Por Machado de Assis (1876)
Estácio estremeceu, Mendonça conservou-se frio. A arma era rija, mas o golpe excedia a necessidade. Mendonça não quereria dever a esposa à evocação do nome do conselheiro: equivalia a um rapto. Percebeu-o Melchior, quando viu Estácio estender a mão ao amigo, mão que este recebeu com dignidade e frieza. Contaria Estácio com essa mesma repulsa do pretendente? O certo é que lhe disse, sem a menor sombra de hesitação:
Meu zelo foi talvez excessivo; a intenção é boa e pura. Que posso eu desejar senão ver felizes os meus? Amem-se; será o remate das minhas aspirações. Prometes fazê-la feliz?
Não prometo nada, disse Mendonça; o casamento é já impossível. Tu abriste-me os olhos; não te quero mal por isso. Perco muito, é certo, mas não me exponho à língua dos maus.
Mendonça foi buscar o chapéu e dispôs-se a sair, não obstante a intervenção de Melchior, que procurou trazê-lo a sentimentos de reconciliação. Não insistiu o padre; viu no rosto do mancebo uma resolução digna e firme, que era impossível dobrar naquele momento. Quando Mendonça lhe estendeu a mão em despedida, ele apertou-lhe com ternura e esperança. Estácio tentou ainda retê-lo; foi inútil; Mendonça saiu dali sem rancor, mas sem pesar. O coração sangrava-lhe, a consciência ia contente.
Melchior foi até à porta, a despedir-se de Mendonça. Quando este saiu, ele voltou o rosto para dentro, cruzou os braços e fitou o sobrinho de D. Úrsula. O moço desviou os olhos.
Viu? perguntou o padre. Não sei qual seja a sua resolução; mas prometo-lhe que serei como Maomé, — Deus me perdoe! — ainda que veja o sol à minha direita e a lua à minha esquerda, não deixarei de executar o meu desígnio. Vá ter com sua família; deixe-me alguns instantes com o meu breviário.
Estácio não pôde resistir à intimação do sacerdote; não achou uma palavra para lhe dizer. Saiu aturdido, desconsolado, colérico. Na rua e na chácara, ia pensando na cena daquela última hora, e parecia apenas reconstruir um sonho. Desconhecia-se, apalpava a inteligência, chamava em seu auxílio todas as forças da realidade; olhava para o chão, suspeitoso de que ia calcando as nuvens. Quando a razão tornou pé no meio de lembranças tão desconcertadas, ele viu claramente o resultado de suas ações: perdia um amigo de longos anos e abdicava a direção da família, pelo menos em relação ao casamento da irmã. Se esta lhe agradecesse a resistência, Estácio dar-se-ia por bem pago de tudo. Não era em seu favor que ele conspirara? este pensamento levantou-lhe o ânimo; tivesse a aprovação de Helena, pouco lhe importaria o resto.
Helena ouviu-lhe a narração fiel do que se passara em casa de Melchior. Ouviu-a comovida; no fim reprovou tudo o que ele fizera.
Mendonça é já o fruto proibido, concluiu a moça; começo a amá-lo. Se ainda assim me obrigar a desistir do casamento, adorá-lo-ei.
Chegamos ao capricho! exclamou ele; é o fundo do coração de todas as mulheres.
Helena sorriu e voltou-lhe as costas. Subiu ao quarto, travou de uma pena e escreveu um bilhetinho. A tinta secou primeiro que duas grossas lágrimas caídas no papel; mas as lágrimas secaram também. Antes de fechar o bilhete, desceu Helena a mostrá-lo ao irmão.
Quando a moça entrou no gabinete, Estácio ia ter com ela. Tinha resolução assentada. Uma vez que a irmã aceitava de boa feição o casamento, não havia mais que o aprovar e celebrar. Encontraram-se na porta; Estácio recuou para dentro.
Helena, disse ele, faça-se a tua vontade.
Consente?
Estácio fez um gesto afirmativo.
Não basta isso, tornou a moça; Mendonça não voltará aqui depois do que se passou. Peço-lhe a remessa dêste bilhete.
Estácio abriu o bilhete; continha estas poucas palavras: “Venha hoje a Andaraí; é o meu coração que o pede e a nossa felicidade que o exige.” Cinco minutos gastou o moço a ler as duas linhas; leu o que estava escrito e o que não estava. Helena desarmava os escrúpulos de Mendonça, tirando à futura união qualquer suspeita de interesse. Leu e fechou lentamente o papel.
Aprova? perguntou a moça.
Assim, pois, disse o moço tristemente, a tua felicidade exige que esse homem venha cá, que te cases com ele, que nos fujas? Não te basta a família, a afeição de nossa tia, a minha própria afeição? Estes meses de doce intimidade vão ser esquecidos em um só instante, sacrificados aos pés do primeiro homem que te apraz escolher e seguir? No dia em que penetraste nesta casa, entrou contigo um raio de luz nova, alguma coisa que nos faltava e que tu trouxeste contigo; nossa família completou-se; nossos corações receberam um sentimento último. Pensávamos que isto seria duradouro, e era simplesmente fugaz. Oh! Helena, melhor fora não ter vindo!
Helena quis responder, a voz travou-se-lhe na garganta, e a palavra retrocedeu ao coração. Apontou para o papel como pedindo-lhe, ainda uma vez, que o enviasse e saiu.
De tarde, apareceu Melchior; ia tranqüilo e resoluto a dar um golpe decisivo. Estácio rendeu-se, antes que ele falasse.
Padre-mestre, disse o moço logo que o viu, a reflexão venceu-me; faça-se a vontade de todos.
Fala de coração?
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.