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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

— Deixo; mas é só por ser curiosa. Quero saber o que ia pensando a meu respeito. Vamos, Sr. João? Jorge enfiou a rédea no braço e colocou-se ao lado dela; Iaiá tomou-lhe afoitamente o outro braço.

— Vá, conte-me tudo.

— O Procópio Dias embarcou hoje.

Iaiá, que já havia dado os primeiros passos, estacou.

— Para onde? disse.

— Para o Rio da Prata; morreu-lhe um irmão em Buenos Aires.

— Mas sem se despedir de nós!

— Naturalmente, custava-lhe fazê-lo, e quis poupar-se à dor da separação. Esteve porém comigo, e prometeu- me que a demora seria curta. Viu-o muito aflito com a viagem, tão aflito que não sei se lhe diga que era... era, decerto, era maior a dor da viagem do que a da morte do irmão. Talvez lhe faça injúria nisto, mas parecia.

— Por quê? perguntou a moça erguendo os olhos para ele.

— Não sei se lhe deva dizer por que, acudiu Jorge. E daí, não se tratando de nenhuma cousa do outro mundo... É verdade que as moças bonitas, como a senhora, costumam ser cruéis... Não sei... Há situações um pouco…

— Ridículas, concluiu Iaiá.

— Como ridículas?

— Por exemplo, a sua.

Jorge enfiou um pouco; mas a um homem de sociedade, Iaiá não parecia de força a fazer perder o equilíbrio. Sorriu levemente, e retorquiu sem azedume:

— Não é ridículo ser afetuoso; eu cuidava responder à linguagem de seu coração.

— Supunha que a ausência de Procópio Dias me deixava saudades...

— Supunha.

— Que tem o senhor com isso?

A resposta de Jorge foi um simples gesto negativo. Contudo, não pôde zangar-se, porque sentia tremer o braço da moça, e olhando de esguelha para ela via-a pálida e com os olhos no chão. Se a palidez e o tremor eram de cólera não chegou a sabê-lo; mas provavelmente não era outra cousa, porque ao cabo de três a quatro minutos, Iaiá ergueu os olhos e estendeu-lhe a mão, dizendo:

— Façamos as pazes.

— Nunca estivemos em guerra, acho eu.

— Talvez em véspera de guerra.

— Não por culpa minha...

— Nem minha, acudiu a moça. E erguendo o chapelinho de sol para o céu.

— Talvez por culpa daquele, disse ela suspirando.

Após o suspiro, veio uma risadinha seca e forçada, mas longa ainda assim como o som de um golpe no cristal. Tinham andado poucos minutos, e esses poucos eram já de sobra para espertar a curiosidade de Jorge, e para lhe dar direito a pedir uma explicação. Jorge pediu-lha em termos afetuosos, perguntando por que razão era o céu culpado em uma guerra que devia romper entre ambos, e sobretudo qual seria o pretexto dessa guerra. Iaiá refletiu um instante, e começou a falar com os olhos baixos.

— O motivo é o senhor mesmo, disse ela.

— Eu?

— O senhor, que é meu inimigo, que me detesta. Não me dirá que mal lhe fiz eu? continuou ela erguendo subitamente os olhos. Escusa fazer esse gesto de espanto; sei que o senhor me detesta, e por mais que pergunte a mim mesma, — não sei, não me recordo... Diga, fale com franqueza.

— Tanto melhor! exclamou Jorge. Vejo que havia entre nós um equívoco; e é chegada a ocasião de o desfazer. Quer que lhe fale com franqueza? O inimigo não sou eu, é a senhora; é a senhora, ou antes, era ou parecia ser. Agora compreendo; retribuía-me a aversão que supunha haver em mim. Tanto melhor! Façamos as pazes de uma vez. Iaiá apertou a mão que ele lhe ofereceu e chegaram alegremente a casa. Jorge quis retirar-se logo, mas a moça ordenou a Raimundo que conduzisse o cavalo, e Jorge foi compelido a entrar por alguns minutos. Luís Garcia não estava em casa. Estava o Sr. Antunes. Iaiá mal deu tempo aos primeiros cumprimentos.

— Ande jogar comigo, disse ela.

— Em boa paz?

— Em boa paz.

Iaiá preparou o xadrez, no gabinete contíguo à sala; Jorge sentou-se pacientemente diante da adversária, retificou a posição de duas peças, excluiu as que lhe dava de partido e adiantou o primeiro peão.

— Vá, disse; é a sua vez.

Iaiá não obedeceu ao convite. Olhava para ele, com ar inquieto.

— Dá-me sua palavra de honra de que me não negará o que lhe vou perguntar? disse ela ao cabo de alguns instantes de silêncio.

Jorge hesitou um pouco.

— Conforme.

— Exijo.

— Que me pedirá ela que lhe não possa afirmar? pensou Jorge. E em voz alta respondeu:

— Dou.

— Foi ele quem lhe encomendou...

— O sermão? interrompeu Jorge sorrindo. Serei franco; foi ele mesmo.

Iaiá baixou os olhos ao tabuleiro, cavalgou a torre com o bispo, como distraída, e em voz ainda mais baixa do que lhe falara, perguntou:

— O senhor é homem de segredo?

— Sou, redargüiu afoitamente Jorge.

— Pois bem, continuou Iaiá, eu gosto dele, gosto muito, mas não desejo que ele saiba.

— Deveras? não está gracejando?

— Não estou.

Jorge estendeu-lhe a mão:

(continua...)

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