Por Eça de Queirós (1925)
rando-se em certas phrases, vendo atravez d'ellas — a uma luz vaga, que vinha* em parte, da scintillacão dos lustres, em parte, do raio pallido de sol que atravessava o botequim — a sala com dourados, nudezes de collos, os peitilhos lustrosos das camisas, as casacas negras, e os dous olhos tristes que se tinham fixado n'elle na estação d'Ovar, brilhando agora mais alegres . . . Ella de certo lá estaria . . .
E subitamente o antigo amor reappareceu, enternecendo todo o seu ser : era como n'uma noite escura um erguer de lua grave e triste.
E alli ficou muito tempo, com os cotovellos sobre a mesa suja, pensando n'ella ; mas não distinguia já bem as suas feições : pareciam perder-se, dissipar-se no luxo que a cercava, na musica da goirée, nas luzes, em tudo o que elle proprio desejava : as ruas de Lisboa, as plateias dos theatros, as redacções dos jornaes ; isso mesmo se esbatia em longes multo vagos, e luzia a uma distancia que lhe era inaccessivel, rolando n'um rumor de trens ricos, de operas, de beijos adulteros e de poemas applaudidos . Suspirou, muito triste, e levantando a cabeça, viu defronte, pela porta aberta do João barbeiro, um freguez que esperava de pescoço inclinado, a toalha ao pescoço, os queixos brancos de sabão.
Sahiu, foi andando para casa. Ia pensando no poeta dos Idytlios e Decaneios. Os seus versos pareciam-lhe bem banaes — como a sua physionomia que elle conhecia de retratos — o cabello apartado ao meio, o grande pince-nez sobre o nariz grosso : e estava na soirée, apertava a mão dos embaixadores e os jornaes festejavam o seu dia d'annos t
Com algumas poesias mediocres imposera-se á Sociedade ! E isto apparecia-lhe como o resultado d'enredos subtis, d'influencias femininas porque a Sociedade, que só conhecia atravez dos romances, afigurava-se-lhe, como o mundo de Balzac; governada pelos caprichos da Belleza e pelo genio dos Intrigantes. Acreditava na influencia que póde ter, n'uma existencia, o aperto de mão d'um duque, e, como no caso de Vautrin, a protecção secreta d'um forçado. A Fortuna era a presa dos fortes — e então, n'aquella hora de resoluções grandiosas que atravessam todas as almas debeis — decidiu violentamente ser elle tambem um forte, sacudir aquellas sentimentalidades estereis em que se gastava, demolir os obstaculos com o impeto d'um Alcides, apoderar-se á forca da Celebridade, d'um logar na Civilisação e d'um sofá no boudoir d'Etla. Até ahi, o seu desejo carpira — agora, ia luctar . . . E trilhava a rua, levado por estes impetos, a grandes passadas, como se fosse anoderar-se do mundo. O charà-bancs que batia a galope para a estação d'Ovar obrigou-o a refugiar-se n'um portal : teve um momento a tentação de se atirar para dentro, ir tomar o comboio para Lisboa, começar a batalha — mas tinha na algibeira tres tostões ! E a esta picada mesquinha da realidade, aquella amplificação da vontade engelhou-se-lhe subitamente, como um baIão furado.
Quando entrou em casa, a Joanna correu da cozinha, dizendo que o snr. Coutinho, o tabellião, tinha vindo para lhe fallar, e depois man.dara uma carta pelo creado . . . Estava em cima da mesa.
Arthur, surprehendido, correu á sala, abriu vivamente a carta :
« lii. mo Snr.
«O meu collega, correspondente do Porto, o
« Snr. Fernandes Gouveia, da rua do Loureiro, en-
« carrega-me da dolorosa missão de lhe participar
« que seu honrado padrinho, Snr. Guedes Craveiro,
« falleceu no dia 25 do corrente, pelas cinco horas
« da manhã — e ao mesmo tempo da grata incum-
« bencia de lhe annunciar que por codicilo ao seu « testamento de 18 de Abril do corrente anuo, lhe « lega .
— Oh ! Santo Deus !
. . . lhe lega, para completar a gua educação, co mo melhor entender, a quantia de dous contos de a réis .
Tremia todo, gritou para a porta :
— Joanna ! Joanna !
A velha acudiu, assustada.
—O padrinho deixa-me um dinheirão ! Dous contos ! !
— Oh ! meu menino, oh ! meu menino ! Ai ! as senhoras que estão na missa. Vou chamal-as ! Vou a correr . . .
Mas ellas n'esse momento entravam.
Ricardina, no pateo, ralhava com o moço da q uinta.
Arthur correu ao alto da escada, de braços no ar :
— Tia Sabina ! Tia Sabina, o padrinho deixoume um dinheirão ! Dous contos !
— Foram as minhas orações ! — exclamou a velha agarrando-se ao corrimão, quasi desmaiada. — Oh ! meu filho ! Oh ! meu filho !
— Que estás tu a dizer — gritava Ricardina aos tropeções pela escada.
Entraram na sala, a Joanna atraz, e quando Arthur lhes acabou de ler a carta, em que o tabellião dizia que o legado se compunha de dous contos, depositados no Banco de Portugal —e que, no dia seguinte, elle receberia uma ordem sobre o snr. Carneiro, logista de pannos, para receber, á vista, quinhentos mil réis, ouro ou papel, para as primeiras despezas do luto — as tres senhoras e a creada, muito tremulas, romperam a chorar !
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A Capital. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=43205 . Acesso em: 29 jun. 2026.