Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
No ano de... (não quero expor-me à indiscrição marcando o ano), um deputado novo de alguma das províncias do Norte foi com a sua jovem e digna esposa à loja do Wallerstein, e à escolha deste, e sem questão de preço, comprou-lhe o mais distinto corte de seda para vestido, com que a senhora deveria aparecer em próximo baile diplomático, e encarregou ao Wallerstein da escolha da melhor modista, e de todos os ajustes com esta, e foi nisso prontamente servido.
Tudo correu por conta e responsabilidade do famoso lojista, ditador da moda.
Não sei qual foi a modista preferida, mas ou por tardo reconhecimento de deficiência do corte de seda, e falta de fazenda igual, ou por imprudentes estragos de tesoura, a tal modista para completar um dos panos da saia do vestido dissimulou na barra, deste, e do lado esquerdo, uma emenda em forma de triângulo finíssima e quase imperceptivelmente cosida, e ainda mais oculta por baixo de rendas e flores.
Nem Cristóvão Colombo que descobriu a América nos desertos do oceano seria capaz de descobrir aquela emenda coberta por flores e rendas na barra de um vestido.
A jovem provinciana não deu com o escondido defeito, e aplaudiu o seu vestido que lhe pareceu e era realmente distinto, e tão distinto que produziu no baile o mais lisonjeiro efeito.
Mas por isso mesmo no fim de pouco tempo algumas senhoras com seus olhos perscrutadores fizeram a descoberta da quase invisível emenda triangular!!! e umas por inveja e outras inocentemente pediram à esposa do deputado explicações de semelhante novidade.
- Não sei, respondeu a senhora meio confusa, e corando vexada, não sei, o vestido veio-me doWallerstein que escolheu a seda, a modista, e tudo dirigiu.
As curiosas ficaram como atônitas, ouvindo o nome do Wallerstein, e antes de terminar o baile, cada uma delas já achava graciosa a emenda triangular dissimulada entre rendas e flores; nenhuma, porém, confiou às outras a nova impressão que aquela novidade lhe causava.
Dez dias depois em outro baile, todas as curiosas apresentaram-se com riquíssimas toilettes trazendo bem visível ao lado esquerdo e junto à barra dos vestidos a emenda triangular: já porém exagerando a moda não só com a manifestação e com proporções maiores da emenda, mas também porque esta como negligentemente feita repuxava com pequenos arregaços a barra do vestido, de modo a deixar ver a ponta do sapatinho de cetim do pé esquerdo.
- Que extravagante e feia moda é aquela? perguntavam algumas senhoras.
- É fantasia... é emenda triangular à Wallerstein: respondiam outras já informadas.
No dia seguinte, o Wallerstein foi obrigado a responder a numerosas interpelações, e a emenda triangular caiu no ridículo.
Em 1841, por ocasião das festas da coroação do Imperador, o Wallerstein regalou-se; todos os seus alcaides saíram da loja e fizeram farofa, como últimas modas de Paris da loja do Wallerstein.
Algum tempo depois, Mr. Wallerstein, o Napoleão da moda e da elegância sem Waterloo imaginável, farto de áurea colheita, e no apogeu da glória dos altos preços, bateu as asas, e foise do Rio de Janeiro.
Le roi est mort: vive le roi!...
A casa mudou de nome e chamou-se Masset.
A loja Masset estreiou-se com a herança do brilho e da fama do Wallerstein, mas aos poucos teve competidores de importância, e não pôde manter por muito tempo a primazia inabalável que gozara a do antecessor.
Ainda assim a loja Masset (a antiga), aliás sempre considerável, me daria assuntos curiosos para encher algumas páginas destas Memórias; mas houve Masset - o antigo, e há Masset moderno; a antigüidade do primeiro é jovem, como o dia de ontem, e a modernice do segundo é como menina, que hoje ainda faz travessuras, e portanto contemporâneas, ambas não devo nem quero ofender a modéstia da jovem, nem entender com a menina traquina.
Nas Memórias da Rua do Ouvidor sou e hei de ser cabeleireiro que só penteia cabelos brancos, quando não faz toucados para defuntos.
E apenas em frente da atual casa do Grão-Turco reparo agora que este capítulo já se alongou demais, e que é indispensável interromper a viagem que estou fazendo com os meus pacientes leitores.
Ancoremos aqui por hoje.
CAPÍTULO 13
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.