Letras+ | Letródromo | Letropédia | LiRA | PALCO | UnDF




?
Busca avançada
Compartilhar Reportar
#Crônicas#Literatura Portuguesa

Crónicas de Londres

Por Eça de Queirós (1940)

O meeting dispersou, sem se tomar nenhuma resolução: e creio que a maioria foi aos Braços de El-Rei verificar a qualidade do gim e as formas das serventes.

A Inglaterra é uma grande nação. Longe de mim apresentar este meeting como o tipo clássico dos meetings ingleses. Não. Conto apenas o que me parece ser um caso divertido.

Chega-me neste momento uma triste notícia. Vítor Manuel morreu: ainda ontem o seu antigo ministro, velho amigo e camarada de armas, o cavalheiresco general de La Marmora era enterrado – já hoje desaparece ele, o rei galantuomo, uma das personalidades mais interessantes da política moderna. Perde-se assim um grande patriota; porque o traço eficiente do seu carácter foi este: amar a sua pátria; não a sua pequena pátria, a Sabóia, mas a sua grande pátria, a Itália.

A sua biografia é ao mesmo tempo a crónica da Itália unida. No fim da batalha de Novara, Vítor Manuel, então moço, que se batera heroicamente, retirava-se do campo desastroso –quando de repente, estacando o cavalo e brandindo a espada para o lado onde se acendiam os fogos do acampamento austríaco, exclamou:

– Per Dio! L’Italia se farà!

E toda a sua vida foi passada a fazer a Itália. Foi este o seu pensamento central; a ele sacrificou tudo; inclinações pessoais, repugnâncias de educação, devoções secretas, até orgulhos de família; decerto lhe custou a ele, educado por padres e amigo de Pio IX, católico fervente no fundo, causar tanta amargura ao chefe da Igreja; decerto lhe doeu a ele, de uma raça tão altiva, ceder à França a Sabóia, berço da sua raça; decerto lhe foi amargo o dia em que teve de dar sua filha Clotilde ao príncipe Napoleão, ateu, de uma família de aventureiros, quase velho, de costumes tão livres. Mas a Itália exigia um sacrifício. Decerto havia nele muita ambição. A família de Sabóia é orgulhosa, e ele não seria homem se lhe não fizesse bater o coração a ideia de reinar na Itália unida, e de deixar o trono, que foi de césares e de papas, à sua raça; mas se esse orgulho concorreu para fazer uma grande nação livre, que esse orgulho seja bendito!

Pessoalmente era o tipo do fidalgo: nobre, fiel à sua palavra, bravo, de hábitos sóbrios; caçar o chamois, comer a pulenta, viver nos montes, bastava-lhe; nos jantares oficiais conversava sem tocar nos pratos, com as mãos apoiadas aos copos da espada; era um conversador fino, vivo, rápido, sobretudo quando falava no seu querido dialecto piemontês. Em campanha gostava de dormir ao relento, embrulhado numa capa. Amava o cavalo como um cavaleiro andante. Depois da batalha de Novara, quando o despótico general Radeztky veio combinar à sua tenda as condições do armistício, Vítor Manuel não quis tratar sem que lhe fosse restituído o seu cavalo favorito, que fora perdido na confusão da retirada. Este traço tem um ar de legenda heróica, que encanta. Eram estes rasgos que o faziam amado.

Fala-se, com um certo ar repreensivo, dos seus muitos amores; para mim torna-se simplesmente mais simpático; ele não era um filósofo, nem um abade, nem um místico: a sua adoração da beleza faz parte do seu carácter de herói. A fidelidade a uma só é sentimento belo, mas pertence aos tempos líricos do rei Artur e da Távola Redonda. Sir Galahad, que tinha um lírio no escudo, dizia, percorrendo o mundo à busca do Santo Graal: «Eu sou forte, porque sou virgem.» E uma santa palavra; mas Sir Galahad, a não ser em verso e interpretado por Tennyson, faz ligeiramente sorrir. E neste ponto, o rei galantuomo seguia as tradições de seus avós da Renascença, e não as dos cavaleiros do rei Artur.

Foi uma pleurisia que o matou. Os príncipes de Sabóia vivem pouco. Em crianças são débeis; depois, subitamente, tomam um desenvolvimento robusto e declinam depressa. Até ao momento extremo conservou o espírito lúcido. Minutos antes de expirar, chamou o príncipe Humberto, apertou-lhe a mão, deu-lhe um olhar de amor e disse serenamente: «Addio!» O príncipe saiu chorando desesperadamente, e o rei morria. Tinha comungado. Dois vigários do Vaticano tinham vindo, com a bênção do papa, levantar a excomunhão. Pio IX, ao saber que a agonia do rei se aproximava, disse, muito agitado:

– Se não fossem estas pernas, que não querem, eu mesmo levaria os sacramentos ao rei!

É singular que Vítor Manuel, que vira passar como um sonho toda a velha Itália, tudo o que se lhe opôs e que o combateu – príncipes despóticos, grão-duques intriguistas, Bourbons fanáticos, o grande Mazzini, carbonários e conspiradores, camisas-vermelhas e garibaldinos – só não sobreviveu ao seu grande adversário: o papa. Esse aí fica, como uma personificação da velha Itália sacerdotal e autoritária. E é esse que, depois de tantas lutas e de tantas injúrias, o ajuda a bem morrer.

Assim vão desaparecendo os grandes italianos da unificação: Cavour, Ratazzi, Mazzini e Vítor Manuel. Garibaldi resta, mas tão velho que está mais na história que na vida.

(continua...)

« Primeiro‹ Anterior...4041424344...Próximo ›Último »
Baixar texto completo (.txt)

← Voltar← AnteriorPróximo →