Por Camilo Castelo Branco (1862)
Ainda bem que a melancolia raro se atreve a perturbar o funcionalismo intelectivo de certas cabeças, cuja organização é maravilha. Daí provém a traça metódica e auspiciosa com que o homem supinamente ignorante regula os seus negócios. Há nessa cabeça a perene claridade dum fundo de garrafa de cristal. As ideias impedem-lhe congeladas da abóbada craniana como as estalactites duma caverna. Dessa imobilidade imperturbável de cérebro resulta a fixidez da mira posta num alvo, a pertinácia das empresas e o conseguimento dos bons efeitos.
Ainda não vi tão cabal e logicamente explicado o fortunoso êxito de algumas riquezas granjeadas pela inépcia.
Não obstante, o número dos bastardos da fortuna é muito maior. O leitor é de certo um dos que tem em cada dia uma hora de enojo, de quebranto, de melancolia, de concentração dolorosa, de desapego à vida, de misantropia e de diálogo terrível com o fantasma da aniquilação.
É para esse que eu vim, à hora decretada pela providência dos descobrimentos, com o coração a trasbordar de filantrópico júbilo, anunciar o antídoto contra a melancolia.
Bem pudera eu, à imitação de famigerados varões, apresentar, como de engenho meu, o invento da receita, que um obscuro químico deixou como legado de penosas lucubrações. Quem ele fosse não posso eu dizê-lo, porque o modesto inventor julgou-se um átomo da humanidade e, doando-lhe o seu óbolo de talento, não quis glorificar-se de um tesouro que não era mais que transitório depósito em suas mãos.
Eis aqui a receita:
Junco cheiroso - onça e meia. Íris-de-florença - uma onça.
Pau sândalo - onça e meia
Pau de roseira - onça e meia
Casca de laranja e limão - onça e meia
Cravo-da-Índia - uma oitava
Vinagre rosado - quatro onças
Estes ingredientes lançam-se numa vasilha, que se coloca ao fogo. A pessoa melancólica aspira-lhe o perfume por alguns segundos. A primeira sensação é deliciosa para o olfato. Segue-se um geral sentimento de bem estar físico, de desopressão cerebral, de transporte e contentamento de espírito.
Resta fazer uma reflexão toda pessoal que intende com o desinteresse do signatário do artigo. Não vão pensar que se tem de olho uma daquelas medalhas com que a Real Sociedade Humanitária galardoa os que socorrem o próximo em aflição. Por enquanto o instituto desta munificentíssima sociedade não premeia os socorros prestados à alma: a caridade destes bons tempos de máxima ilustração verte os seus bálsamos somente sobre o corpo. Quando, porém, retrogradarmos ao ponto de se considerarem beneméritos da Real Sociedade Humanitária os propagadores de receitas contra a melancolia, hipocondria e outras enfermidades espirituais, então, não só as medalhas humanitárias, mas até os hábitos de Cristo que a munificência régia dá aos pianistas virão galardoar os obreiros do espírito que se dedicam a melhorar a alma do seu semelhante.
TERCEIRA PARTE
ESTÔMAGO
DE COMO ME CASEI
I
Procurei o refúgio dos penates, o lar em que derivam bem-aventuradas as gerações dos meus passados. Saboreei-me nas delícias do repouso, posto que em volta de mim só visse as imagens da numerosa família que descansava no pavimento da pequenina igreja. Lá estavam todos, como operários, que findaram sua jeira e, ao entardecer, encostaram a face ao pedestal da cruz e adormeceram.
Meditei no suave viver de meus pais e comparei-o às dores, umas lastimáveis e outras ridículas, que me tinham delido o coração, e desconcertado o aparelho de pensamento. Viver segundo a razão, alvitre que os filósofos pregoam, é bom de dizer-se e desejar-se, mas enquanto os filósofos não derem uma razão a cada homem, e essa razão igual à de todos os homens, o apostolado é de todo inútil.
Melhor avisados andam os moralistas religiosos, subordinando a humanidade aos ditames de uma mesma fé; todavia - e sem menoscabo dos preceitos evangélicos que altamente venero -, parece-me que o homem, sincero crente, e devotado cristão, no meio destes mouros, que vivem à luz do século, e meneiam os negócios temporais a seu sabor, tal homem, se pedir a seu bom juízo religioso a norma dos deveres a respeitar, e dos direitos a reclamar, ganha créditos de parvo, e morre sequestrado dos prazeres da vida, se quiser poupar-se ao desgosto de ser apupado, procurando-os.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.