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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Enquanto Inimá no fundo das brenhas com o coração a transbordar de ódio só meditava a ruína de seu rival, este nas tabas era o primeiro que se lembrava de Inimá e seus companheiros, e propunha que se expedissem imediatamente alguns guerreiros a saber notícias suas, e que se lhe enviassem prontos socorros, pois que sua demora já era para inspirar sérios receios.

— Tens razão, diz Oriçanga, mas o que queres? os teus triunfos por tal sorte nos têm absorvido a atenção, que íamos deixando em esquecimento Inimá e os seus guerreiros; entretanto já é tempo de pensarmos nisso, e cumpre quanto antes saber o que é feito deles.

Na aurora seguinte, ao primeiro albor do dia, cem guerreiros escolhidos deviam partir a marchas aceleradas em demanda de Inimá a reforçar a sua falange. Mas ao cair da noite chegou ao arraial dos Chavantes e foi levado à presença de Oriçanga um dos guerreiros daquela expedição, portador das mais infaustas notícias; narrou por miúdo os brilhantes sucessos com que fora aberta aquela campanha, e o desastroso desfecho que teve; todos os guerreiros da expedição de Inimá, dizia ele, tinham sido mortos nos combates, ou feitos prisioneiros, ou se tinham transviado e perdido pelos desertos, e não sabia que tivesse escapado mais alguém que não fosse ele, a quem o destino poupara para encarregá-lo da triste missão de trazer aquela desastrosa notícia.

— Opróbrio inaudito! exclamou o velho cacique cheio de dolorosa indignação; vergonha única na vida desta valente e invicta nação! Mas em breve saberão estes cobardes, que se venceram Inimá e seus guerreiros, ainda não venceram a nação dos Chavantes. Itajiba, continua voltando-se para este, como estás ouvindo, o céu acaba de quebrar o último tropeço que existia para o complemento de tua felicidade; mas ah! desgraçadamente esse fatal acontecimento, que vem aplainar-te os caminhos do futuro, é um desastre e um opróbrio para nós todos!

Bem o lastimo, venerável cacique, responde-lhe Itajiba, e não serei eu que me regozije com os reveses da nação que escolhi, e a que jurei fidelidade; o mau sucesso da empresa de Inimá, como para provar ainda uma vez que não há no mundo prazeres perfeitos, vem amargurar a taça de minha felicidade. Mas, Oriçanga, eu aqui estou vivo ainda e pronto a sacrificar-me para lavar essa afronta da nação, e não me julgarei digno da posse da formosa Guaraciaba enquanto não tiver vingado o desastre de Inimá, e infligido a esses bárbaros vizinhos o castigo que merecem.

— Não, replica-lhe Oriçanga, não posso por esta vez condescender com os generosos impulsos de teu nobre coração. Antes de partires, três sóis serão consagrados às festas de tua união com a formosa Guaraciaba; já tens feito de sobejo para merecê-la; e nem mais precioso galardão podia eu ofertar-te em prêmio de teus gloriosos serviços e façanhas de guerra; e com ela força é que eu te abandone também desde já o peso do governo e comando da nação, excessivo para meus ombros enfraquecidos pela idade. Terás ainda oito sóis para descansares das tuas gloriosas fadigas à sombra da taba nos braços da tua gentil Guaraciaba. Passados eles escolherás os melhores de nossos guerreiros no número que julgares suficiente, e partirás a vingar a afronta dos nossos. O sangue de tantos e tão esforçados guerreiros, que Inimá imprudentemente sacrificou, pede pronta e cabal vingança.

— Eu saberei tomá-la, respondeu Itajiba.

(continua...)

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