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#Romances#Literatura Brasileira

A Conquista

Por Coelho Neto (1890)

E, à medida que ia desfazendo embrulhos e pacotes, complicadamente enleados, contava a história de cada um dos objetos que expunha à admiração do grupo. Eram peles curtidas, presas de onças, colmilhos de caititus, bicos de tucanos, cascos de tartarugas, garras de rapaces, caveiras de monos e uma vértebra de baleia que era o seu banco predileto; várias facas e um ferro de lança enferrujado e roído. Quando tomou entre os dedos essa antigalha épica, disse com solenidade:

— Isto que vocês vêem foi achado no campus ubi Troya fuit! É o espículo de uma sarissa grega, talvez da que foi de Agamenão ou de outro qualquer dos chefes que sitiaram e arrasaram a cidade de Príamo. Um inglês ofereceu-me quatro mil libras por este ferro e teria elevado a oferta a dez mil, se eu não lhe houvesse dito que não me desfazia deste objeto nem que ele me oferecesse a própria Inglaterra com todas as suas colônias.

Anselmo arregalou os olhos admirando a preciosíssima peça e quis vê-la de perto, tomou-a e só achou aspereza e ferrugem, mas recordando Homero, lembrouse de que aquele pedaço de ferro velho talvez houvesse pertencido ao filho de Peleu, talvez houvesse atravessado o corpo de Heitor e, enquanto Crebillon ia mostrando aos outros vários objetos curiosos, o autor de A Profecia, à luz do gás, revolvendo entre os dedos o ferro da lança, recapitulava a Ilíada, rapsódia a rapsódia, ouvindo não somente o armistrondo e o alarido como a voz dolorosa de Cassandra que profetizava e os gritos e o guaiar de Hécuba infeliz.

Ruy Vaz, posto que não fosse indiferente ao ferro clássico, preferia, em vez dele, um simples contador ou outro qualquer móvel de mais utilidade. O ferro era precioso, mas não enchia os grandes vácuos da casa. Mas como Crebillon havia prometido não quis enfezá-lo mais e, deixando-o com o seu museu de antigüidades, estirado na rede, em ceroulas, com o cachimbo nos beiços, contando a Anselmo uma terrível caçada nas matas bravias do Piauí, foi trabalhar no seu novo romance, que era a vida fantástica de um padre vítima de uma empusa, como Menipo que foi salvo miraculosamente por Apolônio.

Na manhã seguinte, ainda havia névoas, e já Crebillon bradava por João de Deus para que lhe arranjasse café.

O negro subiu receoso e trêmulo para dizer que não havia nada em casa — nem chaleira, nem xícaras. Crebillon achou impossível que não houvesse coisas tão insignificantes e perguntou como se haviam arranjado os moços nos outros dias para tomar café? João de Deus balbuciou:

— Eles não tomam café.

— É a eterna falta de ordem. Assim, meus amigos, começamos mal, disse Crebillon bem alto para que os rapazes ouvissem do quarto. Assim começamos mal. Sem ordem não arranjamos nada. Não há lá em baixo uma garrafa? O negro afirmou: que havia na dispensa. Pois lave-me bem uma garrafa, vá a um botequim ali na rua do Catete e traga-ma cheia de café. Café fresco, viu? Se não for fresco volta.

— E xícaras? — ousou perguntar João de Deus.

— Xícaras... ainda mais essa. Pois traga três xícaras e quatro pães com manteiga. Vá depressa; tome o dinheiro.

Os rapazes ouviam o diálogo do presidente e do negro.

Só, passeando descalço ao longo do corredor, Crebillon resmungava:

— É isto. Quando eu digo que a ordem é tudo, clamam que impertinente, que me quero impor como mandão e não sei mais, e é isto. Metem-se em uma casa como esta sem uma chaleira, ao menos. Assim não é possível. E queixam-se depois da sorte — porque não podem trabalhar, que são infelizes, e... patati e patatá. Três homens dentro de um palácio sem uma chaleira. Assim não é possível.

Ruy Vaz, que tudo ouvira, saiu ao encontro de Crebillon, no corredor:

— Que é isto, homem?

— Que é isto! Pois vocês nem uma chaleira têm!

— Não!...

— Isto é demais!

— Também acho.

— Vocês hão de viver sempre em dificuldades.

— Sem chaleira?

— Não é sem chaleira, é sem ordem.

— Eu penso como tu.

— Pensas como eu, pensas como eu, e se eu quis tomar café tive que mandar João de Deus a um botequim com uma garrafa, quando possuímos o primeiro fogão da América do Sul.

— Que culpa tenho eu disso?

— Que culpa tens?

— Sim, que culpa tenho?

— Já sei que me vens com a lenga-lenga da mobília.

— De certo. Conheces perfeitamente as nossas condições. Quando nos propuseste a mudança, disseste que tomavas à tua conta a montagem da casa, da cozinha à sala de recepção. Que fizeste? Foste caçar a cotó na Bocaina. Ofereceste-nos as andorinhas e não as pagaste, fazendo-me passar por um vexame indizível e ainda vens bradar irritado por que não há chaleira? Como queres que haja chaleira se nada trouxeste?

— Mas hei de trazer.

— Pois bem: quando trouxeres haverá.

— Pois sim, mas sem ordem nada se faz. A minha questão é de ordem.

— Bem sei... a mobília que venha que a ordem há de aparecer. Que nos pediste tu? Silêncio e moralidade. Isto em silêncio é um túmulo, os próprios ratos, que faziam rumor à noite, já não aparecem porque o gato faminto não lhes dá tréguas. Quanto à moralidade, meu amigo, a Elvira e a Amélia pedem a todos noticias nossas e ninguém as dá, porque ninguém sabe onde moramos. Bem vês que vamos cumprindo à risca o contrato que celebramos, entanto de mobília... nem um pires.

(continua...)

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