Por Machado de Assis (1876)
Falei-lhe de um amor forte, é certo, não extinto naquele tempo, mas totalmente sem esperança. Que moça não tem dessas fantasias, uma vez ao menos? A fantasia passou. Ou eu não devo casar nunca, ou posso desposar um homem digno, que me ame. Não casar foi algum tempo o meu desejo; não o é hoje, desde que você, titia e o Padre Melchior ambicionam ver- me casada e feliz. Para obter a felicidade, além do casamento, escolhi pessoa que me parece capaz de dar a paz doméstica e os melhores afetos de seu coração.
De maneira que te sacrificas a um desejo nosso?
Quando fosse sacrifício, fá-lo-ia de boa cara; mas não é.
Não se trata de um sacrifício repugnante e odioso; entretanto, cumpre examinar o que perdes. Dizes que a fantasia passou; não creio, Helena, não creio que ela passasse. Tu amas decerto; amas violentamente alguém; amas sem esperança nem futuro; isto é, levas para casa de teu marido um coração que te não pertence, um sentimento intruso e inimigo...
Helena quis interrompê-lo.
Ouve, continuou Estácio. Esse sentimento, se vier a extinguir-se e se for substituído pela afeição que criares a teu marido, não te fará desventurosa; mas supõe que não morre esse amor, qual será a tua situação?
Tudo isso é um castelo no ar, disse Helena sorrindo; eu amei, não amo; ou amo somente a meu futuro marido.
Estácio abanou a cabeça com ar de incredulidade. Seus olhos pousaram no rosto plácido da irmã, como tentando arrancar-lhe uma confissão silenciosa. Os dela, firmes e tranqüilos, cruzavam o olhar com os dele. Estácio conhecia já o domínio que a moça exercia sobre si mesma; a tranqüilidade não o convenceu. Assim pensava, assim o disse, sem rebuço.
Por que razão negaria eu a verdade? retorquiu Helena. Estácio ergueu os ombros.
Supondo que você tenha razão, tornou ela, não deverei casar nunca?
Não digo isso; mas, há dois caminhos para a felicidade, além de Mendonça.
Não os vejo.
Esse amor misterioso será realmente sem esperança? Nada há definitivo no mundo, nem o infortúnio nem a prosperidade. O que a tua imaginação supõe estar perdido, acha-se apenas transviado ou oculto ...
Adivinho o segundo caminho, atalhou Helena; não casando agora, posso vir a amar um dia, mais do que a Mendonça, algum homem tão digno como ele.
Parece-te absurdo isso?
Não, mas é uma loteria: perco um bem certo por outro duvidoso. O jogador não faz cálculo diferente. Essa felicidade pode não vir; eu contento-me com a que me cabe agora. Mendonça ama-me deveras; senti-o desde algum tempo. O Padre Melchior abriu-me os olhos; aceito o destino que os dois me oferecem. Esta é a razão e a realidade; o mais é ilusão e fantasia.
Enquanto ela falava, Estácio, que tirara o chapéu-de-chile, ocupava-se em fazer circular na copa a fita larga que o cingia. Houve entre ambos grande silêncio. Pela beira do tanque seguia uma longa carreira de formigas, conduzindo as mais delas trechos de folhas verdes. Com um galho seco, Estácio distraía-se em perturbar a marcha silenciosa e laboriosa dos pobres animais. Fugiam todas, umas para o lado da terra, outras para o lado da água, enquanto as restantes apressavam a jornada na direção do domicílio. Helena arrancou-lhe o galho da mão; Estácio pareceu acordar de largas reflexões; ergueu-se, deu alguns passos e voltou a ela.
Helena, declarou ele, não creio nada do que você me diz; você sacrifica-se sem necessidade e sem glória, não consinto; é meu dever opor-me a semelhante coisa.
Helena ergueu-se também.
Mendonça começa a ser o fruto proibido, observou ela, sorrindo; é o meio seguro de o fazer amado.
A moça afastou-se na direção da casa. Estácio viu-a desaparecer por entre as árvores, e ficou algum tempo entre o banco e o tanque. As formigas, dispersas alguns minutos antes, tinham agora entrado no primeiro caminho, com a mesma ordem anterior. Viu-as o moço, e comparou-as às próprias idéias, também necessitadas de que um galho invisível as não dispersasse e confundisse. No meio de suas reflexões, lembrou-lhe o padre; Estácio atravessou a chácara, saiu à rua e dirigiu-se à casa de Melchior.
Melchior habitava uma casinha, situada no centro de um jardim diminuto, a algumas braças da residência de Estácio. Tinha duas salas o prédio, janelas por todos os lados, uma porta na frente e outra nos fundos. A da frente abria entre duas janelas de venezianas. A sala de visitas era ao mesmo tempo gabinete de estudo e de trabalho. Simples era a mobília, nenhuns adornos, uma estante de jacarandá, com livros grossos in-quarto e in-fólio; uma secretária, duas cadeiras de repouso e pouco mais.
(continua...)
ASSIS, Machado de. Helena. Rio de Janeiro: Garnier, 1876.