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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

« Snr. Arthur !

«O digno proprietario e logista de pannos, o « Ill.mo Snr. Carneiro, veio a este estabelecimento

sem respeito pela pharmaeia que goza d'an-

tigos creditos, arrojou ás faces do digno Snr. Car« neiro e d'outros membros respeitaveis da sociedade Oliveirense. E não contente com isto, o Snr. ga ba•se, no alludido soneto, de usar dos productos d'este respeitavel estabelecimento para fins repre« hensiveis e criminosos. Ora pois ! Espero que tal facto se não repita para honra d'esta casa. em consideração aos seus estudos e ao seu comporta mento virtuoso até hoje, bem como ás suas respei« taveis tias a quem não desejo dar este golpe, que consinto, por esta vez, em cerrar olhos ao mons truoso delicto. Mas aqui o aviso solemnemente, « de que qualquer outra peça lyrica, espalhada em desabono do nobre proprietario Carneiro, ou d'ou• tro qualquer cavalheiro Oliveirense, me obrigará a tomar a severa medida de livrar esta honrada a pharmacia d'um inimigo do socego publico. Que a minha vontade seja respeitada, é o que exige

0 chefe do estabelecimento

Pharmaceutieo de I.a classe

Vasco da Conceição Pedroso. »

Arthur, pallido, adeantou-se para elle com a carta aberta — mas o Vasco ergueu-se impetuosamente e n'uma voz sibilante, agitando os braços :

— O que está escripto, está escripto ! O que esprevi, escrevi !

Tanta imbecilidade indignou Arthur :

— Então, quero as minhas contas !

— Que contas, senhor, que contas Contas me deve o senhor a mim, que lhe dei uma libra adeantada do mez, e estamos a sete ! O senhor foi uma vibora que eu aqueci no meu seio . . . Um homem a quem eu queria como a um filho . . . Longe da minha vista, ingrato ! Longe d'esta botica de bem, serpente !

Arthur abalou furioso para casa ; muito pallido contou, d'um folego, a scena com o Vasco D. As tias ficaram aterradas. Julgavam-se desacreditadas em Oliveira. Ricardina já imaginava que por vingança, o Carneiro, a auctoridade, lhes augmentaliam as decimas !

— Ai que desgraça ! Ai que desgraça ! — exclamava pela sala, com as mãos na cabeça:

Então, vendo-as chorar tão afflictas, o Albuquerquezinho, que desde a vespera estava agitado, começou a baloiçar-se sobre as pernas, de punhos fechados, o olho vago, murmurando :

Olá Olá !

E de repente, largou pelo corredor, galgou os degraus, gritando :

— Ferra o traquete da gavea ! Abordagem ! Abordagem ! Fogo ! Poum ! Tararará ! Hei-de vingal-as ! Orça a barlavento !

Arthur, aturdido, gahiu, e topou na escada com o Vasco, que galgava os degraus, resfolgando furiosamente. Vinha dar ás senhoras uma explicação de cavalheiro ! Leu-lhes o soneto. Citou-lhes as palavras commovidas do Carneiro : « tenho eincoenta e cinco annos honrados, e é a primeira vez que sou insultado publicamente ! » Declarou Arthur um perverso : — E quando eu, na minha bondade, ia perdoar, ia esquecer . . . rompe contra mim, como uma fera Ricardina soluçava.

—- Quer-me matar de desgostos ! Quer-me matar de vergonha ! Pois que se vá, que se vá, que nos deixe no nosso socego ! • , •

— Não foi de mim, minha senhora —- dizia o Vasco, commovido — não foi de mim que veio o golpe. Foi d'elle, foi do ingrato . . . Mas agora é per omnia secula secutorum . . . Que eu tambem tenho o meu brio ! Sou Vasco da Conceição Pedroso ! . -— Olhou para uma e para outra, e repetiu com magestade : — Eu tambem tenho o meu brio.

E sahiu, muito digno.

O jantar foi lugubre. Até ao cozido, Ricardina não tirou de cima do prato o carão reprehensivo. Sabina, muito pallida na sua touca negra, parecia mais pequenina, encolhida na cadeira, limpando a furto os olhos vermelhos.

E o Albuquerquezinho, socegado agora, de guardanapo ao pescoço, devorava : de vez em quando, Ipousava o talher, piscava a olho para Arthur :

— Boa batalha ! Metti-lhe dons balazios no costado ! . . . Mau pirata ! Mau pirata ! . .

Mas Sabina, muito triste, tinha recusado o arroz. E Ricardina muito secca :

— Ai, não come, mana Sabina ? Não vale a pena ninguem affligir-se por quem não o merece . . .

Arthur, furioso, deu um repellão ao prato, levantou-se, foi fechar-se no quarto. Mas logo um som de dedos bateu na porta timidamente. Era a tia Sabina : vinha fazer-lhe companhia, vinha conso lal-o . . . A tia Ricardina tinha aquelle genio, mas passava-lhe : era tudo pena de lhe vêr perder o em prego . . . Que ellas não eram ricas ! Mal sabia elle o que lhes custava a viver ! , Ai ! devia ir pedil desculpa ao Vasco !



(continua...)

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