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#Romances#Literatura Portuguesa

A Capital

Por Eça de Queirós (1925)

d'arromba ! » e Arthur pensava já em se despedir da pharmacia e passar os seus dias na redacção, onde elle queria pôr cortinas de reps vermelho e um sofá.

Mas os prospectos recolheram poucas assignaturas. Dos dous jornaes que havia em Oliveira, um, chamava-se O Oliveirense, o outro, O Echo de Olireira, e aquelle titulo A Nova Era, considerado muito « philosophico representando interesses humanitarios estranhos á localidade, não attrahiu a adhesão da Villa. De facto, a auctoridade assustada conspirava activamente contra a creaqão da Bra : dizia-se que o snr. administrador fôra de loja em loja, pedindo que se não animasse « uma opposição facciosa que queria lançar sizania na Villa A Assembleia, hostil ao botequim da Corcovada, recambiou o prospecto. O João Valente que promettera generQsamente duzentos mil réis para as despezas iniciaes -— exigiu depois fiador e uma letra do Villela, a tres mezeg. O Villela, offendido, injuriou-o na Corcovada. Romperam. —E a Era morreu, como um facho humido de sarmento, que depois de fumegar um minuto se extingue, sem accender a pilha de lenha sobreponta.

Foi um desgosto para Arthlü'. Mas ficára muito impressionado por esta idéa d'influencia local. Lisboa parecia-lhe agora inaccessivel ; o seu grande amor pela linda desconhecida d'Ovar, que o atbrahia

para lá, sumira-se insensivelmente como agua que a areia absorve. Sem protecção, vivendo n'aquelle recanto de provincia, nunca lá poderia fazer representar os Amores de Poeta. A sua carreira estava limitada á Villa e á pharmacia . . .

Pois bem ! Porque não applicaria o seu talento, as suas maneiras, a fazer a conquista d'Oliveira d'Azemeis Os seus dous annos em Coimbra, o nome respeitado das tias, habilitavam-no a conhecer o Carneiro, as Guedes ; poderia ir-lhes ás soirées. Ahi, estava certo, faria sensação pela sua conversa, pe 10s seus versos, recitados ao piano ; lançaria a idéa duma « representação de curiosos b. Poderia propôr os Amores de Poeta ; talvez fosse o meio de fazeri um casamento rico . . .

Começou logo a frequentar a missa das dez, de chapéu novo e luvas pretas : collocava-se junto ao altar-mór, muito grave, mostrando a sua devoção. Ao fim da missa, cumprimentava respeitosamente os cavalheiros ao lado, o bacharel Pimenta, o admi nistrador. Evitava mesmo passear com o Rabecaz. Porém, segundo dizia o Villela, que o admirava e que era o confidente d'estas ambições, para se « furar em Oliveira » era indispensavel pertencer á Assembleia : Elle mesmo, cheio de solicitude, se encarregou de sondar o Carneiro, n'esse anno presidente da direcção.

Ás primeiras palavras, porém, o Carneiro recusou ; esgazeou os olhos e exclamou :

—O que Ora essa ! Se deixarmos entrar o ajudante da pharmacia, temos cá ámanhã o marcador do bilhar !

— Escute, homem ! É o sobrinho das manas Corvellos. São pessoas respeitaveis.

— Parente pobre ! Têm-no em casa por esmola. Nada de maltas ! Nada de maltas !

Socios ricaços, como o Castro e o Boavida, informados da pretenção d'Axthur, tinham mesmo rosnado :

— Ora o garoto !

Um repellão tão injustificavel enfurecou Arthur, e, na vibração do desespero, rimou um soneto terrivel contra a Assembleia e o Carneiro, de quem exclamava :

Eil-o repoltreado na íanella,

Remexendo os cordões do ró-de-chambre,

Tendo na pança a fórma da panella, No nariz o vermelho do fiambre . . ,

E no ultimo terceto declarava que só quizera ir da pharmacia ó Assembleia :

Munido do meu pó insecticida

Para matar, no nojo da minh'alma,

Os percevejos — Castro e Boavida r

O soneto foi furiosamente applaudido, á noite na Corcovada, e, na manhã seguinte, appareceu affixado, em pasquins, em letras colossaes, á porta da Assembleia e á esquina da casa do Carneiro.

Que celeuma ! Socios da Assembleia, aterrados como n.'um perigo publico, cercavam o administrador, reclamando que se puzesse « a gente de bem ao abrigo da canalha ! »

S. S. a , torcendo a pêra, affectado, rosnou palavras graves sobre « providencias . . . medidas energicas , . , » Na praça havia grupos : dizia-se que o auctor era o Arthur das Corvellos, e tendo-se visto, ao anoitecer, o Carneiro entrar impetuosamente na pharmacia, gente correu, a espreitar por entre os bocaes escarlates, na certeza de « que ia haver bordoada à.

Maq Arthur a essa hora triumphava na Corco vada.

Na manhã seguinte, porém, ao entrar na botica, encontrou sobre o balcão uma carta sobrescripta da para elle, com a letra de Vasco — que, no seu canto, parecia abysmado no Commercio do Porto. A carta dizió:

(continua...)

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