Por Machado de Assis (1891)
-Não leu a notícia daquela epidemia numa cidade das Alagoas?
Contou-lhe haver ficado tão penalizada, que resolveu logo orga-nizar uma comissão de senhoras, para pedir esmolas. A morte da tia interrompeu os primeiros passos; mas ia continuar, passada a missa do sétimo dia. E perguntou que lhe parecia.
-Parece-me bem. Não há homens na comissão?
-Há só senhoras. Os homens apenas dão dinheiro, concluiu rindo.
Rubião, de cabeça, subscreveu logo uma quantia grossa, para obri-gar os que viessem depois. Era tudo verdade. Era também verdade que a comissão ia pôr em evidência a pessoa de Sofia, e dar-lhe um empurrão para cima. As senhoras escolhidas não eram da roda da nossa dama, e só uma a cumprimentava; mas, por intermédio de certa viúva, que brilhara entre 1840 e 1850, e conservava do seu tempo as saudades e o apuro, conseguira que todas entrassem naquela obra de caridade. Desde alguns dias não pensara em outra cousa. Às vezes, à noite, antes do chá, parecia dormir na cadeira de balanço; não dormia, fechava os olhos para considerar-se a si mesma, no meio das companheiras, pessoas de qualidade. Compreende-se que este fosse o assunto principal da conversação; mas, Sofia tornava de quando em quando ao presente amigo. Por que é que ele fazia fugidas tão longas, oito, dez, quinze dias, e mais? Rubião respondeu que por nada, mas tão comovido, que uma das costureiras bateu no pé da outra. Daí em diante, ainda quando o silêncio era largo, cortado apenas pelo som das agulhas no merinó, das tesouradas, dos rasgados, uma e outra não perdiam de vista a pessoa do nosso amigo, com os olhos fisgados na dona da casa.
Veio uma visita de pêsames, -um homem, diretor de banco. Foram chamar logo o Palha, que desceu a recebê-lo. Sofia pediu licença ao Rubião, por alguns segundos, ia ver Maria Benedita.
CAPÍTULO XCIII
RUBIÃO, ficando só com as duas mulheres, entrou a andar de um lado para outro, abafando os passos, para não incomodar ninguém Da sala vinha uma ou outra palavra do Palha"Em todo o caso, pode crer..."-"Nem a administração de um banco cousa de brincadeira..." -"Positivamente..." O diretor falava pouco, seco e baixo.
Uma das costureiras dobrou a costura, arrecadou apressadamente retalhos, tesouras, carretéis de linha, de retrós. Era tarde; ia-se embora.
-Dondon, espera um bocado que eu vou também.
-Não, não posso. O senhor faz favor de dizer que horas são?
-São oito e meia, respondeu Rubião.
-Jesus! é muito tarde.
Rubião, para dizer alguma cousa, perguntou-lhe por que não esperava, como a outra pedia.
-Só espero D. Sofia, acudiu Dondon com respeito, mas o senhor sabe onde é que esta mora? Mora na Rua do Passeio. E eu vou dar com os ossos na Rua da Harmonia. Olha que daqui à Rua da Harmonia é um estirão.
CAPÍTULO XCIV
SOFIA DESCEU LOGO, achou Rubião transtornado, fugindo com os olhos. Perguntou-lhe o que era; ele respondeu que nada, dor de cabeça. Dondon saiu, o diretor do banco despedia-se; Palha agradecia-lhe a fineza, estimava-lhe a saúde. Onde estava o chapéu? Achou-o; deu-lhe também o sobretudo; e, parecendo que ele procurava outra cousa, perguntou se era a bengala.
-Não, senhor, é o guarda-chuva. Creio que é este; é este. Adeus
-Ainda uma vez, obrigado, muito obrigado, disse o Palha. Ponha o seu chapéu, está úmido, não faça cerimônias. Obrigado, muito obrigado, concluiu apertando-lhe a mão nas suas, e curvado em ângulo.
Voltando ao gabinete, deu com o sócio, que teimava em sair. Instou também, disse-lhe que tomasse uma xícara de chá, que lhe passava logo; Rubião recusou tudo.
-A sua mão está fria, observou a moça ao Rubião, apertando-lha; por que não espera? Água de melissa é muito bom. Vou buscar.
Rubião deteve-a; não era preciso, conhecia aqueles achaques, curavam-se com sono. Palha quis mandar vir um tílburi; mas o outro acudiu dizendo que o ar da noite lhe faria bem, e que no Catete acharia condução.
CAPÍTULO XCV
"VOU AGARRÁ-LA ANTES de chegar ao Catete", disse Rubião subindo pela Rua do Príncipe.
Calculou que a costureira teria ido por ali. Ao longe, descobriu alguns vultos de um e outro lado; um deles pareceu-lhe de mulher. Há de ser ela, pensou; e picou o passo. Entende se naturalmente que levava a cabeça atordoadaRua da Harmonia, costureira, uma dama e todas as rótulas abertas. Não admira que, fora de si, e andando rápido, desse um encontrão em certo homem que ia devagar, cabisbaixo. Nem lhe pediu desculpa; alargou o passo, vendo que a mulher também andava depressa.
CAPÍTULO XCVI
E o HOMEM empurrado, apenas sentiu o empurrão. Caminhava absorto, mas contente, espraiando a alma, desabafado de cuidados e fastios. Era o diretor de banco, o que acabava de fazer a visita de pêsames ao Palha. Sentiu o empurrão, e não se zangou; concertou o sobretudo e a alma, e lá foi andando tranqüilamente.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Quincas Borba. Rio de Janeiro: Garnier, 1891.