Por Machado de Assis (1878)
— Entre, Sr. doutor, que já se fazia esperado. Jorge não pôde esconder o assombro que lhe produzira aquela recepção; nem o assombro nem a alegria. Entrou e estendeu-lhe a mão.
— Não posso, tornou a moça mostrando a sua, fechada; só se adivinhar o que está aqui dentro.
— Não é uma estrela.
— Não, senhor; é um cavalo.
No fundo do jardim estava Luís Garcia, com o tabuleiro do xadrez: acabava de dar uma lição à filha, que lha pedira desde antes do jantar. Iaiá levou até lá o filho de Valéria. Pela primeira vez sentou-se ao pé dos dous para vê- los jogar; fincou os cotovelos na mesa e encostou o queixo nas mãos; queria aprender, dizia ela, em três semanas.
— Três semanas! repetiu o pai a sorrir e a olhar para Jorge.
Das qualidades necessárias ao xadrez, Iaiá possuía as duas essenciais: olho de guia e paciência beneditina; qualidades preciosas na vida, que também é um xadrez, com seus problemas e partidas, uma ganhas, outras perdidas, outras nulas.
Capítulo 12
Quinze dias depois, Procópio Dias apareceu em casa de Jorge com o luto no vestuário e no rosto. De Buenos Aires chegara-lhe na véspera, à tarde, a notícia da morte de um irmão, seu último parente, notícia que o obrigava a embarcar no dia seguinte e demorar-se no Rio da Prata cinco a seis semanas. Não se pode dizer que ele estivesse triste; estava sério; e a seriedade dá ao homem que ri habitualmente uma aparência de melancolia. Estava sério e preocupado. A viagem a Buenos Aires não tinha por fim o cadáver do irmão, mas a herança, que posto não fosse grande, valia alguma cousa.
Procópio Dias ofereceu seus serviços ao filho de Valéria, que de sua parte prometeu-lhe algumas cartas de apresentação, se precisasse. Procópio Dias aceitou uma. Jorge levou-lha no dia seguinte. Ele recebeu-a com demonstração de agradecido e quase terno. E depois de um momento de silêncio:
— Já agora entrego-lhe pessoalmente esta carta, que devia ser levada amanhã por um portador. Jorge quis abrir:
— Não, acudiu o outro; prometa-me que só a abrirá amanhã.
— Por que não hoje de noite?
— Podia ser hoje de noite; mas é bom que entre a impressão da despedida e a leitura desse papel decorra o espaço da noite e o sono. Talvez seu juízo seja diferente.
Jorge prometeu. Procópio Dias partiu. No dia seguinte abriu a carta e leu estas poucas palavras: “Seja o meu anjo da guarda durante a minha ausência.”
— Por que não? disse ele consigo.
De tarde, saiu a cavalo, costeando o aqueduto, segundo costumava, e ia pensando seriamente na conveniência de casar os dous. Naquelas duas semanas tivera tempo de apreciar um pouco as qualidades da moça, que lhe pareceram boas, conquanto lhe achasse também alguma cousa original, misteriosa ou romanesca, muito acima da compreensão ou do sentimento de Procópio Dias. Jorge não se iludia acerca da paixão do pretendente; supunha-a sincera, mas não lhe atribuía a virgindade das primeiras ou das segundas comoções: era uma paixão da última hora, um ocaso ardente e abraseado entre o dia que lá ia, e a noite que não tardava a sombrear tudo. Ainda assim a aliança lhe parecia conveniente. Iaiá possuía decerto a força necessária para dominar desde logo o marido; e o titão encadeado teria ao pé de si, em vez de um abutre a picar-lhe o fígado, uma formosa rola destinada a prolongar-lhe as ilusões da juventude.
Se eram boas as impressões que Iaiá lhe deixara nos últimos dias, não eram ainda assim isentas de algum enfado, aliás passageiro. Uma ou duas vezes, Iaiá lhe pareceu singularmente áspera, e sem motivo nem duração. Esses assomos porém, eram logo compensados por uma afabilidade, que parecia mais viva, mais ruidosa, talvez um pouco importuna. Ocasião houve em que Estela disse à enteada, com um sorriso de repreensão: — Não amofines o Sr. doutor Jorge. Não compreendeu Jorge por que motivo essa palavra simples, dita em tom brando, deu ao rosto de Iaiá uma expressão indignada; lembrava-se porém que a expressão foi passageira, e que ela passou do singular amuo à habitual alegria:
— Bem vê, replicou Estela, bem vê que é uma criança.
Jorge ia assim a refletir, e já de volta, quando ouviu uma voz que dizia o seu nome. Era Iaiá que descia da casa da velha ama. Jorge parou o cavalo.
— Em que vai pensando? disse ela.
— Na senhora, respondeu o moço afoitamente, depois de verificar que ninguém os podia ouvir. Iaiá caminhou até à rua, acompanhada de um homem velho, o irmão de Maria das Dores.
— Que anda fazendo aqui? continuou Jorge inclinando o busto sobre o pescoço do cavalo.
— Vim visitar a Maria das Dores. Coitada! Está tão abatida!
— Bem; eu logo lhe direi o que é; vá ver a doente.
— Já a vi; volto agora para casa. O Sr. João vai acompanhar-me. Jorge apeou-se.
— Deixa-me acompanhá-la também? perguntou.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Iaiá Garcia. Rio de Janeiro: B. L. Garnier, 1878.