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Memórias da Rua do Ouvidor

Por Joaquim Manuel de Macedo (1878)

Mas devo lembrar ao menos uma casa notável neste quarteirão: seja a primeira do lado esquerdo.

Tem ela três pavimentos, e abre portas e janelas para as ruas do Carmo e do Ouvidor.

Os dois pavimentos superiores são ocupados pelo Hotel da Europa, cuja entrada é pela Rua do Carmo, tendo outra que é de casa imediata e anexa na Rua do Ouvidor.

O Hotel da Europa foi durante anos considerado com razão, e ainda hoje tem presunções, de ser o primeiro ou o melhor hotel da cidade do Rio de Janeiro: atualmente continua a mostrar-se bom; conta porém alguns êmulos, que não merecem menos que ele.

Não creio que por isso deva ostentar-se orgulhoso; porque em hotéis a nossa capital está tão abaixo do que se encontra nas grandes cidades da Europa (já não falo dos Estados Unidos norte-americanos) e até em Buenos Aires, que o orgulho não seria admissível.

O que admira é que no fervor de mil empresas industriais ainda não aparecesse uma, e nem algum rico especulador que em seu proveito e do público dotasse a cidade do Rio de Janeiro com um hotel digno dela.

O Hotel da Europa tem outro louvável desvanecimento, ufanando-se de severo, e muito zeloso nas suas hospedagens. Sob esse ponto de vista é de fato preferível a muitos e a alguns famosos. É possível e mesmo provável que alguma vez tenha tomado a nuvem por Juno; ao menos, porém, esmera-se em livrar-se das nuvens, e basta isso para o seu crédito.

Em política, o Hotel da Europa é sempre do partido do freguês ou do hóspede que lhe chega; é sempre e ao mesmo tempo de todos os partidos, e em suas salas os liberais e os conservadores têm dado banquetes políticos, fazendo ecoar nelas os brindes e os vivas mais opostos.

Entretanto, é aos liberais que o Hotel da Europa tem mais servido, aliás sem preferência política.

Em uma das salas desse hotel, fundou o Sr. Senador Silveira da Mota em 1868 o seu Clube dos Radicais, e aí S. Ex.ª, eloqüente e enérgico orador, e alguns outros radicais pronunciaram belos discursos, conversaram muito no sentido de suas idéias políticas em repetidas reuniões; esse clube, porém, acabou sem grande resultado de propaganda, mas com saudades profundas do hotel privado da excelente freguesia radical.

Meses depois de 16 de julho de 1868, isto é, da subida do partido conservador ao governo, e da dissolução da Câmara, os chefes liberais e muitos dos seus correligionários políticos criaram o Clube da Reforma com regulamento e caráter permanente, e o estabeleceram interinamente em uma das salas do Hotel da Europa, e ali, durante três meses, se reuniram todos os dias, entendendo-se sobre a direção da imprensa e da ação legal do partido em oposição.

No fim dos três meses o Clube da Reforma despediu-se do Hotel da Europa, que ainda mais dolorosas saudades sentiu; porque o freguês tão bom pagador, como o chefe dos radicais, pagava muito mais, tendo tomado sala não a preço de noite, mas por elevado aluguel mensal.

E o Hotel da Europa abandonado, ou deixado pelos liberais, e tendo tomado gosto aos clubes de propaganda política, esperou, mas esperou em vão por freguesia de clube do partido conservador; sem calcular que, estando este a dar as cartas no governo, não desceria a fazer jogo no Hotel da Europa.

Mas não é justo que deixemos na rua o Clube da Reforma.

Despedindo-se do Hotel da Europa foi esse clube florescer nos pavimentos superiores da casa n.º... da Rua dos Ourives, onde muito deveu à solicitude e à dedicação do benemérito liberal e ilustre cidadão Dr. Manoel de Melo Franco, um dos membros da sua comissão administrativa.

Da Rua dos Ourives passou-se o Clube da Reforma para a casa n.º... da Rua Sete de Setembro, e aí se acha e se mantêm com o caráter de quartel-general do partido liberal do império.

Não me digam que o Clube da Reforma vem mal encaixado nas Memórias da Rua do Ouvidor: menos essa! ele teve o seu berço na Rua do Ouvidor; pois que a sala do hotel que lhe foi alugada abre suas janelas para essa rua, na qual também se fundou a Reforma, órgão principal do partido na imprensa, e importante gazeta diária, que não pode jamais esquecer o nome de Francisco Sabino de Freitas Reis, que mais que qualquer dos outros fundadores concorreu com a sua bolsa e com a sua direção administrativa para essa instituição do partido liberal.

Freitas Reis era homem de grande força de vontade e inteligente empreendedor: foi o primeiro brasileiro que se abalançou a propor-se a considerável empresa industrial na Europa, conseguindo tomá-la sobre si, formar companhia e dotar uma parte da famosa e esplêndida Paris com o notável melhoramento já conhecido e apreciado então no Rio de Janeiro) do ferrocarril para carros urbanos de ração animada, a que chamamos bondes.

(continua...)

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