Por Eça de Queirós (1900)
Novidades e na Manhã. Sim! eis o que convinha marcar com relevo (e ele o lembraria ao Castanheiro!) - que os Ricos-homens de Santa Irenéia reviviam no seu neto, se não pela continuação heróica das mesmas façanhas, pela mesma alevantada compreensão do heroísmo... Que diabo! sob o reinado do horrendo S. Fulgêncio ele não podia desmantelar o solar de Baião, desmantelado há seiscentos anos por seu avô Leonel Ramires - nem retomar aos Mouros essa torreada Monforte onde o Antoninho Moreno era o lânguido Governador Civil! Mas sentia a grandeza e o préstimo histórico desse arrojo que outrora impelia os seus a arrasar Solares rivais, a escalar Vilas mouriscas; ressuscitava pelo Saber e pela Arte, arrojava para a vida ambiente esses varões temerosos, com os seus corações, os seus trajes, as suas imensas cutiladas, as suas bravatas sublimes; dentro do espírito e das expressões do seu Século era pois um bom Ramires - um Ramires de nobres energias, não façanhudas, mas intelectuais, como competia numa Idade de intelectual descanso. E os jornais, que tanto motejam a decadência dos Fidalgos de Portugal, deveriam em justiça afirmar (e ele o lembraria ao Castanheiro!): -"Eis aí um, e o maior, que, com as formas e os modos do seu tempo, continua e honra a sua raça!"
Através destes pensamentos, que mais lhe enrijavam as passadas sobre chão tão calcado pelos seus - o Fidalgo da Torre chegara à esquina do muro da quinta, onde uma ladeirenta e apertada azinhaga a divide do pinheiral e da mata. Do portão nobre, que outrora se erguera nesse recanto com lavores e brasão de armas, restam apenas os dois umbrais de granito, amarelados de musgo, cerrados contra o gado por uma cancela de tábuas mal pregadas, carcomidas da chuva e dos anos. E nesse momento, da azinhaga funda, apagada em sombra, subia chiando, carregada de mato, um carro de bois, que uma linda boeirinha guiava
- Nosso Senhor lhe dê muito boas-tardes!
- Boas-tardes, florzinha!
O carro lento passou. E logo atrás surgiu um homem, esgrouviado e escuro, trazendo ao ombro O cajado, donde pendia um molho de cordas.
O Fidalgo da Torre reconheceu o José Casco dos Bravais. E seguia, como desatento, pela orla do pinheiral, assobiando, raspando com a bengalinha as silvas floridas do valado. O outro porém estugou o passo esgalgado, lançou duramente, no silêncio do arvoredo e da tarde, o nome do Fidalgo. Então, com um pulo do coração, Gonçalo Mendes Ramires parou, forçando um sorriso afável:
- Olá! É você, José! Então que temos?
O Casco engasgara, com as costelas a arfar sob a encardida camisa de trabalho. Por fim, desenfiando das cordas o marmeleiro que cravou no chão pela choupa:
- Temos que eu falei sempre claro com o Fidalgo, e não era para que depois me faltasse àpalavra!
Gonçalo Ramires levantou a cabeça com uma dignidade lenta e custosa - como se levantasse uma maça de ferro:
- Que está você a dizer, Casco? Faltar à palavra! em que lhe faltei eu à palavra?... Por causa doarrendamento da Torre? Essa é nova! Então houve por acaso escritura assinada entre nós? Você não voltou, não apareceu...
O Casco emudecera, assombrado. Depois, com uma cólera em que lhe tremiam os beiços brancos, lhe tremiam as secas mãos cabeludas, fincadas ao cabo do varapau:
- Se houvesse papel assinado o Fidalgo não podia recuar!... Mas era como se houvesse, paragente de bem!... Até V. Sra. disse, quando eu aceitei: "viva! está tratado!" O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo, enfiado, aparentou a paciência dum senhor benévolo:
- Escute, José Casco. Aqui não é lugar, na estrada. Se quer conversar comigo apareça na Torre.Eu lá estou sempre, como você sabe, de manhã... Vá amanhã, não me incomoda.
E endireitava para O pinhal, com as pernas moles, um suor arrepiado na espinha - quando o Casco, num rodeio, num salto leve, atrevidamente se lhe plantou diante, atravessando o cajado:
- O Fidalgo há-de dizer aqui mesmo! O Fidalgo deu a sua palavra!... A mim não se me fazemdessas desfeitas... O Fidalgo deu a sua palavra!
Gonçalo relanceou esgazeadamente em redor, na ânsia dum socorro. Só o cercava solidão, arvoredo cerrado. Na estrada, apenas clara sob um resto de tarde, o carro de lenha, ao longe, chiava, mais vago. As ramas altas dos pinheiros gemiam com um gemer dormente e remoto. Entre os troncos já se adensava sombra e névoa. Então, estarrecido, Gonçalo tentou um refúgio na idéia de Justiça e de Lei, que aterra os homens do campo. E como amigo que aconselha um amigo, com brandura, os beiços ressequidos e trêmulos:
- Escute, Casco, escute, homem! As coisas não se arranjam assim, a gritar. Pode haverdesgosto, aparecer o Regedor. Depois é o tribunal, é a cadeia. E você tem mulher, tem filhos pequenos... Escute! Se descobriu motivo para se queixar, vá à Torre, conversamos. Pacatamente tudo se esclarece, homem... Com berros, não! Vem o cabo, vem a enxovia...
Então de repente o Casco cresceu todo, no solitário caminho, negro e alto como um pinheiro, num furor que lhe esbugalhava os olhos esbraseados, quase sangrentos:
- Pois o Fidalgo ainda me ameaça com a justiça!... Pois ainda por cima de me fazer a maroteirame ameaça com a cadeia!... Então, com os diabos! primeiro que entre na cadeia lhe hei-de eu esmigalhar esses ossos!...
Erguera o cajado... - Mas, num lampejo de razão e respeito, ainda gritou, com a cabeça a tremer para trás, através dos dentes cerrados:
- Fuja, Fidalgo, que me perco!... Fuja que o mato e me perco!
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.