Por Eça de Queirós (1900)
Gonçalo Mendes Ramires meteu a galope pelo copado caminho de álamos que acompanha o riacho das Donas. Em Canta-Pedra nem se demorou a estudar (como tencionava para proveito da sua Novela) o vale, a ribeira espraiada, as ruínas do Mosteiro de Recadães sobre a colina, e no cabeço fronteiro o moinho que assenta sobre as denegridas pedras da antiga e tão falada Honra de Avelãs. De resto o céu, cinzento e abafado desde manhã, entenebrecia para os lados de Craquede e de Vila-Clara. Um bafo morno remexeu a folhagem sedenta. E já gotas pesadas se esmagavam na poeira - quando ele, sempre galopando, entrou na estrada dos Bravais.
Na Torre encontrou uma carta do Castanheiro. O patriota ansiava por saber "se essa Torre de D. Ramires se erguia enfim para honra das letras, como a outra, a genuína, se erguera outrora, em séculos mais ditosos, para orgulho das armas". E acrescentava num Post Scriptum "Planeio imensos cartazes, pregados a cada esquina de cada cidade de Portugal, anunciando em letras de côvado a aparição salvadora dos Anais! E, como tenciono prometer neles aos povos a sua preciosa Novelazinha, desejo que o amigo Gonçalo me informe se ela tem, à moda de 1830, um saboroso subtítulo, como Episódios do século XII, ou Crônica do Reinado de Afonso II, ou Cenas da Meia-Idade Portuguesa... Eu voto pelo subtítulo. Como o subsolo num edifício, o subtítulo num livro alteia e dá solidez. À obra, pois, meu Ramires, com essa sua imaginação feracíssima!..."
Esta invenção de imensos cartazes, com o seu nome e o título da sua Novela em letras de cores estridentes, enchendo cada esquina de Portugal, deleitou o Fidalgo. E logo nessa noite, ao rumor da chuva densa que estalava na folhagem dos limoeiros, retomou o seu manuscrito, parado nas primeiras linhas, amplas e sonoras, do Capítulo II...
Através delas, e na frescura da madrugada, Lourenço Mendes Ramires, com o troço de Cavaleiros e peonagem da sua mercê, corria sobre Montemor em socorro das senhoras Infantas. Mas, ao penetrar no vale de Canta-Pedra, eis que o esforçado filho de Tructesindo avista a mesnada do Bastardo de Baião, esperando desde alva (como anunciara Mendo Pais) para tolher a passagem. E então, nesta sombria Novela de sangue e homizios, brotava inesperadamente, como uma rosa na fenda dum bastião, um lance de amor, que o tio Duarte cantara no Bardo com dolente elegância.
Lopo de Balão, cuja beleza loura de Fidalgo godo era tão celebrada por toda a terra de EntreMinho e Douro que lhe chamavam o Claro-Sol, amara arrebatadamente D. Violante, a filha mais nova de Tructesindo Ramires. Em dia de S. João, no solar de Lanhoso, onde se celebravam lides de touros e jogos de tavolagem, conhecera ele a donzela esplêndida, que o tio Duarte no seu Poemeto louvava com deslumbrado encanto:
Que líquido fulgor dos negros olhos!
Que fartas tranças de lustroso ébano!
E ela, certamente, rendera também O coração àquele moço resplandecente e cor de ouro, que, nessa tarde de festa, arremessando o rojão contra os touros, ganhara duas faixas bordadas pela nobre dona de Lanhoso - e à noite, no sarau, se requebrara com tão repicado garbo na dança dos Marchatins... Mas Lopo era bastardo, dessa raça de Baião, inimiga dos Ramires por velhíssimas brigas de terras e precedências desde o Conde D. Henrique - ainda assanhadas depois, durante as contendas de D. Tareja e de Afonso Henriques, quando na cúria dos Barões, em Guimarães, Mendo de Baião, bandeado com o Conde de Trava, e Ramires o Cortador colaço do moço Infante, se arrojaram às faces os guantes ferrados. E, fiel ao ódio secular, Tructesindo Ramires recusara com áspera arrogância a mão de Violante ao mais velho dos de Baião, um dos valentes de Silves, que pelo Natal, na Alcáçova de Sta Irenéia, lha pedira para Lopo, seu sobrinho, o Claro-Sol, oferecendo avenças quase submissas de aliança e doce paz. Este ultraje revoltara o solar de Baião - que se honrava em Lopo, apesar de bastardo, pelo lustre da sua bravura e graça galante. E então Lopo, ferido doridamente no seu coração, mais furiosamente no seu orgulho, para fartar o esfaimado desejo, para infamar o claro nome dos Ramires - tentou raptar D. Violante. Era na primavera, com todas as veigas do Mondego já verdes. A donosa senhora, entre alguns escudeiros da Honra e parentes, jornadeava de Treixedo ao mosteiro de Lorvão, onde sua tia D. Branca era abadessa... Languidamente, no Bardo, descantara o tio Duarte o romântico lance:
Junto à fonte mourisca, entre os olmeiros, A cavalgadura pára...
(continua...)
QUEIRÓS, Eça de. A ilustre casa de Ramires. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=7529 . Acesso em: 28 jun. 2026.