Por Machado de Assis (1876)
Pois bem, disse Estácio, como concluindo um raciocínio interior; consinto em que Helena se case, mas procuremos outro marido. Mendonça, não; há de ser outro. Vou casar-me também; receberei todas as semanas; algum rapaz aparecerá que a mereça e de quem ela venha a gostar seriamente... É a minha última resolução.
CAPÍTULO XIX
No momento em que Estácio proferia estas palavras, transpunha Mendonça a porta do jardim do capelão. Preocupado com a frieza de Estácio, lembrara-lhe falar a Melchior e pedir- lhe conselho. Melchior ia responder ao sobrinho de D. Úrsula, quando ouviu rumor de passos na areia do jardim.
Aí vem o noivo, disse ele.
Estácio deu dois passos para pegar no chapéu; reconsiderou e foi sentar-se ao pé da mesa redonda. Havia ali um exemplar das Escrituras. Abriu-as ao acaso; a página acertou ser um capítulo dos Provérbios; leu este versículo: “Quem quer abrir mão de seu amigo, busca- lhe as ocasiões; ele será coberto de opróbrio.” Envergonhado, voltou a folha. Mendonça entrara na sala. Não contava com Estácio, mas estimou vê-lo ali.
Venha, disse Melchior; tratávamos justamente do seu casamento.
Estácio lançou ao padre um olhar de exprobração. O padre não o viu; olhava para Mendonça, que imediatamente lhe respondeu:
Não venho cá para outra causa. Uma vez que a fortuna o fez nosso confidente, desejo constituí-lo meu conselheiro e diretor.
Antes de tudo, sou advogado da sua causa, disse Melchior; estava expondo agora as vantagens dela.
Mendonça olhou fixamente para o amigo, e, depois de curta pausa:
Rejeitas ou aceitas o noivo? perguntou ele.
Posto entre a espada e a parede, Estácio não soube logo que respondesse; ficou a olhar para a lauda aberta, receoso de encontrar a vista dos dois. O silêncio era pior que a resposta; e nem o caso nem as pessoas permitiam tão grande pausa. Estácio fechou de golpe o livro e ergueu-se.
Discutia somente as vantagens do casamento, disse ele.
E qual é a tua opinião?
Minha opinião é que Helena está ainda muito menina. Mas não é só essa, nem é a principal; o voto, em todo o caso, é a favor do casamento. A principal razão é o teu próprio crédito.
Meu crédito?
Helena pode vir a amar-te como lhe mereces; a verdade é que não sente ainda hoje igual paixão à tua; foi o padre-mestre que mo disse. Estima-te, é certo; mas a estima é flor da razão, e eu creio que a flor do sentimento é muito mais própria no canteiro do matrimônio...
Há muita flor nesse ramalhete de retórica, interrompeu benevolamente o padre. Falemos linguagem singela e nua. Não literalmente o que lhe diz este filósofo, prosseguiu ele, voltando-se para Mendonça; ele gosta de ambos e quer vê-los felizes; próprio zelo que lhe faz falar assim. Numa palavra, deseja que o senhor a conquiste, depois de campanha formal.
Mendonça respondeu ao capelão com um sorriso pálido, que arrebitou um pouco as pontas do bigode, recolhendo-se logo medroso e frio. O rosto ficara carregado e pensativo; a língua de Estácio tocara-lhe o coração. Disposto a aceitar a estima e a de Helena com a esperança de converter êsse pequeno avultado capital, não lhe ocorrera que, a olhos estranhos, parecer que o fim exclusivo era a riqueza da moça. Estácio rompera o véu a essa probabilidade. Uma só palavra desfizera a ilusão de poucos dias.
Vamos lá, disse o padre, abracem-se como irmãos.
Nenhum deles se mexeu. Melchior sentiu toda a gravidade da situação; viu perdidos os esforços, desfeita a união assentada, um abismo cavado entre os dois amigos, incerto o destino de Helena. Interveio outra vez com palavras de brandura, que os dois ouviram sem interromper. Quando acabou:
O Estácio tem razão, disse Mendonça; meu crédito padecerá, desde que alguém se lembre de dizer que o casamento foi arranjado sem nenhuma preocupação das preferências de
D. Helena. Ela me desobrigará, em troca da palavra que lhe restituo.
A frase brotou-lhe dolorida, mas sem hesitação nem fraqueza. Estácio olhava para ele e sentia alguma coisa semelhante a um remorso. Uma voz interior parecia dizer-lhe: — “Sonâmbula, abre os olhos, tem consciência de tuas ações; teu abraço enforca; teus escrúpulos fazem-te odioso; tua solicitude é pior do que a cólera.” Viu o mancebo cortejar o padre; deteve-o pelo braço.
Onde vais? disse ele.
Vou aonde me leva o pundonor, disse singelamente Mendonça.
Pobres rapazes! exclamou o padre. São dois estouvados, nada mais; um quer catar argumentos onde sua irmã só achou nobre e franca resolução; o outro rompe de coração leve uma promessa feita em presença de um sacerdote. Estouvados, disse eu? São mais do que isso: são dois dementes. Ora, como só eu tenho juízo e conseqüente autoridade, digo que nem um há de sair assim desenganado, nem o outro há de recusar a aquiescência que lhe peço em nome de seu finado pai.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.