Por Coelho Neto (1890)
— Ele julga-se a Via-Láctea e diz que veio parar na terra porque um homem perverso, esse tal que ele injuria...
— O homem está lá?
— Não, quem está lá com ele é o esqueleto. — O esqueleto do homem...?
Não houve tempo para mais explicações. Crebillon saia do nu, arrastando o esqueleto e brandindo a faca. O carroceiro, logo que o viu, fez menção de fugir, mas Crebillon dando com ele, pôs-se a ranger os dentes, a arregalar os olhos e era horrível de ver-se-lhe o carão purpúreo com a pêra ruiva que a chama invertida de um grande círio. Sem tirar os olhos do homem, encostando o esqueleto à parede, foi passando a lâmina da faca no braço nu e, feroz, agachado, avançava pé ante pé. O homem estava lívido e tremia quando Ruy Vaz, querendo interceder por ele, com uma seriedade imperturbável, falou a Crebillon:
— Ouve, Thomaz, ouve... Sou eu, teu amigo. Então não me conheces?
— Este não é o Serafim? O dono dos ossos? É ele mesmo... Ah! Miserável, que fizeste de Maria Angélica? Onde está Maria Angélica? Pensas que me escapas? Olha, os teus ossos já estão ali, agora o resto... Eu preciso da tua carne para cobrir o esqueleto que está com frio. Ergueu os braços e uivou: Ah! Maria Angélica...! Vais ser vingada! Serafim está aqui! Vou picá-lo em bocadinhos... Em bocadinhos, Maria Angélica, em bocadinhos!
De repente, dando um salto feroz, ia deitar a mão ao homem e tê-lo-ia alcançado se ele não deitasse a correr, precipitando-se escada abaixo, aterrado. Crebillon acompanhou-o até o patamar, brandindo a faca e urrando os nomes misteriosos de Serafim e de Maria Angélica, mas a porta bateu com violência e João de Deus, que fora espiar o homem, subiu a anunciar que ele havia desaparecido.
— Deste estamos livres. E foi o esqueleto que o aterrou.
— Similia similibus curantur, disse o Toledo saindo do quarto para apanhar a ossada libertadora. E o dia passou-se todo em comentários alegres. Para a tarde, porém, com o roxo e melancólico crepúsculo e com a fome, a alegria foi-se dissipando e a casa tornou-se um palácio de suspiros.
Os dias corriam e Crebillon ia protelando a compra dos móveis até que, uma noite, recolhendo-se muito cedo e à pressa, anunciou nova viagem à Bocaina para dar cabo de uma corda de porcos que devastavam a roça de milho de Fontainha. Os rapazes revoltaram-se, o próprio Toledo, sempre brando, teve um assomo de energia. Onde iriam eles arranjar trezentos e cinqüenta mil réis, que em tanto importava o aluguel mensal do palacete? E Ruy Vaz falou por todos:
— Tem paciência, Crebillon, deixa lá os porcos, vamos cuidar de coisas mais sérias. Tu não hás de querer que soframos aqui um vexame. O fim do mês está aí e, além das muitas vergonhas que curtimos calados, queres ainda que sejamos expulsos desta casa, onde nos meteste seduzindo-nos com promessas de tranqüilidade e fausto? Eu já sou vítima de comentários vis aí pelas vendas.
— Tu?!
— Eu, sim. João de Deus que o diga.
— Mas que comentários? Por que a casa não tem mobília?
— Em parte, ou antes — é essa a razão porque, se tivéssemos mobília, não traríamos as janelas sempre fechadas como as trazemos. Mas queres saber? Como o Toledo sai quase sempre de manhã e só torna à noite, como tu, e eu sou o único que sai às duas da tarde, afrontando os olhos da vizinhança, porque Anselmo espera sempre a Providência em casa, sabes que dizem mim? Que sou um marido terrivelmente ciumento, que saio deixando minha mulher trancada. E o interessante é que descrevem essa criatura vítima do meu desmarcado zelo: loura, de olhos azuis, pálida, muito infeliz e, quando desço, ouço vozes rancorosas: "Lá vai ele!... Olha o carrasco!..." Tudo por quê? Porque não temos mobília e trazemos a casa constantemente fechada. A fama que essa falta de trastes me vai granjeando não é das mais agradáveis e ainda queres que nos sujeitemos as injurias de um senhorio? Tem paciência... Deixa os porcos do mato em paz e, se não podes mobiliar a casa, dize francamente porque há mesmo trato de arranjar um quarto e transfiro-me. Aqui não podemos ficar, num casarão, grande como uma cidade, com duas cadeiras, várias antigüidades e três canecas de folha.
— Eu já disse que trago os móveis.
— Há um mês que nos prometes e, até hoje, só nos tens as três canecas citadas.
— Mas querem vocês que eu roube? Hei de roubar? — clamou desesperado. Se eu agora não tenho dinheiro, como querem traga mobílias?
— Mas, então, por que nos iludiste, Crebillon?
— Ora! Eu tinha algum dinheiro, mas como não dava para despesa, empreguei-o em bilhetes de loteria. Saíram brancos. Ando infeliz, que queres? Ando infeliz. Eu tinha vontade de fazer alguma coisa, mas a sorte foi-me adversa, aí tens. — Ah! Querias arranjar móveis com a loteria?
— Então?
— Pois sim... E vais aos porcos?
— Vou. Não posso deixar Fontainha sozinho, com uma corda de caititus. Tu não sabes o que é uma corda de caititus.
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.