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#Romances#Literatura Brasileira

Iaiá Garcia

Por Machado de Assis (1878)

Vexado e tímido, o Sr. Antunes sentou-se defronte de Jorge, que não lhe disse nada durante os primeiros minutos. Jorge falou enfim, repreendendo-o amigavelmente; disse-lhe que as exigências do comerciante não eram exageradas, e em todo caso não havia meio de opor-se a elas, salvo se quisesse deixar a casa.

— Isso mesmo, disse o pai de Estela.

— Não faça isso; não se ganha nada em andar de emprego em emprego. Demais, francamente, não vejo que entrar antes das dez horas seja cousa difícil. Seu genro faz isso há muitos anos.

— Meu genro!... meu genro!... disse o Sr. Antunes sacudindo a cabeça com um gesto de enfado. Jorge fingiu não atender ao gesto e ao tom do pai de Estela, e tratou de o converter à pontualidade, obra que começava a ser difícil, porque o Sr. Antunes entrava já nas conseqüências lógicas e naturais de uma longa dependência; preferia o favor ao trabalho, e os anos contribuíam para esse amor da inércia e do benefício gratuito. A maior ambição que o animou, se a fortuna a houvera realizado, dar-lhe-ia todos os meios de envelhecer tranqüilo. Agora tinha encanecido; e o corpo, embora lesto, começava a suspirar pela inação, última cobiça de uma vida sem dignidade. Jorge deixou o assunto para não vexar o antigo protegido de seu pai, e acabou o jantar alegremente. No fim recebeu um bilhetinho de Procópio Dias. “Não imagina, dizia este, que dia tenho passado, depois da nossa conversa de ontem. Teimo em dizer que fui excessivo, e ainda uma vez lhe peço me releve a falta. Poderia o senhor castigar um doido? O amor não tem imputação. Queime este bilhete; e em todo caso não o revele a ninguém, sobretudo à pessoa de que se trata.” Jorge sorriu e releu o bilhete; depois fechou-o na secretária e escreveu esta simples resposta: “Ainda uma vez, não há que perdoar. O senhor foi apenas desconfiado, como todos os ciumentos; mas, como não inventou o ciúme, não lhe faço cargo disso.” Entregue a resposta, Jorge olhou para o Sr. Antunes, que fumava discretamente um charuto do bacharel.

— Ouvi dizer hoje uma cousa, disse Jorge com ar indiferente; ouvi dizer que Iaiá vai casar.

— Casar? repetiu o Sr. Antunes com um sobressalto. E depois de um instante:

— É possível; naquela casa o último que sabe das cousas sou eu.

— Talvez não passe de balela. Nem me disseram com quem. Provavelmente há algum namorado ou aparência disso, e então os noveleiros vão logo ao fim. Mas haverá deveras algum pretendente ou namorado?...

— Que eu saiba, nada, asseverou o Sr. Antunes. E até, deixe-me dizer-lhe o que penso, duvido que ela cuide por ora de semelhante cousa. Aquela menina não tem cabeça.

— Oh! exclamou Jorge rindo.

— Não tem, digo-lhe eu. Está ali, está no hospício. Não se pode dizer que seja travessura, porque não está em idade disso; é pancada. Se soubesse as cousas que ela faz às vezes!

— Não me parece; quando a vejo, é sempre com um modo comedido, e muitas vezes sério...

— Lá isso, é porque ela não gosta do senhor.

— Não gosta de mim? perguntou Jorge admirado.

— Não digo que absolutamente não goste, obtemperou o pai de Estela; não lhe tem muita simpatia, é o que é.

— Como sabe você disso?

— Ouvi uma vez o pai repreendê-la, porque de propósito voltara as costas ao senhor; e então ela levantou os ombros, assim com um ar de pouco caso. O pai tornou a dizer que aquilo não era bonito, mas perdeu o tempo; Iaiá pregou os olhos nas unhas, com a testa franzida, e eu saí porque já não podia aturar nem um nem outro. Jorge ficou alguns instantes pensativo. Era certo que Iaiá o tratara sempre com muito resguardo e frieza; mas, suposto que isso não significasse simpatia, e até lhe sentisse alguma hostilidade, estava longe de supor-lhe declarada aversão. Do gesto a que o Sr. Antunes aludira, não se lembrava absolutamente; mas era possível. Demais, pensou ele, o Sr. Antunes não o inventaria na ocasião; não era caluniador; faltava-lhe essa ferocidade. Mas, por que motivo não gostaria dele a filha de Luís Garcia? Era a segunda vez que Jorge fazia essa pergunta, sem lhe achar resposta plausível. Em seguida, recordou-se da noite anterior, e observou ao pai de Estela que Iaiá o tratara na véspera com alguma cordialidade.

— Milagre de ano bom! explicou o Sr. Antunes. Também lhe digo que não perde nada se ela não gostar do senhor; é uma fortuna. Porque ela, quando gosta de uma pessoa, é de fazer-lhe perder a paciência.

— Mas parece ter bom coração; e creio que gosta muito do pai.

— Também Estela gosta de mim.

Jorge fechou neste ponto a conversação. Seu pensamento voltou à revelação inopinada do Sr. Antunes. Por mais indiferente que Iaiá lhe fosse, Jorge sentia-se molestado com a certeza de que a moça não gostava dele. Por que seria? Simples antipatia ou outra cousa?

A preocupação desvaneceu-se na tarde do dia seguinte, quando Jorge apareceu em casa de Luís Garcia. Foi a própria Iaiá quem veio abrir-lhe a porta do jardim dizendo, alegremente:

(continua...)

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