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#Romances#Literatura Portuguesa

Amor de Salvação

Por Camilo Castelo Branco (1864)

Meu filho. Muito há que eu peço a Deus que me despene. Já me cansava a vida com tão aturado padecer e nenhuma esperança de remédio.

Agora espero que a misericórdia do Senhor me atenda; e, se me diz verdade o coração, é chegada a hora de eu escrever umas linhas, que te serão mandadas quando eu tiver passado.

Bem sabes tu, meu filho, que eu. cheia de terror do teu pecado, voltei para Deus a minha aflição, e nenhuma palavra de censura te escrevi, O que eu podia fazer para livrarte estava inutilmente feito. Era tardio tudo que fizesse depois. A infeliz criatura estava já contigo. Ninguém sem ordem do Céu poderia remi-la da sua perdição. À minha presença veio o desgraçado marido de Teodora pedir-me que te movesse a influir no ânimo de sua mulher o recolher-se num mosteiro. Consultei primeiro a vontade divina e depois a razão humana. As minhas orações, se pudessem com Deus alguma coisa, lá iriam à tua alma em abalo de consciência. O Senhor não quis. As pessoas a quem pedi voto sobre escrever-te, segundo o pedido do homem de Teodora, todas me disseram que eu ia abaixar a minha dignidade num requerimento vão e desconforme à natureza da tua desgraça. Abaixar a minha dignidade não me custava nem humilhava; mas, sem esperança de te mover com as minhas pobres razões, antes quis orar, e orar sempre a quem tudo podia.

Bem sabes, meu filho, que eu, nem mesmo ao remeter-te num ano o rendimento de quatro, afora o produto da quinta vendida. nada te disse respeito à causa dos teus desperdícios, prometedora de tua inevitável pobreza.

Conheci que eu, em tua vida, já nem sequer valia para amiga. muito menos devia esperar respeito e amor à minha autoridade de mãe. Disse comigo que era irremediável a tua desgraça, e esmoreci de todo em todo.

Mandou o Senhor para o meu lado tua virtuosa prima. Chorámos ambas; mas o anjinho, mesmo em prantos, consolava a pobre que lhe via a alma em grandíssimas mortificações.

Agora, meu filho sempre querido, é tempo de te abençoar, de te perdoar as dores que me deste, e rogar-te que me vejas aos pés do Altíssimo, se a Sua misericórdia me descontar as agonias nas muitas culpas de minha vida. Não te mortifique o pesar de me haver deixado morrer sem que a tua vida se lavasse, pelo arrependimento, do desonroso crime que a disforma. A todo o tempo, se sentires o voluntário brado da consciência, escuta-o, remedeia-te e foge de ti mesmo para te encontrares na justiça benigna de perdoador de crimes iguais. Eu serei então em espírito contigo para te ajudar a reformar o teu ânimo e alentar em teus desfalecimentos.

Dos desbarates e perdimento dos teus haveres, faz muito por salvar ao menos esta casa onde nasceste e a quinta que te dará abundante pão na velhice, se Deus- ta der, como tempo de merecer o Céu. Aqui nasceu teu pai, e muitas gerações de santas e honradas pessoas. Salva esta casa, que tens nela a sepultura de teus pais e avós.

Se alguma vez voltares aqui, e tua prima for viva, estima-a, em paga dos-carinhos que lhe fico devendo, e do beijo de filha que ela me há-de dar quando eu expirar em seu seio. Aqui te lança sua derradeira bênção a tua boa mãe, Eulália.

XVII

Encerrou-se Afonso por espaço de oito dias, inconsolável aos afagos de Palmira.

Os amigos, seus sécios de vida viciosa e soberba de sua culpa, e contubernais logrativos das suas dissipações, enfureciam-lhe o tormento do remorso. Furtava-se à vista deles, fechando-se, quando vinham, com o semblante composto de falso compadecimento, lembrar ao amigo, em luto de oito dias, que um homem de razão clara tinha obrigação de ser superior a sofrimentos-comuns e naturalíssimos, tais como a morte de uma mãe.

Palmira ia ao salão receber os pêsames e combinava-se com os cavalheiros admirados da pusilanimidade de Afonso. "Eu sofro muito", dizia ela a D. José de Noronha, alquebrando o rosto em desconfortada pena, "ao ver que a minha solicitude consoladora nada pode com. Afonso. O coração da mulher que renunciou à satisfação do dever e se imolou aos caprichos transitários de um homem deve também renunciar ao poderio de desviar de uma sepultura os olhos dele. Assim se é castigada, quando se é culpada como eu." A tais razões proferidas com os olhos no tecto, respondia D. José de Noronha: "Eu hei-de acreditar que Afonso deixou de amar apaixonadamente V. Exª quando ele se confessar um monstro e a honra for banida neste mundo. Eu só compreendo o esquecimento da honra quando é preciso sacrificá-la a uma senhora como V. Exª. Ainda bem que há uma só, para se não adjurarem os seus deveres sociais." Ora o estilo de Afonso - digamo-lo de corrida - era muito mais lhano e correntio.

(continua...)

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