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#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

E o velho papa fica, intratável, indomável, perturbando o mundo mesmo do seu leito de morte, vendo os seus inimigos morrerem um a um, e tendo a consolação de ver alguns virem, na hora final, pedir-lhe humildemente a sua bênção. Por isso os católicos aqui estão radiosos. Mas que importa? Os homens passam, são a parte decorativa das ideias; e se é Vítor Manuel que morre e o papa que sobrevive, é todavia o ultramontanismo que expira e a democracia que fica.

XII

Londres, 26 de Janeiro [de 1878]

Esta semana tem sido certamente fecunda em episódios históricos e que pela sua natureza fornecem belas antíteses retóricas: pompas funerárias em Itália, pompas nupciais em Espanha; o papa, que materialmente agoniza, o sultão, que agoniza politicamente; intrigas eclesiásticas e intrigas diplomáticas; isto com algumas guerrazinhas secundárias, aqui e além, na África e na América, alimenta com superfluidade a curiosidade europeia. Mas, ainda assim, é em Londres que se tem concentrado o interesse dramático do momento; temos vivido aqui numa excitação, um excitement capaz de arruinar a constituição mais robusta. Sobretudo nestes últimos três dias cada hora nos traz uma grande sensação; e cada notícia é um choque eléctrico. Ora é o Governo que vai pedir para armamentos sessenta milhões de libras! Ora é a frota inglesa que é mandada a Constantinopla! Ora são trinta mil homens expedidos para Galípoli! Depois é Lord Derby que pediu o demissão, por ser oposto à guerra! Em seguida, é a

Inglaterra que, prevendo a partilha do Império Turco, fez desembarcar cem mil homens no Egipto!... Toda a sorte de boatos fantasistas, de que aproveitam os jogadores de fundos e as administrações dos jornais. E tudo isto dá lugar a uma questão feroz, desde que um inglês encontra outro inglês; porque o país, dominado por impressões, e portanto indiferente aos raciocínios, está dividido em dois partidos: os que querem a guerra a todo o preço e os que a todo o preço querem a paz.

Uns parecem querer tomar como casus belli o simples facto de que o embaixador russo passeie nas ruas de Londres; os outros parecem quase dispostos a não se mexer nem mesmo que um exército invasor desembarcasse em Dover! O Governo, esse, pretende tomar um caminho médio: desejar a paz em princípio e esforçar-se por a conservar; mas fazer a guerra, se a Rússia, pelas suas exigências, ferir alguns dos grandes interesses britânicos. Isto parece, com efeito, o racional: é uma neutralidade condicional, que vela, armada.

Eu, por mim, desejaria bem que a Rússia ferisse, mas ferisse mortalmente, algum interesse inglês, para que a Inglaterra fosse obrigada a atirar um golpe ao Urso Branco. Um dos meus grandes ódios políticos é a Rússia, não o povo russo, que tem qualidades magníficas, mas o Governo russo, que não só exerce o despotismo em sua casa mas que o defende, o auxilia e o promove nas casas alheias. O czar Nicolau, como seu pai Alexandre, foi, enquanto vivo, o grande paladino do absolutismo na Europa; em toda a parte em que um movimento de liberdade se manifestava, ele corria a ajudar a sufocá-lo; todo o trono despótico e tirânico que uma revolução abalava, tinha-o ao seu lado como defensor oficial do despotismo.

O actual czar, apesar dos sentimentos humanitários que se lhe atribuem e de que as suas alocuções transbordam até à pieguice, herdou esta missão desgraçada; não teve ainda ocasião de tirar a espada em favor de uma tirania sacudida; mas tem apoiado com a sua influência, com os seus conselhos, com o seu dinheiro, todas as tentativas mais ou menos aventureiras que se têm feito contra o livre espírito da época: foi ele que mais embaraçou e contrariou o movimento liberal de 68 em Espanha, foi ele que deu o mais alto aplauso ao ministério Broglie, de ominosa memória; foi dele que D. Carlos, na sua criminosa guerra civil, recebeu as palavras mais animadoras; o seu desejo de colocar o conde de Chambord em França, D. Miguel em Portugal, restabelecer os Bourbons em Nápoles e restituir os ducados de Itália aos príncipes fanáticos e tiranetes. Isto, reunido à maneira como a Rússia é governada, tomam-no pouco simpático a todo o espírito liberal. É claro que não falo aqui do czar-homem, esse, dizem, é bondoso, compassivo, afável, sensível, um perfeito gentleman; falo do czarideia, da missão que ele encarna e da política que representa.

Seria portanto com ganidos de júbilo que os liberais veriam a Inglaterra dar-lhe um golpe valente; não como no tempo da Crimeira: então os aliados, atacando e tomando Sebastopol, não fizeram mais do que fazer cócegas no calcanhar do colosso e limar uma unha do imenso urso; não, o que se deseja é que o golpe seja ao coração, bem ao meio do coração.

(continua...)

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