Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)
Um pouco além, quase em frente à Rua Nova do Ouvidor; e, portanto, outra vez do lado direito da do Ouvidor; vemos a atual casa do Grão-Turco, que não perde por falta da menção do número.
Hoje, depois da guerra de 1877 e 1878, em que a Rússia levou a Turquia ao extremo de exportar o fumo do sultão, e os cachimbos dos ulemás, e dos pachás, o Grão-Turco perdeu todo o seu prestígio na Europa e Ásia, e a meia-lua otomana ficou em perpétua fase minguante.
Antes, porém, dessa guerra deveras que só o Grão-Turco pudera ser herdeiro condigno das glórias da casa que conquistou, e que já era triplicemente famosa.
Eu disse triplicemente, e para mostrar os fundamentos da aplicação do advérbio basta-me declinar os nomes dos florescentes lojistas franceses que celebrizaram essa casa.
A começar de 1824 ali temos:
Loja de modas de Mr. Saisset Idem de Mr. Wallerstein:
Idem de Mr. Masset (o antigo).
O Saisset estreou-se auspicioso em 1824 (ou no fim de 1823), e foi arranjando fortuna; mas passados cerca de quatro anos, em que bateu moeda, veio-lhe inesperada adversidade da formosura, e do vinho.
Mme Saisset era lindíssima, conforme o testemunho dos seus jovens contemporâneos e hoje velhos choradores do passado; tinha, porém, a fraqueza de saber de mais que o era, e de gostar que a admirassem.
O Saisset, homem extremamente delicado no trato, de gênio brando e pacífico, e que muito se desvanecia da beleza da esposa, tinha também sua fraqueza; amava além de Mme Saisset o vinho de Borgonha, e às vezes depois do jantar mudava de caráter e tornava-se bulhento e arrebatado: isso não era sempre, era às vezes, conforme a quantidade do traiçoeiro Borgonha bebido.
O pior era que o Saisset quando se exagerava no culto de vinho nem sempre dormia e quando não dormia, ficava irascível, desatinado, e inconseqüente.
Foi um dia à noitinha, isto é, depois do jantar, o Sais set embirrou com a esposa, que estava diante de grande espelho a enfeitar-se com um lindo toucado que usava de predileção, e ele em demasias de Borgonha excedeu-se tanto, que encolerizado quebrou o espelho, e fez em casa tão escandaloso ruído que todos os vizinhos o julgaram perdido por ataque de loucura.
Poucos dias depois, muito vexado e constrangido, o Saisset teve de deixar a cidade do Rio de Janeiro, levando consigo a bela esposa, e saíram ambos barra afora para a Europa; ele a maldizer do seu vinho. brigão, e Mme Saisset a chorar o seu espelho quebrado.
Ao Saisset sucedeu na casa e nos fulgores das modas Mr. Wallerstein.
Que nome! Que prestígio!
O Saisset fora o Clóvis!
O Wallerstein foi o Carlos Magno da Rua do Ouvidor.
Ó loja do Wallerstein!... A lembrança dos seus primores faz ainda palpitar corações, não de velhas, porque não há senhoras que o sejam, mas de senhoras que foram meninas e jovens durante o florescimento daquele gênio do bom-gosto, florescimento que perdurou desde o fim do Primeiro Reinado até além da coroação do Imperador o Sr. D. Pedro II.
Havia na Rua do Ouvidor, e em outras como a da Quitanda, lojas que vendiam sedas, leques, xales, etc., a preço de vinte, trinta, cinqüenta por cento menos do que se compravam iguais e algumas vezes inferiores na loja do Wallerstein; mas que importava isso?... não eram do Wallerstein!...
Se algum pai ou marido levava à menina ou à esposa com ar de. triunfo o rico e lindo corte de vestido com ânsia esperado da pasmosa loja, a menina ou esposa exultava, achando-o admirável e eclipsador.
- Sim!... mas custou duzentos mil réis!...
(Era naquele tempo...)
- Pois não está caro... e disto só tem o Wallerstein.
Ainda bem!... mas esse corte de seda eclipsador saiu da loja do João Fernandes & C. por 110$000.
Ah, boca que tal disseste!...
A menina ou a esposa dissimulava durante alguns minutos, depois examinava de novo a seda, e empurrando-a para o lado, fazia um momo desprezador, e murmurava desconsolada:
- Reparando melhor... nem por isso... parece antiga... é algum alcaide... vê-se logo que não é do Wallerstein!
Os pais e maridos mais ladinos não faziam confissão do estratagema, e as filhas e esposas às vezes ostentavam seus ricos vestidos de Wallerstein comprados na Rua da Quitanda, ou em lojas modestas.
Para brilhar a alegria na família bastavam duas inocentes mentiras: primeira, dizer que o corte de seda era procedente da casa de Wallerstein; segunda, ralhar exagerando a despesa feita: asseverando que custara duzentos mil réis, o que se comprara por oitenta ou cem.
Mas não havia pai nem marido capazes de iludir as filhas e as esposas da alta sociedade ou do proclamado bom-tom; essas eram intransigentes e escrupulosas freguesas do Wallerstein.
Era tal o furor de preferência dada à casa do Wallerstein, que em mais de um caso chegou a tocar à extravagância e ao ridículo.
Dou exemplo.
(continua...)
MACEDO, Joaquim Manuel de. Memórias da Rua do Ouvidor. Rio de Janeiro: [s.n.], 1878. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7544 . Acesso em: 4 jan. 2026.