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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

— Magnífico, disse ele alegre; não é preciso mais. Uma vez que se amam, virão naturalmente a...

Não pôde acabar, porque a moça, erguendo-se de súbito, afastou-se da mesa, com um arremesso, e dirigiu-se à janela, que dava para o jardim. Jorge ficou espantado. Não entendia o que estava vendo. Inclinou-se sobre o tabuleiro e começou a mover as peças, sozinho, sem plano, maquinalmente. Assim jogando, ouvia o som do tacão de Iaiá que feria o ladrilho do chão, com um movimento precipitado e nervoso. Durou isto cinco minutos. Iaiá voltou-se para dentro, saiu da janela e aproximou-se da mesa. Jorge ergueu então a cabeça para ela e sorriu.

— Não me dirá que lhe fiz eu, para ficar tão zangada comigo? perguntou com benevolência.

— Nada; eu é que fui estouvada e não sei se mais alguma cousa.

Jorge protestou que não.

— Foi ríspida somente, disse ele; e se o foi sem querer, não foi sem motivo. Não me dirá que motivo é esse? Parece-me que não a tratei mal…

Não.

— Nesse caso, o motivo está na senhora mesma; e se eu não tivesse medo de que se zangasse outra vez comigo, atrevia-me a pedir-lhe que me dissesse tudo —, ou pelo menos alguma cousa.

— Para quê? Vamos jogar.

— Está escurecendo.

— Mando vir luzes.

Vieram luzes; começaram a jogar. Entre eles o xadrez não podia oferecer interesse; mas dado que o pudesse, não seria naquela ocasião. Um e outro estavam distraídos e preocupados. A primeira partida foi concluída, em pouco tempo, quase sem cálculo.

— Outra? perguntou Iaiá.

— Vamos.

— Antes de começar, disse ela colocando as peças, e sem olhar para Jorge, quero dizer que tem um meio seguro de nunca brigar comigo.

— Qual é?

— É ser meu confidente.

— Senhor de seus segredos?

— Todos

— O meio é fácil; só eu ganho na troca.

— Nisso dou prova de grande coração.

Já não era a menina ríspida de alguns instantes; dissera as últimas palavras com muita graça e placidez. Ao mesmo tempo, continuava a arranjar metodicamente as peças. Acabou e reclinou-se no dorso da cadeira.

— Não me declarou ainda se aceitava, disse ela.

Jorge hesitou um instante. Era gracejo ou proposta séria? A um gracejo responde-se com outro, a uma proposta responde-se com seriedade. Jorge hesitava em tomar sobre os ombros uma parte de responsabilidade dos sentimentos da moça. Quais seriam eles? que projetos despertariam naquele cérebro provavelmente indomável? Não podiam ser outros senão os de seu casamento com Procópio Dias, visto que ela confessava amá-lo. Essa reflexão fê-lo declarar afoitamente que aceitava a confidência.

— Sabe o que aceita? perguntou Iaiá.

— Farejo.

— Toque! disse ela estendendo-lhe a mão. Jorge deu-lhe a sua.

— Não se trata em todo caso de nenhum assassinato? perguntou rindo.

— Não.

A segunda partida foi mais animada, mas só por parte de Iaiá. A moça ria às vezes, mas a maior parte do tempo fazia convergir toda a sua atenção para o jogo. Quando falava, era moderada e dócil. Essa alternativa e contraste de maneiras interessava naquele momento o espírito de Jorge. Que espécie de mulher fosse, imperiosa como uma matrona, travessa como uma criança, incoerente e enigmática, era cousa que ele não podia em tão pouco tempo descobrir; mas o enigma aguçava-lhe a atenção. Enquanto ela tinha os olhos no tabuleiro, Jorge buscava ler-lhe a alma na fronte lisa e cândida; mas não via a alma, via só uns fiapos castanhos de cabelo, que lhe caíam sobre a testa e esvoaçavam levemente ao sopro da aragem que entrava pela janela, e lhe davam um ar de puerícia. A boca fina e pensativa corrigia aquela expressão da cabeça; era a primeira vez que ele lhe descobria um forte indício de energia e tenacidade.

Quando era a vez de Jorge, Iaiá afastava o busto, reclinava-se no espaldar da cadeira e ficava a olhar para ele, como ele havia olhado para ela. Mas nesse olhar não cintilava curiosidade; era uma luz velada e baça, como alheia ao mundo exterior. Encontravam-se assim os olhos de um e de outro, e a partida continuava, até chegar ao fim sem novo incidente.

Prestes a acabar, Estela entrou no gabinete, sem os interromper. Sentou-se caladamente a um canto da janela. O jogo cessou no momento em que entrou Luís Garcia.

— Perdi duas partidas, papai, disse a moça; mas por um triz não ganhei a segunda. Jorge quis sair logo depois; foi obrigado a demorar-se, porque Iaiá lembrou-se de ir tocar piano. Era a primeira vez que Jorge conseguia ouvi-la. A moça escolheu uma página de Meyerbeer; Jorge confessara uma vez que era esse o mestre de sua predileção. Posto não fosse exímia pianista, Iaiá tinha muito sentimento e gosto, e era o bastante para que a alma do grande mestre viesse sobre ela suas asas robustas e imortais. Pelo menos, Jorge sentiu-lhes a aragem vivificante.

(continua...)

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