Por Eça de Queirós (1912)
Todas as manhãs marchavam através de terras, duramente. Era o velho que os guiava – e Cristóvão, em silêncio, caminhava ao seu lado, com a sua barra de ferro ao ombro. Atrás era a longa fila dos maltrapilhos em farrapos, com velhas cotas de armas, cuja malha se desfazia, morriões almogados, onde alguns tinham espetado plumas, as pernas nuas, as mãos erguendo foices, chuços, fueiros. As mulheres vinham depois, umas com filhos magros pendurados das saias, outras trazendo os mais pequeninos ao colo, e as mais velhas vergando sob fardos, onde se tinha reunido o que restava nas arcas, algum escasso alqueire de pão, uma almotolia de azeite, um pedaço de carne salgada; e atrás ainda era outra fila de homens, velhos, pastores com o seu cajado e o seu molosso, ceifeiros erguendo ao alto a foice, servos fugidos, mendigos, longas filas de miseráveis que de esfomeados não podiam marchar depressa, e deixavam uma longa nuvem de poeira, que ficava suspensa no ar.
Pelo começo da tarde, guiados pelo velho, acharam-se subitamente, depois de terem costeado um pinheiral, diante de um castelo que duas torres flanqueavam: e nesse momento, vinha saindo da ponte levadiça, a cavalo, um Senhor de longas brabas brancas, sem armas; ao seu lado, montada numa hacaneia branca, uma aia sustentava no colo uma menina, e atrás seguiam quatro escudeiros armados de lanças. Ao ver subitamente aquela turba que avançava, o Senhor estacou, um dos escudeiros tocou desesperadamente a buzina, enquanto outros toques respondiam sobre as ameias. E, voltando a égua, a aia galopou para dentro do castelo. Já as muralhas se cobriam de soldados. Mas o Senhor, desarmado, fixara, sem se mover, os seus olhos de águia sobre a turba imensa de maltrapilhos, que numa fila, sobre o caminho tortuoso, soltava grandes gritos de ataque, brandindo os ferros. Então Cristóvão, com um grande gesto de sua barra de ferro deteve a turba que parou. E, arrojando a barra, avançou só com os braços abertos para o Senhor, imóvel no seu grande corcel. Toda a muralha em cima estava coberta de arqueiros, de homens de armas. Todo o caminho embaixo estava negro da multidão dos maltrapilhos. E na ponte levadiça, o cavaleiro e o gigante ficaram sós, face a face.
Então, arrancando uma grande voz do peito, Cristóvão gritou:
— Vimos em paz. Trazemos as mulheres e as crianças. Nada temos contra ti... Mas todos os que me seguem têm fome. Detrás das tuas muralhas, há tesouros, arcas cheias de pão, grandes peças de carne diante da lareira... Estes, que vem comigo, não têm uma moeda de cobre, trabalham toda a vida, sofrem da fome, vêem as criancinhas devorar as raízes, morrem pelos cantos dos bosques como um lobo, e a vida toda para eles é um tormento... Dá uma esmola da tua abundância a toda essa pobreza que passa, Se queres, vem, não receies, passa através dessa multidão, olha para esses corpos magros, vê as criancinhas chorando com fome, as velhas tropeçando sob os fardos, toda uma miséria que já não pode sofrer mais... Tem piedade!
E tendo assim falado, Cristóvão recaiu na sua simplicidade, ficou mudo, estúpido, com os seus grandes olhos de boi de trabalho pregados nos castelo. Devagar, o Senhor voltou as rédeas, e a passo, com a cabeça baixa e pensativa, sumiu-se sob a porta do castelo. Mas as portas não se fecharam – e dentro em pouco, um servo saiu arrastando uma vaca; outros trouxeram carneiros; outros fortes gigos com pão, sacos de fava; outros uma arca, que vinha cheia de dinheiro; e tendo juntado tudo num monte diante da ponte levadiça, uma dos servos gritou, retirando:
— Este é o dom dos meu Senhor aos pobres que passam!
E a ponte levadiça subiu com um forte ranger de correntes de ferro.
Comandada pelo velho, sem desordem, os Jacques carregaram às costas, nos carros, o dom do Senhor, e de novo se meteram ao caminho, levando na frente Cristóvão, que parecia mudo e como espantado, com sua grande barra de ferro.
Um regato corria, na falda da colina. E aí ficaram os Jacques, para passar a noite. Em breve se acenderam fogos. O velho pôs sentinelas em todos os cantos. E nessa noite as crianças não choraram com fome, e houve uma gratidão no coração dos homens. Cristóvão não quis mais que um pedaço de pão. Bebeu da água pura do regato – e toda a noite, sentado numa pedra, enquanto estirados no chão, sob as árvores, os Jacques dormiam, ele olhou as estrelas, e pensou em Jesus, que estava por trás, e àquela claridade das suas lâmpadas, o via talvez entre esses desgraçados, como um pai entre os seus filhos.
De madrugada, os Jacques levantaram o campo, e guiados sempre pelo velho e pelo frade, partiram ao longo do regato, até que chegando aos primeiros carvalhos de um grande bosque, sentiram um cheiro nauseabundo, e viram um homem, um servo, enforcado num ramo de árvore, e já meio roído pelos corvos. Uma indignação correu entre os Jacques, quando alguns que se tinham adiantado descobriram outros corpos pendentes das árvores. Ao rumor da turba, os corvos fugiam de entre as ramagens: e sob os pés dos mortos, suspenso no alto, o chão estava todo espezinhado das patas dos lobos. Lá em cima, numa colina, negras na luz clara, apareciam as torres de um castelo. E aquilo era decerto a justiça do Senhor!
Então um clamor de cólera correu entre os Jacques. Uns queriam lançar fogo à floresta, para envolver o castelo. Outros falavam em abater as árvores, para fazer aríetes com que bater as muralhas. E Cristóvão, impelido pela multidão, que atrás dele brandia as foices e os chuços, começou a subir um caminho que levava ao castelo, entre as rochas que o musgo cobria.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. São Cristóvão. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16237 . Acesso em: 29 jun. 2026.