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#Crônicas#Literatura Brasileira

Vida Urbana

Por Lima Barreto (1921)

– Ouve. “Primeiro, disse-me Fontes, a tua colaboração; e, em seguida, que tu me dês um anúncio aqui, para esta seção – Momentos dos Advogados”. Pensei um instante e perguntei-lhe quanto era. “Pouco; cinco mil-réis por numero” , respondeu-me ele. Autorizei e logo que o tal anúncio no Momento do Fontes, apareceu, nunca mais o meu escritório ficou às moscas. A toda hora e a todo instante, lá aparecia um diretor, um secretário, ou um gerente de revista a pedir o meu anúncio. Fui autorizando, na persuasão de que atraíssem clientes; mas não me surgiu nenhum.

– Não devias ter sido tão pródigo ... Quanto te custou essa maluquice?

– Em um ano, cerca de dois contos de réis. A minha pequena fortuna ia-se e eu não conseguia obter nem uma causa; entretanto, teimava em ser um grande advogado. Todos os dias eu, pasta, guarda-chuva de ouro, anel, fraque, etc. íamos ao fórum e nada obtínhamos. Travei no fórum conhecimento com um escrevente juramentado, o Carvalhais. Era um rapaz adamado, abrilhantado, com uns ares importantes, uma pasta igual à minha, variando de roupas todos os dias e fazendo a noce com a maior distinção. Quase sempre bebíamos juntos e ele me dizia sempre: “Doutor, hei de lhe arranjar uma coisa boa”. “Pois bem, Carvalhais”, respondia-lhe eu. Um dia, ao chegar ao fórum, logo topei com o Carvalhais, acompanhado de um sujeito rústico, branco, musculoso, curto, a quem me apresentou, como precisando dos meus serviços. “Pois não”, fiz eu muito contente. “Então”, respondeu o Carvalhais, “vamos todos ao tabelião”. Fomos. Lá, Carvalhais falou a um colega, que abriu um grande livro, e eu mais o cliente ficamos sentados à espera. Daí a pouco, fui chamado por Carvalhais. Assinei o tal livro, o cliente também, Carvalhais também. “Agora”, disse-me Carvalhais, “vamos até ao escritório do doutor, pois temos ainda o que fazer”. Assim fizemos. Em lá chegando, ele me deu três ou quatro papéis a assinar – o que fiz sem os ler.

– Homessa!

– Paciência filho; espera! Acabado o que, ele, o Carvalhais, me disse: “Doutor, não há serviço que não mereça paga”. Tirou do bolso seis notas de quinhentos mil-réis e me deu. Despediu-se amavelmente e foi-se com o meu cliente.

– Qual era a causa?

– Tu sabes?

– Não.

– Nem eu... No dia seguinte, fechei o escritório.

O Malho, Rio, 28-6-1919.

O EDIFÍCIO DA CRUZ VERMELHA

Nos últimos dias do mês passado, o Rio-Jornal deu-nos uma larga notícia sobre as coisas da Cruz Vermelha Brasileira. O começo da notícia é tão de lamúrias a ponto de provocar lágrimas.

Diz e repete que essa sociedade humanitária “vive esquecida, cinicamente alimentada pelo entusiasmo inarrefecível de diminuto grupo de patrícios, utopistas na condenação injustificável de indivíduos acanhados no seu modo de ver.

“Ignorada, trabalhando em silêncio e cônscia de sua modéstia, pelo criminoso descaso que lhe votam os responsáveis, os espetaculosos promotores de festas de caridade em benefício dos infelizes europeus e quiçá a população em geral, ela, no cenário da vida da cidade, só surge nos transes difíceis e horríveis como os dolorosos e negros dias da pandemia gripal.”

Segundo me consta, essa história da Cruz Vermelha é destinada a socorrer feridos de guerra. Ora, o Brasil há muito tempo não se mete em guerra.

Sendo assim, como é então que querem que a nossa Cruz Vermelha seja conhecida? Não há de querer ela que, para se ostentar ao grande público, haja, de ano em ano, uma guerra com o Brasil. Longe, portanto, de se lastimar, a Cruz Vermelha deve exultar com a sua obscuridade!

Entretanto, ela não é assim tão total como diz o Rio-Jornal.

Há meses, houve lá uma eleição de diretoria. Dias antes, muitos mesmo, os apedidos dos jornais e outras seções vinham cheios dela. O eixo da disputa era ter o presidente mandado em missão ao Paraná e outros lugares uma parteira, como portadora de credenciais da associação. Sem cobras e lagartos e todos os leitores de jornais, que são o verdadeiro público do Rio de Janeiro, se não tinham notícia da “Cruz Vermelha”, vieram a tê-la com o escândalo jornalístico.

Eu não sei bem que utilidade pode ter uma parteira para tratar feridos de guerra. Creio bem que os ferimentos de que essas especialistas podem curar, não se adquirem na guerra, mas fora dela, em cura de partos, que por eufemismo ou outra figura de retórica, chamam de batalha, guerra de amor, os singulares combates em que os estragos redundam em trabalho para os obstetras.

Agora, eu me lembro – e por lealdade declaro – que, há muitos anos, li a nomeação do doutor Abel Parente para médico parteiro da Guarda Nacional. Mas, isto foi no Filhote da Gazeta. Além disto, a eleição da diretoria foi um sucesso que causou inveja ao Honório Pimentel, de Santa Cruz.

A notícia que traz o endemoninhado Rio-Jornal, se alonga em outras considerações; e, até, estampa um cliché do edifício projetado para a sede de todos os serviços que a Cruz quer prestar ao país, à cidade, na paz e na guerra.

(continua...)

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