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#Romances#Literatura Portuguesa

O crime do Padre Amaro

Por Eça de Queirós (1875)

Ai! adeus! acabaram-se os dias

Que ditoso vivi a teu lado!

Soa a hora, o momento fadado.

É forçoso deixar-te e partir!

Então, àquela chorosa melodia repassada das tristezas da separação, Amaro sentiu-se tão perturbado que teve de se erguer bruscamente, ir encostar o rosto à vidraça, esconder as duas lágrimas que irreprimivelmente lhe saltavam das pálpebras. Os dedos de Amélia embrulhavam-se também no teclado; até a mesma S. Joaneira disse:

- Oh! filha, toca outra coisa, credo!

Mas o cônego, erguendo-se pesadamente:

- Pois senhores, vão sendo horas. Vamos lá, Amaro. Eu vou consigo até a Rua das Sousas...

Amaro então quis dizer adeus à idiota; mas depois de um forte acesso de tosse, a velha dormia, muito fraca.

- Deixá-la sossegada, disse Amaro. E apertando a mão á S. Joaneira: - Muito obrigado por tudo, minha senhora, acredite...

Calou-se, com um soluço na garganta.

A S. Joaneira tinha levado aos olhos a ponta do seu avental branco.

- Oh, senhora! disse o cônego rindo-se, já há bocado lhe disse, o homem não vai para as Índias!

- A gente é pela amizade que lhes ganha, choramingou a S. Joaneira.

Amaro tentou gracejar. Amélia, muito branca, mordia o beicinho.

Enfim Amaro desceu: e o João Ruço, que na sua chegada a Leiria lhe trouxera o baú para a Rua da Misericórdia, muito bêbedo, cantarolando o Bendito, - levava-lho agora para a Rua das Sousas, bêbedo também, mas trauteando o Rei-chegou.

•••

Quando Amaro, nessa noite, se viu só naquela casa tristonha, sentiu uma melancolia tão pungente e um tédio tão negro da vida, que, com a sua natureza lassa, teve vontade de se encolher a um canto e ficar ali a morrer!

Parava no meio do quarto, punha-se a olhar em redor: a cama era de ferro, pequena, com um colchão duro e uma coberta vermelha; o espelho com o aço gasto luzia sobre a mesa; como não havia lavatório, a bacia e o jarro, com um bocadinho de sabonete, estavam sobre o poial da janela; tudo ali cheirava a mofo; e fora, na rua negra, caia sem cessar a chuva triste. Que existência! E seria sempre assim!...

Desesperou-se então contra Amélia: acusou-a, com o punho fechado, das comodidades que perdera, da falta de mobília, da despesa que ia ter, da solidão que o regelava! Se fosse mulher de coração devia ter vindo ao seu quarto, dizer-lhe: Sr. padre Amaro, para que sai de casa? Eu não estou zangada! - Porque enfim quem irritara o seu desejo? Ela, com as suas maneirinhas temas, os seus olhinhos adocicados! Mas não, deixara-o ema. lar a roupa, descer a escada, sem uma palavra amiga, indo tocar com estrondo a valsa do Beijo!

Jurou então não voltar a casa da S. Joaneira. E, a grandes passadas pelo quarto, pensava - no que havia de fazer para humilhar Amélia. Q quê? Desprezá-la como uma cadela! Ganhar influência na sociedade devota de Leiria, ser muito do senhor chantre: afastar da Rua da Misericórdia o cônego e as Gansosos; intrigar com as senhoras da boa roda para que se afastassem dela, com secura, no altar-mor, à missa do domingo; dar a entender que a mãe era uma prostituta... Enterrá-la! cobri-la de lama! E na Sé, ao sair da missa, regalar-se de a ver passar encolhida no seu mantelete preto, escorraçada de todos, enquanto ele, à porta, de propósito, conversaria com a mulher do governador civil e seria galante com a baronesa de Via-Clara!... Depois pregaria um grande sermão, na quaresma, e ela ouviria dizer, na arcada, nas lojas: "Grande homem, o padre Amaro!". Tornar-se-ia ambicioso, intrigaria, e, protegido pela Sra. condessa de Ribamar, subiria nas dignidades eclesiásticas: o que pensaria ela quando o visse um dia bispo de Leiria, pálido e interessante na sua mitra toda dourada, passando, seguido dos incensadores, ao longo da nave da Sé, entre um povo ajoelhado e penitente, sob os roucos cantos do órgão? E ela o que seria então? Uma magra criatura murcha, embrulhada num xale barato! E o Sr. João Eduardo, o escolhido de agora, o esposo? Seria um pobre amanuense mal pago, com uma quinzena roçada, os dedos queimados do cigarro, curvado sobre o seu papel almaço, imperceptível na terra, adulando alto e invejando baixo! E ele, bispo, na vasta escadaria hierárquica que sobe até ao Céu, estaria já muito para cima dos homens, na zona de luz que faz a face de Deus-Padre! - E seria par do reino, e os padres da sua diocese tremeriam de o ver franzir a testa!

Na igreja, ao lado, bateram devagar dez horas.

Que faria ela àquela hora? pensava. Costurava decerto, na sala de jantar: estava o escrevente:

(continua...)

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