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#Romances#Literatura Brasileira

O Ermitão de Muquém

Por Bernardo Guimarães (1869)

Se tivesse sabido parar a propósito e regressar, como fizera Itajiba, sua empresa teria sido coroada do mais glorioso sucesso, e bem embaraçados se veriam os anciãos da tribo no momento de decidir a qual dos dois heróis devia ser deferido o galardão da superioridade. Batido enfim, depois de heróicos esforços, por forças dez vezes superiores, Inimá viu-se obrigado a retirar-se precipitadamente com os destroços de sua gente, e sempre vivamente perseguido pelo inimigo pôde enfim ganhar as margens do grande rio, onde salvou-se em uma canoa que encontrou desgarrada, unicamente com os quatro companheiros com que o vimos aportar misteriosamente junto às tabas. Apesar de tão desastroso revés Inimá não desesperava ainda do seu futuro.

— Quem sabe, pensava ele, se Itajiba não teria tido a mesma ou pior sorte que a minha? e no caso mesmo que vencedor ou vencido ele ainda não tenha voltado às tabas, pedirei novas forças, e já conhecedor das manhas do inimigo e do terreno em que habitam, tomarei sobre ele tão cabal desforra, que farei esquecer para sempre este primeiro revés.

Assim pensava Inimá e assim o teria executado; mas o dado já estava lançado, e ele tinha irrevogavelmente perdido a parada. Ao aproximar-se das tabas dos seus, o clarão dos fogos no horizonte, os gritos e festivais aclamações que ouvia ao longe, vieram anunciar-lhe que toda a esperança estava perdida para ele.

Quanto mais se aproximava, mais se convencia da realidade de seu infortúnio; enfim o esplêndido espetáculo da ovação de Itajiba, que Inimá furtivamente presenciou de sua canoa escondida entre as moitas da ribanceira, foi como uma punhalada, que o fez soltar um rugido de raiva e desesperação. Por um momento esteve a lançar-se ao rio e beber a morte em suas águas, ou a arrojar o peito contra uma flecha; mas lembrou-lhe a vingança, único prazer que lhe restava, última consideração que ainda o prendia à vida, e susteve-se.

— Já que Tupá, exclama ele enfurecido, obstinadamente me persegue, e me acabrunha ao peso de amarguras e infortúnios, sem que eu nada tenha feito para merecê-los, eu te invoco, ó Anhangá, e de hoje em diante ponho em tuas mãos o meu destino, ó manitó do mal! inspira-me e guia meus passos pelas veredas tortuosas e sangrentas da vingança. Guerreiro, continua dirigindo-se a um dos companheiros, desembarca e vai ver o que se passa e o que se diz nas tabas de nossos pais, e volta imediatamente a dar-me fiel conta de tudo que vires e ouvires.

O guerreiro obedeceu prontamente, saltou em terra, subiu ao longo da margem até ao arraial dos Chavantes, envolveu-se nas turbas, entrou nas tabas, dançou com os outros em torno das fogueiras, sem que ninguém no meio daquele bulício e alvoroto festival se apercebesse que era um companheiro que voltava de países remotos, e aparecia entre eles depois de uma longa ausência. Depois de demorar-se o tempo que julgou necessário para informar-se e ficar ciente de tudo, voltou à canoa e disse a Inimá que não vira por toda a parte senão festas e regozijos, não ouvira senão aplausos e elogios a Itajiba; que todos a uma voz diziam que jamais Inimá poderia igualar os feitos gloriosos de Itajiba, e que embora voltasse aquele vitorioso, dentro em oito dias este seria aclamado sucessor do ilustre Oriçanga e seria o feliz esposo da meiga e gentil Guaraciaba.

— Nunca o será, bradou enfurecido o jovem cacique batendo vigorosamente com o pesado tacape no fundo da canoa, que reboou dando um lúgubre gemido como o ronco de uma sucuri das profundezas das águas. Nunca o será, enquanto estas mãos empunharem este arco e este tacape. Nunca o será; por Anhangá o juro!

O infeliz Inimá, posto que ilustrasse seu nome por gloriosas façanhas e atos de heroísmo, não quis apresentar-se entre os seus coberto com a ignomínia de uma completa derrota, e era por demais orgulhoso para curvar-se ante a fortuna brilhante de seu feliz rival, cuja vista não poderia suportar. Na mesma canoa ele e seus quatro companheiros se retiraram silenciosamente pelo rio abaixo sempre procurando ocultar-se por entre as ramas da ribanceira até se sumirem nas sinuosidades do rio. Retirou-se para o seio das florestas a ocultar seu afrontoso destino e seu profundo desespero, e a meditar projetos de vingança contra Itajiba, o pérfido estrangeiro que com seus artifícios e embustes desmoronou todo o seu futuro, e o precipitou naquele abismo de opróbrio e de amargura; contra a fementida Guaraciaba, que sem pudor despedaçou laços sagrados urdidos desde a infância; contra Oriçanga, que deslealmente quebrou as mais solenes promessas; contra a tribo inteira enfim, que o pospunha a um estrangeiro desconhecido, só porque um pouco de fortuna o bafejava.

Retirado nas brenhas mais profundas Inimá revolvia na mente mil planos de vingança, cada qual mais feroz e sangüinário, até que enfim fixou-se em um, que lhe pareceu o mais atroz e o mais seguro ao mesmo tempo.

— Anhangá por fim me inspira, exclamou lançando para trás os longos cabelos, como o leão que sacode a juba antes de arrojar-se à presa; morrerei nas garras da aflição e do desespero; mas eles... eles também não gozarão de sua felicidade.

E um sorriso de satânica alegria lhe dilatou os lábios trêmulos de desespero e iluminou-lhe o rosto como o lampejo de uma lâmpada sepulcral. Antes que chegasse o dia da execução de seus ferozes desígnios, mandava todas as noites um de seus companheiros indagar furtivamente tudo o que se passava nas tabas, e urdia nas trevas a horrível cilada em que pretendia colher as vítimas de seu ódio.

CAPÍTULO V

FESTAS TRIUNFAIS

(continua...)

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