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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

O czar vencido era a Rússia libertada. O povo russo perdeu a docilidade de criança dependente: tem visto, tem olhado para fora da fronteira, sabe que há uma coisa que se chama liberdade, outra que se chama constituição, uma certa reunião de vontades e de razões que se chama parlamento, etc., etc. – e tem vontade de provar destes frutos excelentes que crescem nas terras alheias. Se o povo sofresse duas ou três derrotas providenciais, perdia todo o respeito, toda a ilusão sobre o seu czar, e ou o obrigava delicadamente a ir divertir-se para a Itália ou o forçava a não ser mais que a fórmula simbólica do Governo, de que ele, povo, será, pelos seus representantes e pelos seus jornais, o motor real. Por isso, é com mágoa, é com prantos, que vemos escapar esta ocasião única de ver a Inglaterra, campeã da liberdade, como diz a canção, desfazer a tiros o Governo do czar e o seu terrível maquinismo. Porque lançada a Inglaterra contra a Rússia, o resultado não era duvidoso. E é triste, é desolante, ver em lugar disto o czar ganhando batalhas, tomando cidades, arrecadando indemnizações de guerra, o czar alargando o seu território, o czar crescendo em força, o czar consolidando-se, o czar amado, o czar vitorioso!

Esta inimizade ao czar não implica, todavia, nenhuma simpatia pelo sultão. O Governo da Porta é tão detestável como o Governo do Palácio de Inverno. Talvez mais, mesmo. Decerto a situação dos cristãos na Bulgária e nas províncias turcas era lamentável; muitos correspondentes ingleses, pró-turcos, esforçam-se em provar que os cristãos eram felizes, pouco carregados de impostos, de nenhum modo violentados nas suas crenças, gozando uma liberdade considerável de trabalho e possuindo mesmo uma prosperidade relativa. Mas se isto é assim, porque eram os Russos recebidos por estas populações com o entusiasmo com que se recebe um salvador?

Quando o general Gurko passou os Balcãs, por cada camponês búlgaro que se reclamava para puxar, nas passagens das montanhas, as peças de artilharia, apareciam cem! E os que, por supérfluos, eram excluídos deste serviço muar, queriam ao menos, por dedicação, ir ao pé da carreta puxar por uma ponta da corda, tocar a peça libertadora com as suas próprias mãos, fazer qualquer serviço, mostrar a gratidão e o reconhecimento do homem salvo.

Quando os Russos entravam em Sófia, em Andrinopla, eram recebidos com fanatismo: os soldados desapareciam sob as flores arremessadas; os lojistas ofereciam os seus armazéns de graça. O russo era o Messias muito esperado. Ora é evidente que se eles (como querem dizer certos correspondentes) eram tão felizes sob a lei turca não teriam recebido com tanta paixão quem vinha destruir essa lei. E, pois, de crer que a prosperidade de que se fala não existiu nunca senão na prosa dos correspondentes, de envolta com alguma má gramática. Eu não conheço a Bulgária, nem observei nunca de perto espécime algum da administração turca; mas estive no Egipto e lembro-me da impressão geral que me ficou da condição dos felás, pobres cultivadores da terra; o chino nas Antilhas, o negro nas colónias espanholas, gozam uma verdadeira felicidade, comparados com o miserável, o acabrunhado, o desgraçado felá. Quem observa como eles vivem, como os tratam, sente vagamente um insulto à natureza humana; não quero dizer que os cristãos da Bulgária estivessem nas mesmas condições abjectas; mas a similitude da administração egípcia e turca deve produzir uma igualdade de vexame. Portanto, honra e glória a quem os fosse libertar! A Rússia não era talvez o país mais autorizado para o fazer, ela que trata... como trata os pobres camponeses, antigos servos. Mas, enfim, foi a Rússia que se dedicou, que apareceu na Bulgária a sacudir a tirania otomana: bem!, hurra pela Rússia! Hurra pela Patagónia, se tivesse sido a Patagónia! Mas agora que o czar livrou os Búlgaros do sultão, venha alguém, mais civilizado ainda, a livrar os Russos do czar. Eis o verdadeiro ideal liberal.

Mas esta esperança devemo-la perder. Toda a esperança da guerra findou. Direi mesmo que, há dias, o procedimento do Governo inglês foi tal que se pode acreditar que ele tinha esquecido as suas declarações orgulhosas e que, fosse qual fosse a ofensa feita pela Rússia aos interesses ingleses, o leão britânico, caduco e pesado com a sua indigestão de ouro, não mexeria nem uma pata. Um jornal francês, mesmo, começou o seu artigo de fundo, dizendo: «A Inglaterra não existe! A Inglaterra desapareceu da superfície do orbe! Alvíssaras a quem achar a Inglaterra!» O Journal des Debats, dizia, com mais gravidade de estilo: «L’affaissement d’Angleterre est complet.» Com efeito, o Governo convocara o parlamento para lhe pedir fundos dado o caso que alguma coisa sucedesse; pois bem, o armistício estava-se tratando, uma divisão russa marchava sobre Galípoli, outra sobre Constantinopla – e o Governo não pedia os fundos! A tomada de Constantinopla não era considerada grave! O que seria grave, então? Mas a opinião fez tanto barulho que o Governo acordou e, ainda meio a dormir, declarou que havia de pedir os fundos «além de amanhã». Graças a Deus!

(continua...)

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