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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

— Não sei nem faço grande empenho em saber. Mas decidamos: onde queres que deixemos a chave da casa?

— Que casa?

— Desta.

— Pois vocês querem sair?

— Certamente. Amanhã mesmo.

— Por que?

— Porque o fim do mês está aí e nós não temos vintém.

— Mas eu tenho carta de fiança, homem de Deus.

— Embora, estamos decididos.

— Ah! Se estão decididos... Querem voltar para uma espelunca igual à da rua Formosa?

— Talvez, desde que nela possamos trabalhar.

— E não podem trabalhar aqui?

— Não.

— Que falta?

— Tudo.

— Tudo! Já sei... Decididamente vocês não nasceram para a ordem. Quem diz que em uma casa como esta não se pode trabalhar, meu amigo.

— Mas que temos nós aqui? Não podemos comer aqueles peixes, aquelas lebres e aquelas admiráveis frutas que estão, em pintura, na sala de jantar.

— Vocês não têm comida em casa porque não querem. Não têm o fogão? Não está aí o João de Deus?

— E o resto?

— Manda-se vir da venda. — Quem paga?

— Arranja-se um caderno.

— Sim, arranja-se um caderno... E depois?

— Depois? Deus é grande!

— Ah! Deus é grande. Pois, meu caro Crebillon, apesar da imensidade de Deus e de todo o conforto desta casa, se vais aos porcos da Bocaina.

— Vou, não posso abandonar um amigo como Fontainha.

— Pois então, quando voltares, procura a chave da casa no teu charuteiro.

— Pois sim, disse o abolicionista imperturbavelmente E vocês para onde vão?

— Havemos de achar um quarto.

— Um quarto para todos?

— Para os que quiserem.

— Pois eu vou aos porcos, é uma questão de amizade. Por outro não iria, mas tratando-se do Fontainha não hesito.

— Então estamos combinados, fica no charuteiro a chave.

— Sim, no charuteiro. E não te esqueças de deixar o teu endereço, porque, enfim, não nos apartamos brigados.

— Não.

— Eu já esperava esse movimento. Vocês não podem viver sem as raparigas e como eu exigi moralidade...

— Sim, muita moralidade. Guerra à carne, a de vaca inclusive.

— Sim, sim, isso agora é a desculpa. Têm razão, são rapazes, é natural que amem.

— E que almocemos, pelo menos.

— Pois sim. Então no charuteiro?

— Sim, no charuteiro.

— Mas vocês hão de arrepender-se. Banheiro e fogão como os desta casa vocês não encontram nesta cidade.

— Quanto ao banheiro posso emitir o meu juízo: acho-o excelente. Sobre o fogão nada adianto: não lhe conheço os préstimos.

— Pois é uma peça sem rival.

— Pode ser, mas prefiro um simples fogareiro de espírito, desde que tenha na trempe uma frigideira a rechinar. Bem, adeus. Boa viagem.

— Obrigado. No charuteiro, heim? — Sim, no charuteiro.

Tornando à sala, enfurecido, Ruy Vaz comunicou aos companheiros a resolução inabalável do presidente:

— Pois que vá aos porcos e ao diabo! — rugiu Anselmo, eu é que aqui não fico mais um dia.

— Nem eu! — disse o Toledo. Estou magro, tenho sofrido muito. Vou para a casa de meu primo. Ele tem insistido comigo para que ocupe um chalezinho do jardim. Tenho relutado, porque não gosto de dever favores, mas também com a vida que levo, dentro em pouco estou tísico. Não vale a pena.

— Pois. eu amanhã, bem cedo, vou ver o cômodo que há ao lado, na casa dos alemães, disse Anselmo.

— Há algum cômodo? — perguntou Ruy Vaz.

— A sala da frente e um quarto.

— Toma-se. E o preço?

— Não sei.

— Vamos mandar João de Deus indagar?

— Sim, vamos. Se servir-nos podemos fazer a mudança amanhã mesmo.

— Serve com certeza. João de Deus! Ó João de Deus!

João de Deus, que andava melancólico, sempre encolhido pelos cantos, a alisar o lombo do gato que era a única criatura que, naquele imenso palácio, vivia regaladamente, engordando, porque não lhe faltavam ratos, não em casa, dali haviam eles desertado, cansados de esperar que se enchesse a despensa, como dantes, nos dias prósperos do titular, mas na vizinhança, apareceu lento e mole e, sem anunciar-se, ficou à espera na porta, mudo e cabisbaixo, retorcendo o boné lustroso. Ruy Vaz ia de novo bradar por ele, quando o viu naquela atitude desconsolada de mártir, com os olhos no soalho.

— João, vai aqui ao lado e pergunta ao homem em que condições aluga os aposentos que tem.

O negro saiu silenciosamente e os rapazes, que a cólera alucinava, atiravam-se a Crebillon atribuindo-lhe todos aqueles dias de miséria negra e vazios, porque nem trabalhar podiam, com idéia de que teriam conforto e abastança, esperando, a todo o instante, a chegada dos móveis e dos víveres, sem que nada viesse, obrigando-os a trazerem a casa modestamente fechada para que os vizinhos não vissem a nudez vergonhosa dos salões, que já começavam a tressuar umidade.

(continua...)

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