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#Poemas em verso#Literatura Brasileira

Andanças de uma viola de cabaça

Por Gregório de Matos (1696)

Muito mentes, Mulatinha:
valha-te deus por Damásia!
não sei, quem sendo tu escura,
te ensina a mentir às claras.
Tal vestido, com tal pressa?
não vi mais ligeira saia;
mas como a seda é ligeira,
foi a mentira apressada.
Tal vestido não é teu,
nem tu tens, Damásia, cara,
para ganhar um vestido,
que custa tantas patacas.
Tu ganhas dous, três tostões
por duas ou três topadas;
não chegam as galaduras
para deitar uma gala.
Nem para os feitios chegam
os troquinhos, que tu ganhas,
pois não vale o teu feitio
mais que até meia-pataca.
De Soldado até Sargento,
ou até Cabo de esquadra
não passa o teu roçagante,
nem te chega a triste alçada.
Estes, que te podem dar,
mais que uma vara de caça,
uma cinta de baeta
e saia de persiana.
Colete de chamalote,
e de vara e meia a fralda,
que fazem oito mil-réis,
que é valor da pobre farda.
Todos sabem, que o vestido,
que em verdes campos se esmalta,
é verdura de algum besta,
que em tua Senhora pasta.
Mas o que é dela, teu é,
que é outra que tal jangada,
e talvez por to emprestar,
que ficaria ela em fraldas.
Apostemos, que não vestes
outra vez a verde saia,
e nem de a vestires mais,
te ficam as esperanças?
Ora toma o meu conselho,
e vive desenganada,
que enquanto fores faceira,
não hás de ganhar pataca.

A HUMA DAMA QUE ESTAVA SANGRADA.

Estava Clóris sangrada,
e Fábio, que a visitava
com ver, que sangrada estava
Ihe deu logo outra picada:
ela tão aliviada
ficou, que se ergueu da cama,
dizendo, bem haja a Dama
de Adônis, cuja virtude,
quando me pica em saúde,
eu me sangro, ele derrama.

Como na vida acertou,
onde habita a saudade,
extinta a má qualidade,
a enfermidade acabou:
nunca Galeno alcançou
nas sangrias, que me aplica,
quanto o ferro prejudica,
e eu curada com dieta
já sei, que pica a lanceta,
e somente sangra a pica.

Fábio me curou do mal,
que na cama Ihe informei,
não com xarope de rei,
mas com régio cordial:
se se curar cada qual
somente com seu galante,
há de sarar num instante,
pois quando eu caio doentinha,
não hei mister mais meizinha,
que a meu Mano se levante.

A HUMA DAMA CHAMADA JOSEPHA, QUE EM NOYTE DE SAM JOÃO LHE
REBENTOU HUM FOGUETE BUSCAPE ENTRE AS PERNAS, DE QUE FICOU BEM
MAL TRATADA.

Só vós, Josefa, só vós
sabeis em todo o sertão
festejar o São João,
na noite de catrapós:
os vossos foguetes sós
de fio, taboca, e pez
são foguetes, pois num mês
tivestes por vosso abono
um foguete busca-cono,
um lugar de busca-pés.
Quem tal foguete botou,
que em boa realidade
vos fodeu contra a vontade
e a foda vos não pagou?
conforme ele se embocou
vinha bem industriado;
mas não foi grande o pecado,
em que o foguete há caído
deixar-vos o cono ardido,
se antes andava arreitado.

O foguete por tramóia
vos queima, e deixa arrasada,
e os que passam pela estrada,
vão dizendo "aqui foi Tróia":
vaso, que sendo uma jóia
não pôde ao menor resquício,
reparar em o artifício,
digam-lhe em forma de pedra
escallo armado de Yedra
yo te conoci Edifício.

Deixou-vos vosso parceiro,
vendo, que entre tantas falhas,
O que eram altas muralhas,
hoje é triste pardieiro:
que faria o pegureiro
vendo, no que vaso foi
lo que va de ayer a oy
e Ihe dizíeis ali,
que ayer maravilla fuí
y oy sombra mia aun no soy.

Deixou-vos tão de carreira
com medo deste fracasso,
pois viu, que o que era vaso,
já agora estava caveira:
como quereis, que vos queira,
nem que torne ao vosso horto,
se de pasmado, e absorto
Ihe pareceu, que seria
pecado de Sodomia
fornicar um vaso morto.

Daquela campanha chã
tão rasa, e tão abrasada
fugiu, porque era estampada
a pedra da Itapoã:
e como cada manhã
a pedra furada atroa,
e o homem era pessoa
tão amigo de um bom trato,
vos disse "fora Lobato,
que esse vaso mal me soa".
Mas como vós sois cachorra;
e sobre isto ardida estais,
de uma em outra porta andais
pedindo esmolas de porra:
não achais, quem vos socorra,
nem quem para vós se emangue,
com que a cada pé de mangue
chorais, que em tão triste caso
ninguém vos aceita o vaso,
temendo Ihe queime o sangue.

Josefa, o que está melhor
ao vosso cono caveira,
é dá-lo uma sexta-feira
de Quaresma a um Pregador:
porque ele com seu fervor,
e co'a caveira na mão
fara tão grande sermão,
que os homens por seu abono
ouvindo o memento cono
todos se arrependerão.

A HUMA DAMA, A QUEM SOLICITANDO-A O POETA, LHE PEDIO DINHEYRO, DE
QUE ELLE SE DESEMPULHA.

Senhora, é o vosso pedir
um impedir as vontades,
que pertendem humildades,
de quem deseja servir:
faz-me vontade de rir
um pedir tão despedido,
que dele tenho entendido,
que o pedir despedir é:
bem podeis viver na fé,
que esse pedir é perdido.

(continua...)

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