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#Romances#Literatura Brasileira

Quincas Borba

Por Machado de Assis (1891)

RUBIÃO chegou ao fim da Rua da Saúde. Ia à toa com os olhos espraiados e desatentos. Rente com ele, passou uma mulher, não bonita, nem singela sem elegância, antes pobre que remediada, mas fresca de feições, contaria vinte e cinco anos, e levava pela mão um menino. Este atrapalhou-se nas pernas do Rubião.

-Que é isso, nhonhô? disse a moça, puxando o filho pelo braço.

Rubião inclinara-se ao pequeno, para ampará-lo.

-Muito obrigada, desculpe, disse ela sorrindo- e cumprimentou-o. Rubião tirou o chapéu, sorriu também. A visão da família apoderou-se dele outra vez.-"Case-se e diga que eu o engano!" Parou, olhou para trás, viu ir a moça, tique-tique, e o menino ao pé dela, amiudando as perninhas, para ajustar-se ao passo da mãe. Depois, foi andando lentamente, pensando em várias mulheres que podia escolher muito bem, para executar, a quatro mãos, a sonata conjugal, música séria, regular e clássica. Chegou a pensar na filha do major e que apenas sabia umas velhas mazurcas. De repente, ouvia a guitarra do pecado, tangida pelos dedos de Sofia, que o deliciavam, que o estonteavam, a um tempo; e lá se ia toda a castidade do plano anterior. Teimava novamente, forcejava por trocar as composições; pensava na moça da Saúde, modos tão bonitos, criancinha pela mão...

CAPÍTULO LXXXVIII

A VISTA DO TÍLBURI fez-lhe lembrar o doente da Praia Formosa.

-Pobre Freitas! suspirou.

Logo depois, pensou também no dinheiro que deixara à mãe do enfermo, e achou que fizera bem. Talvez a idéia de haver dado uma ou duas notas demais esvoaçou por alguns segundos no cérebro do nosso amigo; ele a sacudiu depressa, não sem se zangar consigo e para esquecê-la de todo, exclamou ainda em voz alta

-Boa velha! pobre velha!

CAPÍTULO LXXXIX

COMO A IDÉIA tornasse ainda, Rubião atirou-se depressa ao tílburi, entrou e sentou se, falando ao cocheiro, para fugir a si mesmo.

-Dei uma caminhada grande; mas, sim, senhor, isto aqui é bonito, é curioso; aquelas praias, aquelas ruas, é diferente dos outro; bairros. Gosto disto. Hei de vir mais vezes.

O cocheiro sorriu para si de um modo tão particular, que o nosso Rubião desconfiou. Não atinava com o motivo do riso; talvez lhe houvesse escapado alguma palavra que no Rio de Janeiro tivesse mau sentido, mas repetiu-as e não descobriu nada; eram todas usadas e comuns. Entretanto, o cocheiro sorria ainda, com o mesmo ar d princípio, meio subserviente, meio velhaco. Rubião esteve a pique de o interrogar, mas recuou a tempo. Foi o outro que reatou a conversação.

-Vossa Senhoria está então muito admirado do bairro? disse ele. Há de deixar que eu não acredite, sem se zangar, que não para ofender a Vossa Senhoria, nem eu sou pessoa que agrave um freguês sério; mas não creio que esteja admirado do bairro.

-Por quê? aventurou Rubião.

O cocheiro meneou a cabeça para um e outro lado, e insistiu em não crer,-não porque o bairro não fosse digno de apreço, mas porque naturalmente já o conhecia muito. Rubião ratificou a primeira afirmação; tinha ido ali muitos anos antes, quando esteve da outra vez no Rio de Janeiro, mas não se lembrava de nada. E o cocheiro ria; e, à medida que o freguês ia demonstrando, ele ia fi-cando mais familiar, fazia negativas com o nariz, com os beiços, com a mão.

-Já sei disso, concluiu ele. Nem eu sou homem que não veja as cousas. Vossa Senhoria pensa que não vi a maneira por que olhou para aquela moça que passou ainda agora? Basta só isso para mostrar que Vossa Senhoria tem faro e gosta. . .

Rubião, lisonjeado, sorriu um pouco; mas emendou-se logo:

-Que moça?

-Que lhe dizia eu? redargüiu o homem. Vossa Senhoria é fino, e faz muito bem; mas eu sou pessoa de segredo, e cá o carro tem servido para estas idas e vindas. Não há muitos dias trouxe um belo moço, muito bem vestido, pessoa fina, -já se sabe, negócio de rabo de saia.

-Mas eu... interrompeu Rubião.

Mal podia conter-se; a suposição agradava-lhe; o cocheiro cuidou que ele dissimulava a culpa.

-Olhe, eu bem digo,-continuou ele; tal qual o moço da Rua dos Inválidos. Vossa Senhoria pode ficar descansado; não digo nada; cá estou para outras. Então, quer que eu acredite que é por gosto que uma pessoa, que tem carro às ordens, vem andando a pé desde a Praia Formosa até aqui? Vossa Senhoria veio ao lugar marcado, a pessoa não veio...

-Que pessoa? Fui ver um doente, um amigo que está para morrer.

-Tal qual o moço da Rua dos Inválidos, repetiu o homem. Esse veio ver uma costureira da mulher, como se fosse casado. . .

-Da Rua dos Inválidos? perguntou Rubião, que só agora atentava no nome da rua.

-Não digo mais nada, acudiu o cocheiro. Era da Rua dos Inválidos, bonito, um moço de bigodes e olhos grandes, muito grandes. Oh! eu também se fosse mulher, era capaz de apaixonar-me por ele... Ela não sei donde era, nem diria ainda que soubesse; sei só que era um peixão.

E vendo que o freguês o escutava com os olhos arregalados

-Oh! Vossa Senhoria não imagina! Era de boa altura, bonito corpo, a cara meia coberta por um véu, cousa papa-fina. A gente, por ser pobre, não deixa de apreciar o que é bom.

(continua...)

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