Por Camilo Castelo Branco (1862)
Se acontece grassar uma febre que devora centenares de pessoas, os conselhos de saúde descuram de averiguar os sintomas do andaço, não delegam visitadores às farmácias homicidas de província, nem aviltam os melhoramentos higiénicos de que depende a salubridade pública.
Adoece, porém, o boi, e para logo surgem os Hipócrates bovinos escrevendo aforismos e as corporações medicatrizes instauram congressos de sanidade e destacam membros científicos a vencerem tanto por dia.
Não se cura tão pressurosamente de valer ao homem, porque o homem não é comestível. Pois indivíduos há que comem o boi, e são por isso mais antropófagos que se comessem o homem.
Fecha-se a digressão impertinente.
No que eu trazia há muito empenhadas as minhas vigílias era no descobrimento dum antídoto contra a melancolia.
A medicina conhece uma doença moral chamada “hipocondria”. Os sintomas desta enfermidade são as desordens digestivas, as flatulências, os espasmos, a exaltação da sensibilidade, os terrores pânicos, a impertinência dos sentimentos morais, etc. Os indivíduos mais inteligentes e mais imaginativos, quando irritados pelas paixões, ou fatigados pelo trabalho de espírito, são mais sujeitos a estes sucessos incuráveis, quando as influências morais os não curam.
Não era esta enfermidade, de origem corpórea, a que me preocupava. A malancolia, sem flatulência nem perturbações estomacais, a que tanto ataca os inteligentes como os idiotas, era esse o meu fito.
Horas e dias terríveis passam por nós como períodos negros da existência.
Cai-nos a fronte para o seio, onde o coração nos dói premido por mão de ferro. Não há lembrança feliz que possa estrelar-nos o caos da imaginação: não há raio de sol que faça abrir flor de esperança em nossa alma arada pelo desconforto.
Essa situação é comum a muitas pessoas: só não a conhecem aquelas que travam aliança ofensiva e defensiva com a estúpida alegria, contra as intermitências dolorosas do espírito.
O amador ditoso tem horas de melancolia terna: essas são as melhores da sua vida. Aí dele quando o murmúrio do regato, e a cruz do ermo, e a Lua espelhada nas águas, lhe dão humedecer os olhos de dulcíssimas lágrimas!
O amante infeliz tem sezões aflitivas que o excruciam e desesperam. Para esses dois, tão diferentes no padecer, há uma só panaceia: é o coração da mulher, essa divina botica de todos os bálsamos para todas as feridas, abertas na refrega das paixões nobres.
Mas, afora a melancolia do amor, há uma outra sem causa, sem preexistência dolorosa, sem antecedentes que possam indicar ao médico da alma os meios terapêuticos.
Sentem-na aqueles mesmos que a fortuna acaricia com todos os mimos deste mundo.
É a que mata os ricaços da Grã-Bretanha e a que tortura os ricos ociosos de todas as nações, onde há Sol e Lua, onde o céu é azul e a atmosfera diáfana.
Não é costume nosso matarmo-nos quando o aborrecimento da vida nos enjoa.
Em país algum seria maior a estatística dos suicídios do que em Portugal, se o tédio nos vencesse.
E no Porto?
Deus nos livre disso!
O vestíbulo do teatro lírico seria em cada noite um cemitério; nos bailes, a cada instante, se ouviria a denotação dum tiro; as senhoras levariam cristais de ácido prússico para se matarem ao cabo da tediosa parolice do par dançante; do Jardim de S. Lázaro, aos domingos, iria o pároco levantar algumas dezenas de cadáveres; os próprios templos onde há organistas seriam borrifados de sangue suicida.
Aqui no teatro não se morre de tédio; mas abre-se a boca e buzina-se um vagido sonolento.
No baile ninguém se mata; mas devoram-se gelados para apagar o vulcão da idéia suicida, ou abarrota-se o estômago de sanduíches para que a alma bruta predomine sobre a outra, ou tresfega-se a garrafeira do dono da casa para alucinar e entreter o espírito, como coisa exótica, do ar artificial de uma estufa.
Mas estes remédios não passam de paliativos. A reação, depois, é pior. Falecida a vida de empréstimo, o espírito fica letárgico, marasmado e até inábil para exercer as funções da presidência de uma câmara municipal.
Depois do artigo de fundo, a coisa que mais brutaliza a alma é a melancolia.
O poeta, que vos encampa as suas amarguras em redondilha maior, escreveu as trovas, com ânimo folgado, no intervalo de duas orgias.
A melancolia é sorna e estéril. Camões escreveu a sua epopeia nos dias da esperança.
Quando a tristeza desanimadora o entrou, já não pôde escrever para o fidalgo, que lha pedia, uma paráfrase dos salmos.
Uma inteligência em quietismo não danifica os interesses materiais dum país, e até certo ponto pode considerar-se providencial o pousio; mas um cidadão analfabeto, embrutecido pela melancolia, se a sua qualidade civil é importante como deve ser, pode prejudicar gravemente os interesses da cidade.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.