Por Camilo Castelo Branco (1864)
- Antes de ontem à noite apareceu aqui o D. José. Fui em palmilhas atrás dele. Vi-o entrar na sala do tapete azul, e retirei-me assim que vi V. Exª entrar também com a senhora. Desde então não tornou cá senão agora; mas como lá está com ele outro amigo, acho que não tem dúvida, e por isso vim para aqui esperar o fidalgo. Aqui está o que eu sei, meu amo. Bote lá as suas contas, e deixe-me dar uma carga de lenha no tal menino, se for preciso.
Afonso pôs a mão direita sobre o ombro do Tranqueira e disse:
- Obrigado, teu amo agradece-te os cuidados que tens com a sua honra. Recomendo-te que não digas uma palavra a tal respeito. Ouves, Tranqueira?
- Então isto fica em água de bacalhau? - perguntou o criado, abrindo e fechando as mãos.
- Já disse, nem uma palavra. Os teus cuidados agora passam para mim.
- Bem me fio eu nisso!-murmurou à lacaio na ausência do amo.
Afonso entrou no seu quarto; viu-se a um espelho; espetou que o rubor da excitação se descorasse, compôs o semblante e passou à sala onde estavam Palmira, D. José de Noronha e um particular amigo deste.
Palmira, no sofá, tinha os braços em cruz sobre o seio e a face inclinada sobre eles. D. José de Noronha folheava sobre a jardineira as Mulheres, de Walter Scott. O amigo estava sentado na poltrona contígua ao sofá. Cortejou Afonso os dois cavalheiros, depois de estender a mão a Palmira, com tão demasiada cerimónia que lhe não roçou as pontas dos dedos. Esta acção, depois da luta da manhã, pareceu naturalíssima à esposa de Eleutério. Depois, achegou-se serenamente de D. José, observou a Piora Mac-Ivor do romancista escocês, concordou com D. José na primazia da gentileza desta heroina, disse poucas mais palavras, e pediu licença para recolher-se, obrigado por uma fortíssima enxaqueca. Tudo isto com um natural irrepreensível.
Entrou Afonso no gabinete de Palmira. Havia ali uma secretária de mogno, com espelhos, cravejada de gavetinhas moldadas pelo feitio dos antigos contadores. Tiradas as gavetas da primeira série, encontravam-se uns falsos de segredo, conhecido dele, que fora o primeiro possuidor da engenhosa alfaia. Instigado pela suspeita, tirou Afonso pelos botões da gaveta central: estava fechada, e as duas laterais abertas. Concluiu que a do meio segredava uma revelação. Procurou um ferro jeitoso com que fazer saltar a fechadura: serviu-lhe a ponta de um punhal. Cedeu a frágil lingueta estalando. Tirou Afonso a gaveta, que continha jóias; levou o dedo ao imperceptível botão que abria o falso, e tirou dois macetes de cartas e uma solta. Abriu esta e leu as primeiras linhas.
Uma sombra de dúvida seria estupidez máxima- Dizia:
É preciso cuidado com o lacaio de A. Encarou-me ontem de certa maneira:..
Emprega o nosso António na espionagem de alguma suspeita. Amanhã vai comigo o D. A. M.; se for propicia a ocasião, ele sairá a tempo, etc.
Passou Afonso ao seu quarto para deliberar meditando. Que lance para meditações! Dai a pouco ouviu o rugir das sedas de Palmira. Lançou-se apressado sobre o leito, com a fronte entre as mãos..
- Estás melhor? - disse ela maviosamente.
- Não.
- Cuidei que estarias deitado. Que hás-de tomar, meu filho? - volveu ela, inclinando-se ao rosto de Afonso. - Que tomas de ceia?
- Nada.
- Estás ainda muito irado contra mim?- replicou ameigando-o.
- Deixa-me, que me custa falar. Vai à sala, se está lá gente.
- Irei, sede nada te sirvo aqui, e de mais a mais te importuno. Ainda lá estão aqueles maçadores.-. Logo voltarei a saber de ti.
XVIII
Voltou Palmira à sala, e, momentos depois, reapareceu no quarto de Afonso, perguntando se D. José de Noronha e D. António Mascarenhas podiam, não incomodando, visitá-lo. Afonso respondeu, sem alteração, que lhes agradecia o cuidado; mas confiado na amiga familiaridade com que o tratavam e eram recebidos, esperava que o deixassem estar em silencio, a ver se assim a dor de cabeça se mitigava. Palmira entrou bem assombrada na sala e disse a D. José: "Não há que desconfiar. São saudades de Mafalda, rebuçadas nas saudades da mãe."
Entretanto, Afonso, lançando-se do leito, examinava os fulminantes das pistolas...
Seja ele o narrador deste indescritível transe:
"Ao tempo em que eu revocava toda a minha reflexão para definir os actos sequentes ao homicídio, senti no coração uma rija pancada e, para assim dizer, quase apalpei ante meus olhos desvairados o vulto de minha mãe: Depus as pistolas e ajuntei as mãos. Ainda agora me maravilha a passagem rápida da vertigem, em que a minha honra me impunha matas o infame, para a tranquila consideração sobre a ineficácia do homicídio como vingança da perfídia. Atribuo esta mudança inverosímil, segundo a lógica das paixões, a mais forte poder que o da alma humana. Nesta suspensão, pedi ao espírito de minha mãe que me acudisse com o conselho salvador. Não ouvi resposta alguma, nem o meu entendimento concebeu algum desígnio. O que vi foi a imagem de Eleutério, na sala da estalagem de Barcelinhos, no momento em que, lavado em lágrimas, dizia à mulher: "Castigada te veja eu, e Deus me vingue!"
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.