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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Freitas Reis ganhou boa fortuna com a sua empresa, e deixou seu nome de brasileiro lembrado honrosamente entre os empreendedores a quem a grandiosa Paris deve considerável benefício. Infelizmente esse nosso compatriota, amigo e entusiasta do seu e nosso Brasil, acabou seus dias, ainda no vigor da idade, lá na capital da França, acometido de invencível moléstia pulmonar.

Se estas lembranças também são amoladoras, declaro que não sei o que sejam recordações que se devam guardar.

Em continuação de viagem o autor e os leitores destas Memórias entram pela Rua do Ouvidor acima no vasto mar imenso que se estende das quinas da Rua da Quitanda até à dos Ourives.

Mas de olhos voltados para trás ou com os olhos ainda fitos no ponto donde partimos a seguir viagem tomamos a liberdade de perguntar à ilustríssima Câmara, desde algum tempo maníaca crismadora de ruas, por que conserva essa denominação de Rua da Quitanda?...

Que espécie ou que diabo de quitanda há nessa rua tão destampatória, e desgraçadamente nomeada, que ainda no último século teve o seu primeiro quarteirão conhecido e, geralmente, chamado por nome obsceno, e só perdoável em heróicas desenvolturas da furiosa língua de Cambrone?...

Hoje, ao menos no nosso tempo, quitanda traz a idéia de comércio de verduras, comércio explorado principalmente pelas negras minas, que não se encontram na rua assim denominada.

Requeiro à ilustríssima que mude aquele nome para outro que a gente saiba o que significa.

Se quiser nome republicano eu lhe ofereço ou lembro um de dois:

Rua de João Mendes Viana, que foi Grão-Mestre da Maçonaria, republicano ostentoso e deputado, que aí teve casa de sua propriedade perto da quina da Rua Sete de Setembro.

Ou Rua de Cipriano Barata, deputado brasileiro na constituinte portuguesa, republicano, preso em 1824, e que saindo em 1829 da Presiganga, foi morar por meses nessa casa do João Mendes, seu amigo.

Se proferir nome de monarquista constitucional, dou-lhe o mais simbólico.

Rua de Evaristo, ou por já haver uma com essa denominação - Rua da Aurora Fluminense; porque Evaristo redigiu durante anos a sua Aurora, criou o partido monarquista constitucional puro, floresceu, glorificou-se enfim, morando e tendo a sua loja de livros nessa rua, quina da antiga dos Pescadores.

Eu iria ainda muito além, se não me lembrasse que não é pela Rua da Quitanda que devo viajar.

Eia: pois, a caminho!

Mas... uma dúzia de passos, e já é de obrigação parar.

Ao lado direito mostra-se a aliás já marcada casa tradicional, que o Dr. Berquó, o ouvidor; ocupou. Não convém repetir informações que deixei escritas no capítulo competente; quero porém expor uma observação que me ocorre.

Acredito que a mudança do nome de Padre Homem da Costa para Ouvidor não influiu nos destinos da rua, mas é lícito imaginar que ela tomou em 1780 com orgulho profano o nome e a toga do magistrado.

Ora, em uma das sessões preparatórias da Câmara temporária, que em 1842 foi dissolvida previamente ou antes de constituir-se, Felipe Alberto Patroni Maciel Parente (um dos deputados eleitos pela província do Grão-Pará) em originalíssimo discurso declarou que não se prestara a seguir a magistratura porque em sua significação radical - magistrado quer dizer diabo.

Se o Dr. Patroni (que seja dito aqui entre nós era meio doido) tinha razão, deve-se concluir que a rua por onde viajamos, trocando a batina pela toga, o nome do sacerdote da igreja pelo do magistrado, desviou-se do caminho do céu, e abraçou-se com o diabo.

Não penso que desde 1780 a rua que então se chamou do Ouvidor (magistrado) se tornasse diabólica; mas com certeza dezenas de anos depois começou a ostentar, e cada dia vai ostentando mais, artes e laços que parecem mesmo tentações do não sei que diga.

Basta de casa do Ouvidor Berquó.

Olhem: ali defronte estamos vendo com os seus anexos a casa do Jornal do Commercio; nesta, porém, eu não toco, nem para lembrar ao menos Seignot Plancher; o primitivo e rude fundador do Jornal na Rua dos Ourives, publicado em meia folha de papel e em dias irregulares. Há nessa casa tradições, histórias políticas, casos curiosíssimos, que em mínima parte conheço bem, e que eu poderia contar sem inconveniente; mas em primeiro lugar aquilo lá dentro é maçonaria, na qual ninguém entra sem juramento de segredo, e, em segundo, não quero que se diga, nem se pense que artificio ornamentações e teço elogios de encomenda ao Jornal que publica estas Memórias.

O que asseguro é que o Jornal do Commercio é mais rico de segredos políticos do que o conselho de Estado, e do que todas as sete secretarias ministeriais, e que se quisesse falar e escrever dizendo o que sabe, falaria mais do que o finado Montezuma (Visconde de Jequitinhonha) falava, quando era vivo, e escreveria mais do que o Sr. Dr. Melo Moraes escreve enquanto não morre.

Como o Jornal do Commercio tem para mim por duas razões inscrita em sua porta o - on ne passe pas - da sentinela de Napoleão, passo adiante.

(continua...)

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