Por Eça de Queirós (1900)
E junto aos olmeiros da fonte surgira o Claro-Sol - que, com os seus, espreitava de um cabeço! Mas, logo no começo da curta briga, um primo de D. Violante, o agigantado senhor dos Paços de Avelim, o desarmou, o manteve um momento ajoelhado sob o lampejo e gume da sua adaga. E com vida perdoada, rugindo de surda raiva, o Bastardo abalou entre os poucos solarengos que o acompanhavam nesta afoita arremetida. Desde então mais fero ardera o rancor entre os de Baião e os Ramires. E eis agora, nesse começo da Guerra das Infantas, os dois inimigos rosto a rosto no vale estreito de Canta-Pedra! Lopo com um bando de trinta lanças e mais de cem besteiros da Hoste Real. Lourenço Mendes Ramires com quinze Cavaleiros e noventa homens de pé do seu pendão.
Agosto findava: e o demorado estio amarelecera toda a relva, as pastagens famosas do vale, até a folhagem de amieiros e freixos pela beira do riacho das Donas que se arrastava entre as pedras lustrosas, em fios escassos, com dormido murmúrio. Sobre um outeiro, dos lados de Ramilde, avultava, entre possantes ruínas eriçadas de sarças, a denegrida Torre Redonda, resto da velha Honra de Avelãs, incendiada durante as cruas rixas dos de Saízedas e dos de Landim, e agora habitada pela alma gemente de Guiomar de Landim, a Mal-casada. No cabeço fronteiro e mais alto, dominando o vale, o mosteiro de Recadâes estendia as suas cantarias novas, com o forte torreão, asseteado como o duma fortaleza - donde os monges se debruçavam, espreitando, inquietos com aquele coriscar de armas que desde alva enchia o vale. E o mesmo temor acossara as aldeias chegadas - porque, sobre a crista das colinas, se apressavam para o santo e murado refúgio do convento gentes com trouxas, carros toldados, magras filas de gados.
Ao avistar tão rijo troço de Cavaleiros e peões, espalhado até à beira do riacho por entre a sombra dos freixos, Lourenço Ramires sofreou, susteve a leva, junto dum montão de pedras onde apodrecia, encravada, uma tosca cruz de pau. E o seu esculca que largara rédeas soltas, estirado sob o escudo de couro, para reconhecer a mesnada - logo voltou, sem que frecha ou pedra de funda o colhessem, gritando:
- São homens de Baião e da Hoste Real! -
Tolhida pois a passagem! E em que desigualado recontro! Mas o denodado Ramires não duvidou avançar, travar peleja. Sozinho que assomasse ao vale, com uma quebradiça lança de monte, arremeteria contra todo o arraial do Bastardo... - No entanto já o Adail de Baião se adiantara, curveteando no rosilho magro, com a espada atravessada por cima do morrião que penas de garça emplumavam. E pregoava, atroava o vale com o rouco pregão:
- Deter, deter! que não há passagem! E o nobre senhor de Baião, em recado de El-Rei e pormercê de Sua Senhoria, vos guarda vidas salvas se volverdes costas sem rumor e tardança!
Lourenço Ramires gritou:
- A ele, besteiros!
Os virotes assobiaram. Toda a curta ala dos Cavaleiros de Santa Irenéia tropeou para dentro do vale, de lanças ristadas. E o filho de Tructesindo, erguido nos estribões de ferro, debaixo do pano solto do seu pendão que apressadamente o Alferes sacara da funda, descerrou a viseira do casco para que lhe mirassem bem a face destemida, e lançou ao Bastardo injúrias de furioso orgulho:
- Chama outros tantos dos vilões que te seguem que, por sobre eles e por sobre ti, chegarei estanoite a Montemor!
E o Bastardo, no seu fouveiro, que uma rede de malha cobria, toda acairelada de ouro, atirava a mão calçada de ferro, clamava:
- Para trás, donde vieste, voltarás, burlão traidor, se eu por mercê mandar a teu pai o teu corponumas andas!
Estes feros desafios rolavam em versos serenamente compassados no Poemeto do tio Duarte. E depois de os reforçar, Gonçalo Mendes Ramires (sentindo a alma enfunada pelo heroísmo da sua raça como por um vento que sopra de funda campina) arrojou um contra o outro os dois bandos valorosos. Grande briga, grande grita...
- Ala! Ala!
- Rompe! Rompe!
- Cerra por Baião!
- Casca pelos Ramires!
Através da grossa poeirada e do alevanto zunem os garruchões, as rudes balas de barro despedidas das fundas. Almograves de Santa Irenéia, almograves da Hoste Real, em turmas ligeiras, carregam, topam, com baralhado arremesso de ascumas que se partem, de dardos que se cravam; e ambas logo refogem, refluem enquanto, no chão revolto, algum mal ferido estrebucha aos urros, e os atordoados cambaleando buscam, sob o abrigo do arvoredo, a fresquidão do riacho. Ao meio, no embate mais nobre da peleja, por cima dos corcéis que se empinam, arfando ao peso das coberturas de malha, as lisas pranchas dos montantes lampejam, retinem, embebidas nas chapas dos broquéis; e já, dos altos arções de couro vermelho, desaba algum hirto e chapeado senhor, com um baque de ferragens sobre a terra mole. Cavaleiros e infanções, porém, como num torneio, apenas terçam lanças para se derribarem, abolados os arneses, com clamores de excitada ufania; e sobre a vilanagem contrária, em quem cevam o furor da matança, se abatem os seus espadões, se despenham as suas achas, esmigalhando os cascos de ferro como bilhas de greda.
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.