Por Eça de Queirós (1875)
- O1á, padre-mestre! Que há de novo?
- Parece-me que se arranja a coisa! E foi por acaso, esta manhã... Há uma casita lá para os meus lados, que é um achado. Era do major Nunes, que vai mudado para o 5.
Aquela precipitação desagradou a Amaro: perguntou, dando desconsoladamente o fio à navalha:
- Tem mobília?
- Tem mobília, tem louças, tem roupas, tem tudo.
- Então...
- Então é entrar e começar a gozar. E aqui para nós, Amaro, você tem razão. Estive a pensar no caso... É melhor para você viver só. De modo que vista-se, e vamos ver a casita.
Amaro, calado, rapava a cara com desespero.
A casa era na Rua das Sousas, de um andar, muito velha, com a madeira carunchosa: a mobília, como disse o cônego, "podia passar a veteranos"; algumas litografias desbotadas pendiam lugubremente de grandes pregos negros; e o imundo major Nunes deixara os vidros quebrados, os soalhos todos escarrados, as paredes riscadas de fósforos, e até sobre um poial da janela duas peúgas quase negras.
Amaro aceitou a casa. E nessa mesma manhã o cônego ajustou-lhe uma criada, a Sra. Maria Vicência, pessoa muito devota, alta e magra como um pinheiro, antiga cozinheira do doutor Godinho. E (como considerou o cônego Dias) era a própria irmã da famosa Dionísia!
A Dionísia fora outrora a Dama das Camélias , a Ninon de Lenclos, a Manon de Leiria: gozara a honra de ser concubina de dois governadores civis e do terrível morgado da Sertejeira; e as paixões frenéticas que inspirara tinham sido para quase todas as mães de família de Leiria causa de lágrimas e de fanicos. Agora engomava para fora, encarregava-se de empenhar objetos, entendia muito de partos, protegia "o rico adulteriozinho" segundo a singular expressão do velho D. Luís da Barrosa, cognominado o infame, fornecia lavradeirinhas aos senhores empregados públicos, sabia toda a história amorosa do distrito. E via-se sempre na rua a Dionísia com o seu xale de xadrez traçado, o pesado seio tremendo dentro dum chambre sujo, o passinho discreto e os antigos sorrisos - mas a que faltavam já os dois dentes de diante.
O cônego logo nessa tarde deu parte à S. Joaneira da resolução de Amaro. Foi um grande espanto para a excelente senhora! Queixou-se, com amargura, da ingratidão do senhor pároco.
O cônego tossiu grosso e disse:
- Escute, senhora. Fui eu que arranjei a coisa. E eu lhe digo por quê: é que este arranjo do quarto em cima, etc., está-me a arrasar a saúde.
Deu outras razões de prudência higiênica, e acrescentou passando-lhe com bondade os dedos pelo pescoço:
- E o que é perder a conveniência, não se aflija a senhora! Eu darei para a panela como dantes; e como a colheita foi boa porei mais meia moeda para os arrebiques da pequena. Ora venha de lá uma beijoca, Augustinha, sua brejeira! E ouça, como-lhe cá as sopas.
Amaro no entanto embaixo ia emalando a sua roupa. Mas a cada momento parava, dava um ai triste, ficava a olhar em redor o quarto, a cama fofa, a mesa com a sua toalha branca, a larga cadeira forrada de chita onde ele lia o Breviário, ouvindo, por cima, cantarolar Amélia.
- Nunca mais! pensava. Nunca mais!
Adeus as boas manhãs passadas ao pé dela, vendo-a costurar! Adeus as alegres sobremesas, que se prolongavam à luz do candeeiro! Adeus os chás, ao pé da braseira, quando o vento uivava fora e cantavam as frias goteiras! Tudo tinha acabado!
A S. Joaneira e o cônego apareceram então à porta do quarto. O cônego resplandecia; e a S. Joaneira disse, muito magoada:
- Já sei, já sei, seu ingrato!
- É verdade, minha senhora, fez Amaro encolhendo os ombros tristemente. Mas há razões... Eu
sinto...
- Olhe, senhor pároco, disse a S. Joaneira, não se ofenda com o que lhe vou dizer, mas eu já lhe queria como filho... e levou o lenço aos olhos.
- Tolices, exclamou o cônego. Pois então ele não pode vir aqui em amizade, passar as noites para o cavaco, tomar o seu café?... O homem não vai para o Brasil, senhora!
- Pois sim, pois sim, dizia a pobre senhora desconsolada, mas sempre era tê-lo de portas adentro!
Enfim, ela bem sabia que a gente na sua casa está muito melhor... Fez-lhe então grandes recomendações sobre a lavadeira, que mandasse buscar o que quisesse, louças, lençóis...
- E veja lá, não lhe esqueça alguma coisa, senhor pároco!
- Muito obrigado, minha senhora, muito obrigado.
E continuando a arrumar a sua roupa, o pároco desesperava-se agora contra a resolução que tomara. A pequena evidentemente não tinha aberto bico! Para que sairia então daquela casa tão barata, tão confortável, tão amiga? E odiava o cônego pelo seu zelo tão precipitado.
O jantar foi triste. Amélia, decerto para explicar a sua palidez, queixava-se de dores na cabeça. Ao café o cônego quis a sua "dose de música"; e Amélia, ou maquinalmente ou com intenção, disse a canção querida:
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. O Crime do Padre Amaro. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1791 . Acesso em: 29 jun. 2026.