Por Eça de Queirós (1940)
Mas esses fundos não serão empregados, nem pedidos talvez, porque hoje conhecem-se as exigências da Rússia, e elas não contêm nada que ofenda os interesses ingleses. O urso teve medo do leão. Estende a pata de um modo suave e prudente. Eis o que, em resumo e tanto quanto se sabe, a Rússia pede:
Autonomia da România;
Autonomia da Sérvia;
Anexação da Bessarábia;
Cessão do porto de Batum;
Entrada das tropas em Constantinopla para aí embarcarem para Odessa.
Indemnização de um milliard de rublos, ou sejam, quatro milliards de francos, ou sejam, cento e cinquenta milhões de libras esterlinas, e para garantia, até inteiro pagamento, ocupação da Arménia.
Não há nestas condições (a questão dos Dardanelos é deixada para mais tarde) nada que ofenda os interesses ingleses. Há, é verdade, a entrada em Constantinopla: mas nesta exigência os Russos têm razão: em primeiro lugar, não é possível negar às tropas vitoriosas, que tanto sofreram e tão bem se bateram, esta marcha triunfal na capital inimiga, que é a grande recompensa militar e a consagração visível da glória: mas há outra razão; é que embarcar as tropas em Constantinopla e fazê-las ir para Odessa é a maneira mais fácil, mais barata, mais prática, quase a única possível de chamar o exército à Rússia. Imagine-se que despesa, que trabalho, que sofrimento, se as tropas tiverem, nesta estação, de tomar a atravessar os Balcãs, de repassar o Danúbio (o que é, em virtude do gelo, quase impraticável) e de voltar à Rússia por terra. Além disso, se os Prussianos entraram em Paris, capital da civilização, não há razão, nem política nem moral, por que os Russos não entrem em Constantinopla, simples cidade pitoresca.
A indemnização não creio que ofereça dificuldades. Eis, penso, o que se vai passar: a Rússia, como garantia, ocupa a Arménia: é claro que a Turquia, nem como pilhéria, pode pensar em pagar cento e cinquenta milhões de libras: portanto, os Russos estabelecem-se na Arménia; mas como esta ocupação, num dos caminhos possíveis para a Índia, é extremamente desagradável aos Ingleses, a Inglaterra empresta os milhões à Turquia para pagar à Rússia e recebe como garantia a suserania do Egipto. A Rússia embolsa, a Inglaterra estabelece-se no seu bem-amado canal de Suez e todo o mundo fica contente, excepto, já se sabe, o pobre Turco.
Eis o que eu penso provável; mas nesta questão do Oriente as complicações crescem como os tortulhos – conjecturar torna-se tão pretensioso como adivinhar.
Não creio que a imprensa portuguesa se tenha ocupado muito de um assunto que profundamente interessa ao país e a que a imprensa inglesa desde ontem dá uma certa atenção. Refiro-me à morte de Pio IX e ao direito que tem Portugal de opor o seu veto à nomeação de novo papa. Este direito, que pertence igualmente à França, Espanha e Áustria, está nas vésperas de ser oportunamente reclamado, porque sua santidade tem bem próxima a hora de subir para o seio de Aquele que há trinta anos, com fortunas diversas, ele representa oficialmente na Terra. A esta hora há no Vaticano uma destas intrigas subtis e maravilhosas, perante as quais os enredos diplomáticos ou os antigos imbróglios das comédias espanholas são coisas simples e elementares.
Os cardeais têm, na sua dupla qualidade de italianos e de padres, o génio refinado da intriga astuta: e neste caso de sucessão papal são italianos contra italianos e padres contra padres. Os cardeais estrangeiros, ou ausentes nas suas dioceses, ou afastados da frequentação íntima dos quartos de sua santidade, são apenas como o coro de certas óperas antiquadas, que na cena final, dos dois lados do palco, se pronunciam uns por este, outros por aquele pretendente à mão da princesa. O grande enredo é entre os italianos: aí tudo o que a finura tem de mais aguçado, tudo o que a duplicidade tem de mais tortuoso, os disfarces mais rebuçados, as escavações mais subterrâneas, as influenciazinhas mais distantes, as caluniazinhas picantes, a preciosa posse de segredos, as captações melífluas, tudo serve, tudo se emprega para fazer um papa.
É bizantino e maquiavélico. A primeira coisa a conseguir para um cardeal pretendente é a recomendação do papa. Sua santidade, se conservar o espírito claro na hora suprema, decerto por uma palavra, um olhar, um aperto de mão, uma alusão, há-de mostrar a sua preferência: isto é esperado, é certo: e uma tal escolha da boca do papa, num tal momento, terá para muitos a força de uma ordem divina.
A outra coisa a obter é mais moderna e toda eleitoral: são votos. E aqui que os fios da intriga se emaranham.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. Crónicas de Londres. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=14018 . Acesso em: 29 jun. 2026.