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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Já não era só o amor de Guaraciaba o alvo único das aspirações de Itajiba, nem tão pouco as solenes promessas pelas quais se ligara à nação dos Chavantes, o único motivo que o dirigia em suas ações. Considerações de outra ordem também contribuíam para retê-lo entre os selvagens, e o faziam procurar firmar cada vez mais a sua influência e prestígio entre eles. Na alma ardente e aventurosa do bandido de Goiás despontavam já vistas ambiciosas e cálculos de elevação pessoal. Acoroçoado pelo brilhante sucesso de suas empresas, o feliz amante, o vitorioso cabo de guerra afagava já em seu espírito projetos de dominação e de poder, e delineava nos campos do futuro com largos e atrevidos traços os vastos planos de seu engrandecimento. Uma vez dominador da nação dos Chavantes não lhe seria difícil submeter também pela força das armas, ou mesmo por meios pacíficos e brandos, as outras tribos vizinhas das margens do Tocantins. Ele lhes ensinaria algumas das artes e ofícios mais indispensáveis, os induziria por meios persuasivos a cultivar a terra, para o que procuraria provê-los dos instrumentos próprios, a se aplicar à criação de gado, a construir habitações estáveis e mais sólidas, e enfim pouco a pouco os faria ir abandonando os grosseiros e ferozes hábitos da vida nômade e selvática pelos costumes e usanças dos povos civilizados. Tornado assim o chefe supremo de uma imensa população ativa, industriosa e guerreira, ele se tornaria temível aos fracos governos de Goiás, poderia tratar com eles como de potência a potência, e lhes imporia as condições. Com essa espécie de catequese e organização das tribos indígenas não só ele adquiria grande poder e prestígio naquelas paragens, como também prestaria ao Estado um eminente serviço, do qual ele reservaria para si o direito de marcar o preço e a remuneração.

Proporia submeter ao Estado todas essas tribos assim disciplinadas, contanto que os indígenas fossem considerados como outros tantos cidadãos e lhes fossem garantidos os direitos sociais. Outrossim lhe seria outorgado o governo e a direção daquelas tribos, enquanto vivo fosse, com o título e jurisdição de capitão-mor, que seria transmitido a seus descendentes por morgadio.

No caso de recusa protestava continuar à testa dos mesmos índios sua vida aventureira fazendo guerrilhas e devastadoras correrias por toda a capitania. Assim o terrível e turbulento valentão de Vila Boa, depois de se ter tornado formidável caudilho das hordas selvagens do Tocantins, aspirava agora a trocar o arco e o cocar de cacique pela farda vermelha de capitão-mor. Mas o céu lhe reservava outros destinos, se não tão brilhantes, ao menos mais santos e sublimes.

Chegou enfim o dia em que deviam começar os grandes festejos pela união de Itajiba e Guaraciaba. Tão feliz e tão brilhante união, tão ruidosos e magníficos regozijos jamais tinham presenciado aquelas florestas. O feliz aventureiro ia tocar ao fastígio da ventura e da prosperidade. O amor lhe sorria nos lábios e nos olhos da ingênua e formosa virgem, que como um anjo tutelar lhe aparecera nos caminhos da vida para arrebatá-lo a uma morte cruel e inevitável, e depois levá-lo pela mão por entre risonhas e floridas veredas ao cume da felicidade e do amor. O respeito e veneração dos Chavantes por toda a parte o rodeavam, e tocavam quase ao fanatismo; via sua influência e predomínio firmar-se entre eles sem recear mais rival algum que ousasse contrastá-lo. Suas brilhantes proezas, repetidas de boca em boca, ecoavam como um hino triunfal, e a glória dava-lhe a respirar os seus perfumes inebriantes.

Desde o romper da alva o arraial dos Chavantes começou a arrear-se de atavios de festa e a ressoar com rumores prazenteiros. Bandos alegres de homens e mulheres, ataviados com seus mais garridos enfeites, percorriam as brancas areias da praia cantando e tangendo seus rudes instrumentos; outros em canoas cobertas com toldas de ramos e flores sulcavam as águas do rio em todas as direções, acordando os ecos das sombrias ribanceiras com alegres vozerias ou com estrondo de descargas dos mosquetes, que Itajiba lhes tinha dado; ali um bando de guerreiros, revestidos de vistosas armaduras, executavam exercícios guerreiros simulando combates e cenas de guerra; além grupos de homens e mulheres sentados à sombra de algum copado arvoredo banqueteavam-se alegremente inebriando-se de cauim.

Tudo era festa, regozijo, movimento e ruído, e essas demonstrações eram filha de um sincero prazer e verdadeiro entusiasmo da parte dos Chavantes, a quem Itajiba por seus atos de heroísmo e pela nobreza e generosidade de sua alma soubera inspirar ao mesmo tempo afeição, respeito e fanática admiração.

À noite o espetáculo variava inteiramente de natureza e de aspecto. Os troncos das florestas forneciam a descomunal iluminação desses selváticos festejos: empilhados uns sobre outros de espaço em espaço em fogueiras colossais ao longo da praia ardiam estrepitosos, e como crateras em erupção arrojavam às nuvens borbotões de fumo, e miríadas de fagulhas chamejantes. Ao vermelho clarão das fogueiras o rio fulgurava como larga torrente de lavas abraseadas, e por entre elas via-se cruzando a todos os instantes e em todas as direções uma turba imensa em alegre e festival celeuma, e divisavam-se como espectros as figuras bronzeadas dos guerreiros agitando os cocares ondulantes, e com bizarros esgares e compassados saltos executando danças selváticas e figurando combates e pelejas. Um espectador estranho, que ali se achasse, julgaria presenciar um orgia de espectros.

Na tarde do terceiro dia, em uma vasta sala da taba do velho cacique, em presença dos pajés e dos principais da tribo, Oriçanga entregou sua filha, a meiga e formosa Guaraciaba, ao valente e generoso Itajiba, com as singelas e breves cerimônias entre eles usadas para esses atos, e declarou outrossim que em razão de sua avançada idade transferia a Itajiba desde aquele momento o governo e comando da tribo. A multidão, que ávida e curiosa se tinha aglomerado em torno da taba do cacique, prorrompeu em entusiásticas e ruidosas aclamações, e os festins se prolongaram pela noite adiante ainda mais estrondosos e animados.

CAPÍTULO VI

INSÍDIA

(continua...)

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