Por Camilo Castelo Branco (1862)
O espírito subiu da glândula pineal para o frisado; o entendimento desceu a reluzir no polimento das botas; o coração entumecido enfumou os bofes da camisa; as aspirações grandiosas acolchetaram-se à abotoadura dos diamantes; os apertos de alma atribulada passaram para o atesamento da luva.
A alma, conquanto seja um ser imponderável, veste tafetás e lemistes, calça verniz, enluva-se de pelica, bamboa-se em coxins; e, se exercita algumas operações intelectuais e filosóficas, é quando se mete no estômago, como Diógenes na cuba.
Do mundo elegante são excluídas as pessoas de todos os sexos possíveis as quais não provarem que dependem como se tivessem para mais de doze mil cruzados de renda.
Se os têm ou não, essa averiguação incumbe aos lançadores da décima, impostos anexos e quinto para a amortização das notas.
Cá, o essencial e condicional é parecer que os tem; porquanto: A benigna lei económica da circulação monetária aceita como factos do dinheiro;
Porque a modista, o alfaiate, sapateiro, luveiro, boleeiro, camaroteiro, e os demais satélites do orbe elegante, são entes de índole tão sincera, que nem por pensamento suspeitam da má natureza dos mananciais donde a moeda deriva pelos meandros da sociedade escolhida.
Como quer que seja, a sociedade honesta não fica desairada encansando-se no mundo elegante. A pataratice de alguns raios postiços da boa roda não tem que ver com o eixo - a parte sã e legitimamente escolhida da alta sociedade.
O mundo elegante, na segunda cidade de Portugal, denota civilização muito adiantada.
Aqui é tudo asiático, menos o espírito que se ala quase nada às idealizações do Oriente.
Regalias materiais, fausto, cortesania, gentileza, puritanismo de raça, bizarria, donaire, feitiço de gestos e maneiras, é um pasmar o que por aí vai disso!
Não se explica a celeridade com que as camadas se desbastaram nestes últimos vinte anos. A que estava então no topo da jerarquia social ficou fazendo as mesuras solenes das velhas açafatas, por se não mesclar com o gracioso despejo da sociedade média. Esta, porém, com toda a punjança de um sangue novo, surgiu de salto, feita, e composta, como se o bom-tom lhe fosse herança de séculos.
É pasmoso!
As damas portuenses são muito mais iluminadas que os homens portuenses.
Entra-se num salão e admira-se o desembaraço das senhoras e o encolhimento canhestro dos galãs. O mais audaz encosta-se ao batente da porta e não ousa transpor o limiar sem que a rebecada do coro, núncia da primeira contradança, autorize a entrada em gorgolões, como a dos rapazes pela escola dentro.
Este acanhamento, porém, é de bom agouro.
Homens de talento e espírito são os que mais se acovardam diante de senhoras. No Porto há muito talento e espírito por força.
Os patetas, os lorpas, os atiradiços, são por via de regra os mais festeiros e festejados na sociedade, umas vezes com a cristã virtude da indulgência, outras com o riso zombeteiro da ironia.
Há por cá de tudo. Deus louvado!
E bom é que haja para que os tédios da uniformidade não volvam o mundo elegante às fórmulas dorminhocas da sociedade velha, em que o casquilho tomava a quinta chávena de chá, a pedido da dona da casa, e torcia um tendão a dançar o minuete, enquanto a menina fazia tossir ao cravo notas roufenhas, com grande aplauso e grandes abrimentos de boca, de seis velhas entendidas em cravo. Etc.
Não é menos valioso elemento, para quem se der a escrever a fisiologia do Porto, um artigo de Silvestre,
que trasladamos dum jornal coevo. Dedica ele o seu escrito
AS PESSOAS MELANCÓLICAS
Eureka!
Arquimedes. Pela primeira vez, em minha vida, sinto a legítima vaidade de ser útil à humanidade padecente.
Por imprevisto acaso, entrei no grémio dos “humanitários”, como agora se diz.
Oferece-se mais uma cabeça às bênçãos da humanidade por entre as cabeças do Hollowe dos unguentos, do inventor da Revalenta, do inspirado manipulador da pílula da família, do mirífico engenho que espremeu do fígado do bacalhau o óleo restaurador dos pulmões.
Declaro desde já que não inventei o remédio para a epizootia, nem os pós insecticidas, nem a cura do mormo real.
Os meus estudos patológicos actuam todos sobre a raça humana, posto que as enfermidades do gado vacum e suíno chamem de preferência a atenção do homem, animal carnívoro, que come o boi, porque o boi se não emancipou ainda e está dois séculos mais atrasado que o jumento, cuja emancipação é hoje indispensável.
De passagem direi que me espanta e indigna o desvelo que os governos empregam no exame das moléstias, que dizimam os animais prestantes para a cozinha.
É uma questão de estômago e não há aí questão de estômago que não avulte as proporções de uma questão nacional.
(continua...)
CASTELO BRANCO, Camilo. Coração, Cabeça e Estômago. Disponível em: https://www.dominiopublico.gov.br/pesquisa/DetalheObraForm.do?select_action=&co_obra=1781 . Acesso em: 28 jun. 2026.