Por Camilo Castelo Branco (1864)
O filho de Eulália, passado o primeiro mês de luto, disse com suaves maneiras a Palmira que o seu ânimo estava passando por estranho reviramento, no tocante a prazeres falsos do mundo; que resolvia diminuir as suas relações e as suas superfluidades; que tencionava ocupar algumas horas na leitura, em que felizmente Palmira o acompanharia, revivendo a sua esquecida afeição aos livros; que aceitava como inspiração de sua santa mãe o desapegar-se de regalos vãos, deleites de mera vaidade, que perdem seu sabor ainda antes de se acabarem; finalmente concluiu Afonso:
"Vivamos como amantes que dispensam serem admirados para serem venturosos." Palmira sorriu e disse:
- Bem sei... bem sei, Afonso.
- Que sabes tu? - perguntou brandamente o moço. - Diz o que sabes, minha amiga.
- Compreendo a mola oculta do teu novo programa de vida... É o cansaço..- Já me chamas tua amiga. A mulher que ama, quando lhe dão tal nome, sabe que é coisa de pouca monta para quem lho dá. Fala-me claro; sentes o entojo de impressões novas? As cartas de tua prima é que levantaram em teu espírito essas poeiras de tardia virtude? Nada de refolhos, Afonso. A minha opinião é que nenhum de nós se constranja. As peias, impostas mesmo pelo dever, são um infortúnio muito bem conhecido. Fazes-me pena, se o experimentas. Amas tua prima, Afonso?
- Não amo minha prima - respondeu serena e pacientemente o moço. - Se amasse Mafalda, decerto não estaria ao lado de Palmira. Estimo-a como irmã; respeito-a religiosamente hoje, por saber que o último alento de minha mãe o recebeu ela nos lábios... Porém, que tens tu com minha prima? Que injustas referências são essas que continuamente lhe estás apontando? Que mal te fez a triste menina, que vive e morrerá sem outro prazer senão o da sua virtude mal remunerada neste mundo?
- Virtude!... -interrompeu Palmira franzindo os lábios no sorriso de ironia injuriosa. - Sempre a virtude de tua prima em campo para contrastar naturalmente os meus vícios M. Pouquíssima generosidade é a tua, Afonso!... Terei eu de ouvir ainda de tua boca o libelo e a condenação das minhas culpas?! Pode ser, pode ser, e eu envelhecida pela experiência de poucas semanas, não terei de que espantar-me.
- Ofendem-me as tuas injustiças-redarguiu Afonso sofreando a impaciência-Que direito te dou para tanto?
- Direito? Queres, por acaso, dizer-me que estou em tua casa?
- Essa pergunta é aviltante, Palmira!... Onde está a tua inteligência, a tua crítica e, propriamente, a tua vaidade? - redarguiu Afonso de Teive. - Desconheço-te, estás a descer sem impulso estranho...
- A descer da tua consideração?-acudiu ela ressabiada.
- Quem o duvida? A mulher de alma nunca faz semelhantes perguntas a um homem como Afonso de Teive. Queria eu dizer que não te dava direito, ou causa a ofender-me.
- Bem! - tomou ela, amaciada a voz com falso acordo. - Aceito a explicação.
Perdoemo-nos reciprocamente e sejamos... amigos, sim?
- Como tu feriste ironicamente a palavra amigos!...
- É que me não toa bem nos ouvidos do coração - replicou Palmira risonha, chegando a face aos lábios do moço, que a beijaram friamente.
- Enquanto ao teu novo traçado de vida - volveu ela -, queres que se cumpra, em rigor, como está ordenado, sim?
- Ordenado não é o termo próprio. Consulto-te, expus em breve as minhas razões; mas se te despraz...
- Apraz-me tudo que te contenta, meu Afonso. De hoje em diante reformam-se os nossos costumes. Vendem-se os trens? Traspassa-se o camarote? Vamos habitar uma casa modesta... Queres, Afonso? Também eu.
Não escapou a Afonso o tom irónico de tais perguntas. Caiu em si de repente, e viuse em começos de castigo. Apagaram-se muitas luzes do altar em que ele tinha o belo barro idolatrado. Fugiram-lhe para sobre o túmulo de sua mãe os olhos da alma e viram Mafalda de joelhos na lajem da capela com face apoiada no mármore do jazigo.
As luzes restantes do altar ficaram para lhe mostrar o odioso da mulher de Eleutério. Às perguntas retrincadas não respondeu Afonso... Ergueu-se e saiu do seu quarto.
Refugiou-se no mais recôndito do palácio, para chorar a salvo do oprobrioso sorriso de
Palmira. Depois voltou ao seu escritório e escreveu a Mafalda esta carta,
significativa de mudança temporária, se não fundamental, em seu espírito:
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Amor de Salvação. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=88534 . Acesso em: 28 jun. 2026.