Por Eça de Queirós (1900)
Por entre a peonagem de Baião e da Hoste Real Lourenço Ramires avança mais levemente que ceifeiro apressado entre erva tenra. A cada arranque do seu rijo murzelo, alagado de espuma, que sacode furiosamente a testeira rostrada - sempre, entre pragas ou gritos por Jesus!, um peito verga trespassado, braços se retorcem em agonia. Todo o seu afã era chocar armas com Lopo. Mas o Bastardo, tão arremessado e afrontador em combate, não se arredara nessa manhã da lomba do outeiro onde uma fila de lanças o guardava, como uma estacada; e com brados, não com golpes, aquentava a lide! No ardor desesperado de romper a viva cerca Lourenço gastava as forças, berrando roucamente pelo Bastardo com os duros ultrajes de churdo! e marrano! Já dentre a trama falseada do camalho lhe borbulhavam do ombro, pela loriga, fios lentos de sangue. Um lanço de virotão, que lhe partira as charneiras da greva esquerda, fendera a perna donde mais sangue brotava, ensopando o forro de estopa. Depois, varado por uma frecha na anca, o seu grande ginete abateu, rolou, estalando no escoucear as cilhas pregueadas. E, desembrulhado dos loros com um salto, Lourenço Ramires encontrou em roda uma sebe eriçada de espadas e chuços, que o cerraram - enquanto do outeiro, debruçado na sela, o Bastardo bramava:
- Tende! tende! para que o colhais às mãos!
Trepando por cima de corpos, que se estorcem sob os seus sapatos de ferro, o valente moço arremete, a golpes arquejados, contra as pontas luzentes que recuam, se furtam... E, triunfantes, redobram os gritos de Lopo de Baião:
- Vivo, vivo! tomade-lo vivo!
- Não, se me restar alma, vilão! - rugia Lourenço.
E mais raivosamente investia, quando um calhau agudo lhe acertou no braço - que logo amorteceu, pendeu, com a espada arrastando, presa ainda ao punho pelo grilhão, mas sem mais servir que uma roca. Num relance ficou agarrado por peões que lhe filavam a gorja, enquanto outros com varadas de ascuma lhe vergavam as pernas retesadas. Tombou por fim direito como um madeiro; e nas cordas com que logo o amarraram, jazeu hirto, sem elmo, sem cervilheira, os olhos duramente cerrados, os cabelos presos numa pasta de poeira e de sangue.
Eis pois cativo Lourenço Ramires! E, diante das andas feitas de ramos e franças de faias em que O estenderam, depois de o borrifarem à pressa com a água fresca do riacho - o Bastardo, limpando às costas da mão o suor que lhe escorria pela face formosa, pelas barbas douradas, murmurava, comovido:
- Ah! Lourenço, Lourenço, grande dor, que bem pudéramos ser irmãos e amigos!
Assim, ajudado pelo tio Duarte, por Walter Scott, por notícias do Panorama, compusera Gonçalo a mal-aventurada lide de Canta-Pedra. E com este desabafo de Lopo, onde perpassava a mágoa do amor vedado, fechou o Cap. II, sobre que labutara três dias - tão embrenhadamente que em torno o Mundo como que se calara e se fundira em penumbra.
Uma girândola de foguetes estoirou ao longe, para o lado dos Bravais, onde no domingo se fazia a romaria celebrada da Senhora das Candeias. Depois da chuva daqueles três dias, uma frescura descia do céu amaciado e lavado sobre as campos mais verdes. E como ainda restava meia hora farta antes de jantar, o Fidalgo agarrou o chapéu, e mesmo na sua velha quinzena de trabalho, com uma bengalinha de cana, desceu à estrada, tomou pelo caminho que se estreita entre o muro da Torre e as terras de centeio onde assentavam no século XII as barbacãs da Honra de Santa Irenéia.
Pela silenciosa vereda, ainda úmida, Gonçalo pensava nos seus avós formidáveis. Como eles ressurgiam, na sua Novela, sólidos e ressoantes! E realmente uma compreensão tão segura daquelas almas Afonsinas mostrava que a sua alma conservava o mesmo quilate e saíra do mesmo rico bloco de ouro. Porque um coração mole, ou degenerado, não saberia narrar corações tão fortes, de eras tão fortes - e nunca o bom Manuel Duarte ou o Barrolo excelente entenderiam, bastante para lhes reconstruir os altos espíritos, Martim de Freitas ou Afonso de Albuquerque... Nesta fina verdade desejaria ele que os críticos insistissem ao estudar depois a Torre de D. Ramires - pois que o Castanheiro lhe assegurara artigos consideráveis nas
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.