Por Camilo Castelo Branco (1864)
Prima Mafalda. Vai ao pé do túmulo de minha mãe e repete-lhe as palavras desta cana. A justiça de Deus esmaga-me. Sou eu que vergo debaixo do fardo de afronta que levantei da lama com minhas próprias mãos. O arrependimento dos desvarios da mocidade não costuma atalhar tão cedo a carreira dos grandes desgraçados. Fere-me Deus tão cedo!, é porque me quer desatar deste jugo de infâmia. Auxiliem-me as orações de minha mãe, que eu sou fraco. Venham golpes de desengano, bem pungentes, para que se faça o dia da razão em minha vida. A aurora deste dia já aponta; mas o meu coração ainda está envolvido em trevas e cheio de amargura. Santas devem ser as tuas orações, Mafalda. Eu dobro o joelho ante a memória de nossa mãe, ouso invocar a sua intercessão no Céu; sei que a alma bem aventurada não repele o mau filho que a crucificou nos últimos anos, quando me ela pedia seio onde encostar as suas cãs.
Mafalda, anjo solitário, que vês com os olhos puros as estrelas da nossa infância, ora por mim, dá-me a tua piedade, que nenhuma outra me dá este mundo. Escreve-me, diz ao teu vulnerável pai que me escreva. Lembra-lhe as pardieiros das Taipas... Diz-lhe que o neto de Cristóvão de Teive sente já no coração o corroer das úlceras que carcomeram a pele do emparedado. Amai-me ambos, defendei-me de mim próprio, que o esteio da religião não pode com o peso de meus desatinos. Teu primo, Afonso..
Mandou Afonso lançar a carta na caixa postal.
Um quarto de hora depois, entrava Palmira, fremente de raiva, com a carta aberta exclamando:
- Isto é uma grande miséria e uma grande infâmia, Sr. Afonso de Teive! A minha dignidade vem pedir que esta afrontosa carta seja reformada.
Afonso lançou mão da carta e recuou horrorizado da vilania de Palmira. Secou-selhe a garganta e lábios ao queimar de um hálito de cólera que lhe calcinava o peito. Não pôde falar. Saiu do quarto, chamando a brados o criado a quem incumbira a remessa da carta. Já não era criado de Afonso o miserável que vendera o sigilo do seu amo pelo ouro dele mesmo; fugira bem remunerado. No entanto, Palmira esbracejava de sala em sala, soltando gritos pavorosos. Afonso, congestionadas as fontes de sangue, e o coração em arrancos no peito, fincava os dedos nas carnes da face, tapando os ouvidos para não ouvir os clamores da mulher cuja fúria recrescia à proporção do desprezo com que os próprios criados lha escutavam.
Afonso de Teive saiu aforrado como quem foge; foi lançar a carta por sua mão; divagou horas no mais desfrequentado dos arvoredos do Campo Grande. Aí sentiu orvalhos do céu esfriar-lhe o afogo da febre. Olhou ao céu com as mãos erguidas, e disse: "Oh, minha mãe!" Ao cair da noite, voltou a casa, e viu no pátio o gig de D. José de Noronha. O seu lacaio particular, antigo criado de sua mãe, acercou-se cautelosamente dele e disse:
- Fidalgo, não se aflija... Tenha ânimo, fidalgo, e não deixe fazer o ninho atrás da orelha.
O chulo da frase ofendeu-o, e a intenção misteriosa ainda mais.
- Que queres dizer, animal? - perguntou Afonso.
O criado coçou-se, fechando os olhos, e respondeu:
- Lá em cima está o Sr. D. José de Noronha.
- Que tem isso? Não o tens aqui visto tantas vezes? Responde.
- Tenho, tenho, e Deus sabe se cá por dentro me não tem dado guinadas de lhe partir na cabeça o gig.
- Porquê? Vem cá... Entra nesta loja comigo... Fala claro! - dizia Afonso com sufocada veemência. - Que desconfias tu de D. José?
- Desconfio, fidalgo, que a Srª D. Palmira não é fiel a V. Exª.
- Mentes!, mentes! - bradou Afonso. - Prova-mo, senão mato-te.
- Não há-de matar, se Deus quiser. Sr. Morgado - volveu tranquilamente o Tranqueira, nome que merece ser lembrado. - Faz favor de tomar ar e ouvir com sossego. Estes negócios hão vão assim de afogadilho. Dê tempo ao tempo.
- Não é tempo ao tempo, é já, imediatamente. Diz o que sabes, Tranqueira, que se me fende a cabeça.
- Fidalgo, aí vai o que sei. O criado que fugiu esta manhã, sem que eu lhe pudesse pôr os dez mandamentos, foi cá metido pelo lacaio da senhora e era lá muito colaço dela.
Uns dias por outros, pisgava-se do serviço o rapaz, e andava por lá quatro horas.
Antes de ontem, tirei-me dos meus cuidados e fui-lhe na pista muito à socapa. Leveio de olho até à Rua de Santa Bárbara, e lá esgueirou-se-me. "Querem vocês ver que o Diabo as arranja?", disse eu cá cos meus botões. "Estará ele metido em casa de D. José de Noronha?" Meu dito, meu feito! Dai a menos de três credos saia o malandro de casa do tal suplicante, e vinha, anda que anda, por ali fora. Saí-lhe eu de uma travessa e disse: "Tu de onde vens, António?" O patife engasgou-se, e nem pra trás nem pra diante. "Tate!", disse eu, "aqui há tratantada. Se ele fosse a coisa boa, dizia-o." Pus-me a considerar no que havia de fazer. "Eu, se lhe digo que o vi sair de casa de D. José, espanto a caça, e fico por mentiroso, dizendo o que vi a meu amo! Que hei-de eu fazer?
Embucho o que sei; tomo à minha conta espreitar a ama... - a ama!, que a leve o Diabo, que quem me paga é o fidalgo-, espreito, e se pilho a melgueira em termos, esbarronda-se o negócio, e meu amo dá cabo deste ladrão que o veio desonrar a sua casa."
Afonso, além da voz do Tranqueira, ouvia um zunido e fisgadas dentro do crânio, como se lá se contorcesse e mordesse o cérebro um enxame de vespas. O criado continuou:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.