Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

É olhá-lo para se chegar logo à conclusão de que quem o projetou não é arquiteto, nem mesmo engenheiro: é um marceneiro.

Os senhores conhecem essas espécies de cômodas de escritório, em cujas gavetas se guardam papéis? Pois é assim a maneira do tal edifício da Cruz. Os franceses chamam a tal móvel chiffonnier, creio eu; e o edifício da sociedade é perfeitamente semelhante a ele, mas inteiramente feio, porque, além das muitas gavetas e descomunal altura, ainda tem mais torrezinhas, uma cúpula central, uns cocurutos, absurdos e contraproducentes, que não lhe deixam totalmente ver a sua estética abracadabrante de caixão.

O Rio-Jornal nos informa também de várias coisas sobre esse monumento “gótico”. Diz ele: “O edifício planejado, uma vez construído, marcará o início de uma nova fase na vida da sociedade. Seu custo ficará aproximadamente por 20.000:000$000.”

Se o “caixão” da Cruz Vermelha já era pretensioso no seu número de andares, ainda mais se mostra ser, dado que uma coisa não supusesse a outra, no custo. Qual é o edificio público do Brasil que custa isso? Nenhum. Algumas igrejas e conventos do Rio, uma ou outra, podem ser avaliados nisso; mas que tempo levaram a ser construídos? A Candelária, por exemplo, levou mais de cem anos; e verdadeiramente não está acabada.

Ora, Cruz Vermelha!, isto é muito para tua alma! O mesmo jornal ainda nos dá outros detalhes curiosos sobre o formidável “caixão”.

Ei-los:

“Ocupando uma área de 6.000 m2, tendo de altura, do subsolo ao último andar, 125 metros, sendo a máxima 142 metros, ele comportará vinte andares, onde ficarão instalados, de acordo com todos os preceitos das construções modernas e exigências de higiene, todo o aparelhamento necessário a um hospital de primeira ordem, desde os mais delicados gabinetes, enfermarias, quartos particulares e de observação, até um grande frigorífico para receber a carne, o peixe, aves, frutas, e legumes, destinados ao consumo de um mês.”

O senhor Taumaturgo de Azevedo, que disputa ao senhor Câmara o número de “crachás” universitários; que é doutor em uma porção de coisas; o senhor Taumaturgo de Azevedo devia saber, como todos sabem, que, atualmente, é aconselhada pelos higienistas de todo o mundo a construção de hospitais em pavilhões nivelados. Os motivos são óbvios e estão ao alcance da mais mediana inteligência que tenha a mais mediana cultura. Como é então, que o senhor Taumaturgo (será por causa do nome? ) quer fazer um hospital moderno ao jeito dos antigos?

Com tanto dinheiro, ele pode construir a sede propriamente da sociedade e o hospital em lugares separados, tanto mais que ele tem o frisante exemplo do Hospital Central do Exército, maravilhoso entre as nossas coisas chatas, já pela construção, já pelo pessoal, e onde estive dois meses excelentemente, do que tenho muitas saudades. De resto, essas edificações brutas e estúpidas, como quer ser a tal para a Cruz Vermelha, não devem ser consentidas na nossa cidade.

Há quem conteste que o tipo sky-scraper nova-iorquino nasceu de condições peculiares à grande cidade do Hudson.

Não foram determinados pelo subsolo granítico de New York, nem pelo encarecimento progressivo dos terrenos da ilha de Manhattan, onde se acumula toda a intensa vida da imensa cidade; entretanto, se não foram tais factores os principais, eles devem ser levados em linha de conta.

Entre nós, porém, nenhum deles pode prevalecer e não devíamos permitir a construção de semelhantes faróis cívicos, em uma cidade semeada e bordada de colinas, morros quase serras, que ainda estão mais ou menos arborizadas e que devem estar sempre, dando-lhe a sua beleza especial, o seu cachet de grandeza, e a sua simplicidade de horizontes, os quais nós perderemos, pobres e mesquinhas formigas humanas que somos!, se tais chatezas se vierem multiplicar.

O sky-scraper define o americano. É a arrogância do parvenu184 e a estupidez do arrivista que não sabe esperar pelo tempo e outras circunstâncias mínimas para ter personalidade. Faz o grande, o desmedido; gesticula, berra, veste-se com cores vivas, arreia-se de brilhantes e pérolas, de todas as jóias, enfim, para parecer fidalgo, poderoso e original. É um estudo a fazer.

Só o tempo faz o que o tempo não destrói; e seremos muito tolos se imitarmos os americanos nas suas idiotices e pretensões com o descomunal.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4243444546...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →