto Jesus voltara à Terra. Em breve todos os castelos se abririam, e partilhadas as riquezas, quebradas as armas, não haveria fomes nem guerras, e apenas, na paz dos campos doces, irmãos abastados. O acampamento, quando paravam, era como aldeia em festa, onde a carne abunda no espeto, e todas as mãos têm uma fatia de pão. Já a marcha se abrandava. e por vezes ficavam num vale, ou à beira de um ribeiro, num repouso feliz, esquecidos de todas as misérias . Do filhos, das mulheres que tinham ficado nas aldeias, ninguém se inquietava – porque, cada dia, partiam mensageiros a levar aos casebres dinheiro e provisões. Mas alguns, tendo feito o seu pecúlio, recolhiam às suas moradas distantes, sem receio, tanta era a confiança em Jesus.
E Cristóvão sentia uma alegria imensa. De dia e de noite vigiava a turba enorme, para que nela nada houvesse de violento ou de brutal. As questões que surgissem, aplacava-as estendendo os braços. Se alguém roubava as frutas dos caminhos, expulsava-o da turba. A todos distribuía a sua justiça. A todos dava a sua caridade. E era ele, não outro, que tirava os espinhos dos pés feridos, ou amparava os velhos fatigados das marchas.
Assim vagueavam, quando uma tarde, chegando a uma grande lagoa, que, orlada de canaviais, brilhava ao sol do Outono, viram do outro lado um longo troço de cavaleiros, cujos pendões tremulavam no ar. Costeando a lagoa, decerto se encontrariam: e os Jacques e os cavaleiros pararam, um momento surpresos.
Uma grande planície estendia-se entre eles, toda cheia e coberta da erva amarelada do Outono, desenrolando-se até a uma fileira de colinas, que grandes pinheirais vestiam. O sol brilhava sobre as águas das lagoa – e havia um vasto silêncio.
A frente dos Jacques inquietos, Cristóvão ficara pensativo, um instante: - e ia marchar para os cavaleiros, pedir a caridade para os seus pobres, quando por trás a turba gritou: “Para! para!” Os homens de armas, desenrolando uma longa linha de batalha, galopavam com as lanças enristadas contra a turba miserável. Com um brado, o velho mandou-os erguer os chuços, as foices, as lanças, fazendo uma sebe de ferro contra aquela pesada cavalaria, toda negra e de ferro, que fazia tremer o chão. Já chegavam, já Cristóvão sentia o arquejar dos cavalos – quando um grande, imenso clamor soou, e a confusa massa de ferro abateu sobre os Jacques, com um grande ruído de armas, furiosos golpes de montantes, cavando, com o peitoral em esporão dos cavalos, grandes sulcos entre os Jacques, que tombavam varados pelas lanças, decepados pelos espadões vibrados às duas mãos. A legião dos Jacques ficou separada em dois pedaços – com uma grande fenda no meio, toda cheia de cadáveres , espezinhados pelas patas dos grandes corcéis. E já esses dois pedaços corriam sobre o troço dos cavaleiros, quando este se separou em dois, fazendo face às duas alas dos Jacques e enchendo a planície com o clamor de duas batalhas. Peões, cavaleiros, misturados, faziam duas massas clamorosas, onde os chuços dos Jacques se quebravam contra as armaduras, a as longas clavas com puas dos cavaleiros esmagavam crânios, que apenas algum velho morrião de ferro protegia. Os clarins dos cavaleiros tocavam furiosamente. Um relampejar de ferro enchia o ar, por entre o esvoaçar dos grandes penachos.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.