Por Coelho Neto (1890)
— Há de vir.
— Deus te ouça!
João de Deus interrompeu a discussão aparecendo com a garrafa e um embrulho que tiniu quando foi pousado sobre uma janela.
— Que é isto? — perguntou Crebillon apalpando o embrulho.
— Pão e canecas de folha. As de louça quebram muito, disse o previdente negro.
— Pois havemos de tomar café em canecas de folha, como Cucravos?
— Que tem...? — disse Ruy Vaz.
— Não fazes questão?
— Não, desde que o café esteja quente. — Está fervendo, afirmou João de Deus.
— Então não faz mal. Há quatro canecas, não'?
— Sim, senhor.
— Então vá chamar os doutores.
Logo que chegaram, Toledo e Anselmo, que não contavam com aquela agradável surpresa, tiveram a sua reação e, por um momento, foi esquecida a nudez da casa. Mas no melhor do gozo a campainha retiniu estridente e João de Deus subiu a anunciar o homem das andorinhas.
— Que se há de fazer?
— Vai lá dizer que não há ninguém em casa, João. O negro hesitou, Anda!
— Eu já disse que o senhor estava aí.
— Como! Pois vai dizer que te enganaste, que quem está em casa és tu.
— Eu não posso dizer isto. O homem é capaz de querer brigar.
— Ah! Ele briga? É valente? Então manda-o cá em cima que eu o arranjo. Manda-o!
João de Deus ficou hesitante, retorcendo um lustroso boné de seda que lhe dera o Toledo enquanto Crebillon, arregaçando a manga da camisa, com uma afiada faca pernambucana, pôs-se a raspar lentamente os pêlos do braço esquerdo, mais guedelhudo do que o de um gorila.
De repente, numa resolução, pôs-se nu, fechou a carranca, rangendo os dentes e rugiu ensaiando ferocidade.
— Muito bem. Voltou-se para o negro, que pasmava boquiaberto. — João, vai buscar o esqueleto. Vamos! João de Deus escafedeu-se. Agora, ouçam vocês. Não estou disposto a aturar um tipo que nos vem, todos os dias, importunar por uma miséria de vinte mil réis. Se eu os tivesse, dava-lhos, mas toda a minha fortuna reduz-se a 4$600. Com argumentos de convicção nada conseguiremos, portanto, para evitar uma cena ridícula à porta do palacete, vou empregar os recursos supremos. É necessário que esse sujeito não torne à nossa porta...
— Que vais fazer, Crebillon?
— Vou fazer uma cena tremenda com o esqueleto do meu rival. Justamente João de Deus aparecia com a ossada nos braços e Crebillon sentou-a em uma das cadeiras diante da porta. Quando eu romper aos berros é bom que vocês aparentem desgosto e tristeza, lamentando o meu estado, mas de longe. E deixem-me com o homem. Vai, João. Manda-o cá em cima.
A campainha retiniu desesperadamente.
— E se o meco não acreditar na farsa, Crebillon?
— Dou-lhe os 4$600 por conta.
— E se ele não aceitar?
— Esgano-o! O negro ia saindo quando Crebillon o chamou: Ouve cá, João.
Hás de dizer ao homem, para preparar-lhe o ânimo, que estou na minha crise, compreendes? O patrão está hoje na sua crise nervosa. É bom que o senhor não se aproxime muito. Entendeste? Crise nervosa.
O negro repetiu, torcendo o boné lustroso:
— Crise nervosa...
— Isso! Vai com Deus.
O negro desapareceu. A campainha retinia sem descontinuar. Quando as escadas rangeram Crebillon, reconhecendo o inimigo, pôs-se a saltar no quarto, nu, ululando e brandindo a faca que reluzia. João de Deus não se atreveu a aproximarse, mostrou ao homem o quarto e ficou à distância respeitável esperando o desenlace da cena. Crebillon rugia sempre e o homem olhava, esgazeado, as imensas salas desertas que apenas o sol ornava e o vozeirão tremendo do abolicionista enchia atroadoramente.
— Ah! Miserável! Grandíssimo biltre! Pensas que estou saciado? Ainda não! A morte não basta! Vou agora esconder os teus ossos... Quero ver no Juízo Final a cara da tua carne quando os anjos do Senhor tocarem a reunir... Hás de procurar os ossos debalde. Vou escondê-los no forro da casa... Lá em cima!
O homem, ouvindo palavras tais, andava com os olhos de um lado para outro como se procurasse alguém, quando Ruy Vaz apareceu demudado, preocupado, metendo os dedos pelos cabelos e, dando com o carroceiro, perguntoulhe se queria alguma coisa.
— Sim senhor: vim receber a conta da mudança. — Ah! Sim... Mas em que dia veio o senhor!
Crebillon urrava, sapateava, atirava botinas ao chão e falava insanamente em Juízo Final, em Clube dos Fenianos, em angu de preta mina, em Angélica da Costa...
— Ah! Meu amigo, está ouvindo?
— Sim, senhor. O preto disse-me que o patrão está algum tanto incomodado.
— Incomodado? Está perdido, irremediavelmente perdido. Já mandamos uma comunicação ao Hospício para que o venham buscar. Está impossível. Voltoulhe a crise.
— Ah...
(continua...)
POMPÉIA, Raul. A conquista. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=16594 . Acesso em: 6 abr. 2026.